Georgette Fadel invoca clima de sala de aula em 'Afinação I'

Georgette Fadel invoca clima de sala de aula em 'Afinação I'

No papel da filósofa francesa Simone Weil, atriz coloca o pensamento racional no seu devido lugar de mestre da vida

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2017 | 05h00

Não é nada raro ver a atriz e diretora Georgette Fadel no palco com tanta honestidade. Ela discordaria. Diria que, na verdade, o espetáculo Afinação I, que está em cartaz no Sesc Ipiranga, é o trabalho em que mais está à vontade, com o que faz e com o que diz. 

Para isso, ela se inspirou em sua mãe, irmã e em diversos professores que povoam sua memória afetiva. “Existem profissionais que são como contadores de histórias. Eles são os responsáveis por provocar em nós o desejo de buscar o conhecimento”, diz. Bastou reunir esse desejo por aprender com a produção de grandes pensadores para concretizar a montagem. 

Na peça, ela é a filósofa e escritora francesa Simone Weil e está em uma aula aberta em que palestra sobre opressão no mundo. Ela também apresenta um conjunto de pensamentos de Karl Marx e Hegel. “Todos eles defenderam o pensamento racional como uma visão de mundo, para que a gente aprenda a não reagir com base nas emoções. A razão surge como uma força contra os que querem nos enganar, impedindo oportunidades de opressão.”

Quando a atriz afirma que a peça é aula, significa que é uma aula mesmo. Pranchetas com papel e caneta são distribuídas ao público para instaurar esse ambiente que se tornou campo de batalha e ocupação por estudantes do Brasil, nos movimentos realizados no ano passado. “É uma maneira de mostrar como a sala de aula é importante e necessária”, diz a atriz. “É o momento em que trocamos experiências e temos a chance de aprender com liberdade.” 

Junto ao papel de Simone, que se tornou operária para conhecer de perto o cotidiano das linhas de montagem de automóveis, Georgette traz consigo outra personagem também frequentadora de fábricas. Em Santa Joana dos Matadouros, texto de Brecht escrito na turbulência do entreguerras, Joana sobrevive na indústria de carne em Chicago, durante a crise de 1929. Sua figura central explora a fé como a bandeira branca no embate de patrão e empregados. “As duas mulheres têm muito em comum. O pensamento produzido está ligada às relações de trabalho. Para Joana existirá um caminho de conciliação de classes, por meio da fé. O que não é compartilhado por Simone”, explica. 

Por outro lado, a atriz aponta que Hegel é quem oferece uma possível solução. Ele mostrou um caminho simples de aplicar. “Precisamos nos sentar, nos reunir e pensar, com muita paciência.” Com esse mosaico de ideias, a atriz buscou dar o protagonismo ao pensamento. “Eu não quis nem mesmo trilha sonora ou qualquer outro elemento que pudesse roubar a nossa atenção. Tem que ser tão agradável que o público pode levantar a mão e participar, se quiser”, afirma.

Em 2017, ela conta que o aprendizado continua com outros projetos. No próximo mês, a atriz viaja com o elenco de A Tragédia Latino-Americana, montagem dirigida por Felipe Hirsch. Em meados de maio, também inicia na direção do novo espetáculo da Cia Mungunzá de Teatro, grupo que prevê a inauguração do esperado Teatro de Contêiner em março. E até o fim do ano vai dirigir seu primeiro longa: Jesus, O Filho do Homem. Será uma adaptação “bem caseira” da obra do libanês Khalil Gibran. 

AFINAÇÃO I. Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822, tel. 3340-2000. 3ª, 4ª, 21h30. R$ 6 / R$ 20. Até 1º/2.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.