Nicolas Caratori
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Gerald Thomas espelha insatisfação com destino da humanidade em 'G.A.L.A.'

Encenador reflete sobre como renascer artisticamente após o caos, o que inclui adeus a Beckett

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2021 | 20h00

Uma mulher passa por um momento crítico, como um barco à deriva que corre o risco de naufragar. Sozinha, ela busca uma solução enquanto reflete sobre o problema: ela rompe relação com Sancho, o namorado, e com o universo de Samuel Beckett (1906-1989), autor teatral que melhor sintetizou as relações humanas no século 20. “Ao final, tudo termina em ruínas, o que nos permite fazer analogia com o que nos rodeia hoje”, afirma Gerald Thomas, diretor e autor de G.A.L.A., seu primeiro espetáculo criado para o formato online, com estreia prevista para as 21 horas desta quarta, 22, na página do Sesc Avenida Paulista no YouTube.

Interpretado por Fabiana Gugli, o espetáculo reflete obviamente os pensamentos de Thomas, cujo estado natural parece ser sempre a indisposição – não física, mas moral e intelectual. Como o “rompimento” com Beckett, de quem foi amigo e seguidor, tornando-se um de seus principais interlocutores e encenadores contemporâneos nos últimos 40 anos. “Eu planejava montar três peças da primeira fase de Beckett com a Fabiana, mas desisti.”

O ponto final pode ser encontrado logo nas primeiras falas da mulher de G.A.L.A., quando conversa com o namorado por telefone: “Beckett não está mais lá, seu imbecil. Beckett já virou concreto. Agora é tudo de concreto. Para com essa coisa de ficar idolatrando os cacos desesperançosos da história”.

Beckett compôs sua obra em torno de uma visão da transitoriedade da vida, além de saudar o absurdo existencial com um humor característico. Para os críticos, seu pessimismo está sintetizado na afirmação de Nell, a mãe encerrada em uma urna de cinzas mortuárias em Fim de Partida (1956): “Nada é mais divertido que a infelicidade”.

Em um determinado momento de G.A.L.A., a personagem, ainda conversando (brigando?) com o namorado, diz uma frase com forte teor beckettiano: “A gente vive. A gente sonha. A gente idealiza e a gente se movimenta, a gente atua, se politiza, se mobiliza, se sente ‘vivo’ e ‘militante’, mas, e depois... E depois... Nada”. 

Nesse estranho rompimento traduzido em um abraço, Gerald Thomas espelha sua insatisfação com o destino da humanidade. A pandemia, por exemplo, tornou-o um homem agora pouco avesso a multidões. “A gente se desacostumou de ter pessoas ao redor depois de passar um ano e meio isolado”, observa ele, que vive há anos em Nova York. “Por isso, considero peças transmitidas pela internet como um jeito de sobreviver, por mais que isso seja triste para o teatro.”

Assim, ao escrever o texto, Thomas promovia uma série de inversões de papéis. A começar pelo título, que homenageia Gala Éluard Dalí (1894-1982), que primeiro foi mulher do poeta Paul Éluard e, depois, do pintor surrealista Salvador Dalí. Inspiração para eles e vários outros artistas, Gala teve uma influência decisiva na conversão de Dalí ao surrealismo – no final da vida, porém, foi acusada de gananciosa ao empresariar a carreira do pintor. “Sou fanático por ela, que comandava a vida sexual do casal, já que Salvador não conseguia manter ereção, o que se nota simbolicamente em sua obra, com imagens de ovos derretendo”, observa Thomas. “Gala tinha muitas pretensões, mas foi apenas musa de Dalí, não passou disso.”

As falsas impressões, aliás, comuns em qualquer atividade humana e marcadas pela imagem supervalorizada que muitos vendem de si, incomodam o encenador. “Quanto mais vivo, mais percebo que ninguém sabe nada”, comenta ele, aos 67 anos. “Ninguém se lembra de nada. E vai se criando um arquipélago de verdades, uma espécie de ordem artificial que Deus não botou ali, mas sim a classe média.”

O fluxo do pensamento dá contorno ao texto da peça, cujos ensaios foram realizados de forma online, com Fabiana Gugli no palco do Sesc Avenida Paulista recebendo instruções de Thomas, em Nova York. “Ao receber o texto, eu não tinha ideia de como ele poderia ser dito ou como poderia ser montado”, disse a atriz, em material de divulgação do espetáculo. “Isso é muito próprio da dramaturgia do Gerald, a palavra é só mais um elemento na cena. Só quando os ensaios começam, a encenação dá suporte à dramaturgia e os sentidos e significados começam a aparecer e ganhar conexões muito peculiares. Nessa peça especificamente, muitas imagens habitam este lugar onírico: uma mulher à deriva, rompendo uma relação, o rompimento com Beckett e seu universo, uma inversão de papéis entre musa (Gala) e criador, delírio, sonho, referências ao surrealismo, uma busca de sentido e uma imensa solidão.”

A imagem de Fabiana no barco à deriva remete, em sua estilização, ao filme E la Nave Va, de Federico Fellini, que recriou o mar oniricamente, com papel celofane. Em suas falas, a atriz reproduz o jogo de ambiguidade sexual que norteia o texto, mostrando tanto Gala Dalí em funções masculinas como o artista Marcel Duchamp vestido de mulher. “O jogo da bissexualidade avança”, comenta Thomas, “até chegar à crise existencial”.

Depois de apresentada no canal do YouTube do Sesc Avenida Paulista, a peça continuará disponível, com acesso gratuito. E, quando finalizava G.A.L.A., Thomas também arrematava outro texto, Traidor, que terá o ator Marco Nanini vivendo quatro papéis. Entre outros projetos, Thomas vai ainda participar de uma performance, no dia 3 de outubro, que remete à arca de Noé. “É um trabalho para o qual ganhei uma bolsa da prefeitura de Nova York e no qual vou atravessar de barco o East River (estreito que separa Long Island da ilha de Manhattan e do Bronx).”

Ao longo da travessia, que será transmitida, ele vai arrancar a primeira página de importantes obras da literatura e colocá-la em uma garrafa, que será solta no mar. “Quem sabe pode salvar a vida de algum náufrago”, comenta ele, que já ironiza a ação. “Como navios de grande porte transitam pelo rio, espero que nenhuma onda provocada por eles vire o meu barco.”

O bote como meio de salvação, aliás, é uma metáfora que pode ser aplicada aos recentes problemas enfrentados pelo encenador. A falta de trabalho motivada pela pandemia, mal que atingiu praticamente todo o mundo artístico, fez com que suas dívidas se acumulassem e o ameaçassem de despejo do apartamento onde mora, no sul da ilha de Manhattan: o total chegou a US$ 3 mil.

Thomas conta que confidenciou o problema a um amigo, mas este supostamente tornou público o problema, incluindo que o encenador estaria disposto a vender seus trabalhos como artista plástico para saldar a dívida. Resultado: a notícia viralizou, Thomas dispôs seu material em um leilão virtual e negociou 19 desenhos e pinturas por valores aproximados, segundo ele, a US$ 1 mil cada um. E, mesmo sem revelar o total arrecadado, Thomas garante que voltará a ter o aluguel em dia.

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