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Gianni Ratto faz manifesto por uma cenografia descartável

Em autobiografia, cenógrafo italiano não tem medo de ser esquecido e traça a paixão por uma arte fugaz

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2016 | 03h00

No fim dos anos 1970, o antigo Teatro República abrigava um pequeno mundo ideal no Rio de Janeiro. Batizado de Teatro Novo, o espaço localizado no centro histórico carioca abria às 8 da manhã e durante todo o dia e noite reunia um grupo de jovens artistas que tinha aulas de interpretação, estética musical, comunicação e dança.

Era uma das primeiras vezes no teatro profissional que uma companhia dava aos seus contratados todas as vantagens trabalhistas de lei: 13.º salário, seguro sobre acidentes, assistência médica, férias pagas e uma refeição por dia. 

Antes que completasse um ano, o sonho do cenógrafo e diretor artístico do Teatro Novo Gianni Ratto (1916-2005) se transformou num pesadelo travestido com o uniforme do Dops. Ele recorda esse momento em A Mochila do Mascate, autobiografia reeditada pela editora Bem-Te-Vi. No episódio, as duas entradas do teatro foram invadidas e a aula de comunicação interrompida por agentes que apontavam suas metralhadoras para moças e rapazes de 18 e 20 anos. 

Todavia, o ato brutal que forçou o fechamento do espaço já indicava para o artista italiano que o teatro, em especial a cenografia, tinha um destino peculiar: ser descartável. Ratto veio para o Brasil em 1954 a convite da atriz Maria Della Costa. Na Itália, ele foi um dos fundadores do Piccolo Teatro de Milão, diretor do Teatro Scala e assinou a cenografia de uma inusitada versão de A Tempestade, obra de William Shakespeare que certamente provocaria protestos por parte dos atuais defensores dos animais. 

Com forte tradição em receber espetáculos a céu aberto, o Jardim de Boboli, em Florença, foi escolhido como o palco da empreitada. Nele, há um lago artificial com uma ilha e sobre ela um grande chafariz com uma estátua de Poseidon. O lugar perfeito, com um cenário que incluía um barco real. No primeiro ensaio geral, tudo seguia em paz até a entrada do monstro Caliban.

Quando o ator pronunciou a primeira frase com uma voz gutural, um coro de rãs despertou e se uniu coaxando em resposta. Os bichos se empolgaram tanto que os atores não se ouviam até que foi preciso interromper os ensaios. Às vésperas da estreia , alguém sugeriu eletrocutar os batráquios e a notícia foi divulgada pelos jornais locais. A solução, menos mortal, foi lançar um leve anestésico na água, que entorpeceu e emudeceu as rãs de Caliban.

O barulho interrompido dos animais na Itália foi substituído por O Canto da Cotovia, primeiro espetáculo que Ratto dirige no Brasil, na inauguração do Teatro Maria Della Costa, em 1954. Na ocasião, a montagem recebeu quatro Sacis, antigo prêmio do Estado. Foi em uma das apresentações que o italiano conheceu o cenógrafo, diretor e jornalista Flávio Rangel.

Definido por Ratto como “generoso e egoísta”, o colega brasileiro chegou a representar o Brasil no festival Théâtre des Nations com o espetáculo Gimba, de Gianfrancesco Guarnieri. Se, no início, os dois gênios do palco se desentendiam por detalhes em seus cenários, a parceria iria se enfraquecer quando Ratto foi escolhido para montar Gota d’Água, de Chico Buarque. 

No entanto, se a modernidade alcança os palcos nacionais com o Vestido de Noiva de Ziembinski, Ratto lança mais um fundamento com A Moratória (1955), de Jorge de Andrade, assim valorizando autores como base de sua identidade cênica. Essa era a segunda vez que trabalhava com Fernanda Montenegro a quem iria dirigir por sete anos em montagens como O Mambembe (1959), de Artur Azevedo, construída com intensa pesquisa na geografia do Rio de Janeiro. 

Todas essas experiências, compartilhadas pelo cenógrafo entre textos poéticos e memórias, buscam trazer a coragem que Ratto tinha diante da própria criação. Sua confissão é de que o destino da cenografia é ser descartável. Como um hóspede de ideias, o palco se autodestrói tão logo a peça acaba. E pensar assim significa que sempre haverá chance de renovação, até mesmo nas convenções do palco e nos três sinais que anunciam o início do espetáculo. Gianni Ratto via o Brasil como um grande cenário, pleno de transformações.

A MOCHILA DO MASCATE. Autor: Gianni Ratto Editora Bem-Te-Vi (382 págs., R$ 110)

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