Acervo|Estadão
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Análise: Garrincha era um gênio das pernas tortas, que seduzia e encantava o público

Bob Wilson tem o mérito de recolocar em circulação o nome do jogador

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2016 | 02h00

No mínimo, a obra de Bob Wilson tem o mérito de recolocar em circulação o nome de Mané Garrincha. Segundo maior jogador brasileiro de todos os tempos, Mané saiu de circulação, até ser ignorado pelas gerações mais novas. Em parte, é compreensível. Não o viram jogar (o auge do jogador se deu entre 1958 e 1965) e as imagens de suas proezas são poucas. Isso, comparado ao arquivo de imagens legadas por seu contemporâneo, Pelé. Este teve carreira mais extensa - foi até 1974, no Brasil, e ainda atuou três anos nos Estados Unidos.

Mané, não. Quem não teve o privilégio de vê-lo, ao vivo, tem de se contentar com as poucas imagens dos seus dribles fantásticos, de seus gols, sua ginga e magia, a mística da camisa do Botafogo e das Copas de 1958 e 62. Nesta, jogou por dois - por ele mesmo, e por Pelé, que se machucara. Fez de tudo - gols de cabeça e de perna esquerda, que não eram o seu forte.

Sua jogada característica era pela ponta-direita, em que hipnotizava e humilhava os marcadores, por ele chamados de “joões”. Saía sempre pela direita, em jogada que seria manjada não fosse ele a executá-la. De pernas tortas, era até improvável que caminhasse direito. Mas tinha impulsão fantástica, um senso de equilíbrio fora do normal e um sentido de invenção insuperável. Era um mágico. Ou um clown, que desnorteava adversários e fazia o público cair na gargalhada. Driblava, voltava, deixava o zagueiro alcançá-lo... apenas para ser driblado de novo. Tudo pela brincadeira. Comportava-se um pouco como toureiro diante de um miúra xucro. Hoje em dia, com a seriedade de terno e gravata importada dos europeus, seria hostilizado por adversários e talvez até advertido por árbitros. Naquele tempo parecia normal jogar para o público e diverti-lo. Era outro tempo, outro Brasil. 

Não se ganhava tanto e Garrincha, um deus dos estádios, tinha vida pessoal conturbada. Fumava e bebia, teve um punhado de filhas com a primeira mulher, Nair, e não podia ver um rabo de saia. Sua união com Elza Soares alimentou colunas de fofocas por muito tempo, mas revelou-se estável. Viveram 15 anos juntos e tiveram um filho, que morreu num acidente aos 9 anos. Garrincha foi gênio num tempo em que o jogo era mais lúdico e menos tático. Éramos mais leves, mais inventivos, talvez ingênuos, mas felizes. Garrincha “nos representava”, como se diz hoje. 

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