Alex Silva|Estadão
Alex Silva|Estadão

'Gabriela - O Musical' revisita a obra de Jorge Amado

Diretor João Falcão aposta em uma atuação livre de amarras

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2016 | 05h00

O início da preparação do musical foi marcado por um certo desconforto de alguns, pânico até. Afinal, no elenco de 21 atores, apenas uma, Daniela Blois, sabia qual papel lhe estava reservado. “Não gosto de definir, já no início do processo, o papel de cada um. Os elementos me serão apresentados pelos atores, são eles que vão me apontar a função em cena de cada um”, conta o diretor João Falcão, cujo peculiar método de trabalho é um dos destaques de Gabriela - O Musical, que deve estrear no dia 2 de junho, no Teatro Cetip, em São Paulo.

Inspirado no clássico romance Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, o espetáculo é a melhor acepção das palavras “teatro musical”. Afinal, a julgar pelo ensaio acompanhado pelo Estado, elementos lúdicos, essencialmente teatrais, encaixam-se com perfeição na interpretação da cerca de 30 canções selecionadas pelo encenador. 

Um exemplo: a personagem Glória, fogosa mulher que passa o dia plantada na janela, observando e sendo desejada pelos homens locais. Era de se esperar que surgisse uma janela, onde a atriz Juliana Linhares se posicionaria, mas João Falcão preferiu que dois atores se posicionassem, segurando uma madeira na qual a personagem se apoia. Mais: o trio anda para frente e para trás durante a cena, simulando um efeito de zoom, e ainda os dois atores também se colocam atrás de Juliana, brincando com a perspectiva ao posicionar o público dentro da casa de Glória.

“No teatro, o ideal é a representação livre de amarras”, define João Falcão, que sempre aposta no processo criativo como o ponto mais enriquecedor para o sucesso do trabalho. Assim, a iluminação é um ponto-chave em seu fazer teatral, assim como a troca de experiências com o elenco, no dia a dia de ensaios. O método está de acordo com o pensamento da produtora do espetáculo, a Caradiboi Arte e Esporte.

“É um processo louco, porque é apaixonado”, acredita o ator Leo Bahia, que já trabalhou com o diretor na Ópera do Malandro, em que todos os papéis femininos eram representados por homens. “João gosta de trocar estímulos: ele passa ideias que inicialmente parecem contraditórias, mas que, ao longo do processo, acabam se combinando.”

Depois de encantar público e crítica com um notável desempenho como o jovem Chacrinha, Bahia deverá interpretar um personagem menos destemido - o professor Josué, apaixonado pela aluna Malvina, mas que se engraça (e se desgraça) com a fogosa Glória. “É o oposto do jovem Abelardo Barbosa. Josué é uma mistura de sentimentos antagônicos, pois é tímido, corajoso, temeroso, fogoso, enfim, um personagem muito rico.”

É com a multiplicidade de sentimentos que João Falcão gosta de trabalhar. Assim, com exceção de Daniela Blois (que foi selecionada para viver Gabriela), o restante do grupo passou por praticamente todos os personagens, permitindo que o encenador descobrisse, aos poucos, quem deverá viver qual papel. E também transformando todos em potenciais substitutos em eventuais faltas. É, basicamente, a aplicação da “regra arregral”, conceito de liberdade de criação preconizada pelo multiartista Antonio Nóbrega. “Isso acentuou a necessidade de ser criar uma grande união no grupo, o que permite que todos tenham um entendimento completo da trama”, observa Danilo Dal Farra, que deverá interpretar Nacib, o turco que se apaixona por Gabriela. “Juntos, eles dois representam uma espécie de virada na evolução humana, uma alegoria sobre uma nova forma de ser e de se relacionar.”

Dal Farra aponta para um importante ponto no romance de Jorge Amado, que já pregava a derrubada de tabus, nos ainda conservadores anos 1950. “Amado fez a fusão amorosa entre o erudito e o popular, erotizou a narrativa, trouxe à tona questões sobre o não sectarismo, a miscigenação, a luta contra o preconceito e contra a pseudoerudição europeia”, comenta Ana Maria Machado no livro Romântico, Sedutor e Anarquista - Como e Por Que Ler Jorge Amado Hoje (Objetiva).

 

“São detalhes que sobressaem na montagem do João”, acredita a coreógrafa Lu Brites, que trabalha como diretora de movimentos e preparadora corporal no musical. “Aqui, Gabriela é a própria representação do feminino livre, ao querer ser uma mulher sem amarras ou imposições sociais, quase uma Pagu do mato. João também trabalha com a velhice e sua importância por preservar a memória imaginosa - daí o papel carinhoso representado por Mauricio Tizumba, que vive o narrador da história e da qual faz parte, como o moleque Taísca.”

Se, no começo do processo, iniciado depois do carnaval, João Falcão provocou aquele temor no elenco por não definir os papéis, na sequência, ele conquistou o grupo com suas soluções criativas. O palco, por exemplo, terá duas esteiras rolantes que levam de uma lateral à outra, e uma terceira, perpendicular, que virá do fundo do palco para próximo da boca de cena. “É um detalhe aparentemente simples, mas que traz incríveis soluções para momentos vividos dentro de um barco ou mesmo quando os personagens cruzam com outros ao caminhar pela vila”, observa o ator Luciano Andrey. 

Em uma temporada marcada por grandes (e ótimas) produções e por custosas parafernálias, Gabriela - O Musical reforça o método criativo de João Falcão que, mesmo com orçamento adequado para tempo de crise, extrai o máximo do mínimo.

 

'O mistério da simplicidade' de Daniela Blois

Escolhida entre mais de 700 pretendentes, Daniela Blois, de 26 anos, enfrenta com naturalidade o papel já vivido por Sônia Braga e Juliana Paes. “Elas apresentaram cada uma a sua Gabriela, na televisão e no cinema. Eu busco a minha, que será essencialmente teatral”, conta ela, que estreia como atriz. 

Nascida no Pará, Daniela, que recém-terminou o curso de medicina, é cantora e vive em Manaus, onde se tornou conhecida ao se apresentar em bares e por participar de um grupo de maracatu, Eco da Sapopema. Incentivada por amigos, que viam seu belo rosto moreno e os cabelos cacheados como perfil ideal para a personagem, ela se inscreveu na seleção do papel.

Não foi apenas sua beleza natural, no entanto, que encantou João Falcão. “Dani apresentou o mistério da simplicidade”, justificou o encenador que, ciente do potencial artístico a ser explorado na jovem, lhe deu liberdade total durante os ensaios. “Por enquanto, ele não me diz o que tenho de fazer, pede apenas que interprete da forma que achar melhor”, conta Daniela que, em suas experimentações, busca auxílio dos colegas, que fazem sugestões. “Como tenho uma voz habitualmente baixa, aprendi a projetá-la em cena. Também minha movimentação no palco vem mudando, pois uma cantora não necessita usar tantos recursos como uma atriz.”

João Falcão acompanha atento as experimentações. E aprova. “Ela não se desespera quando se depara com um novo problema. Simplesmente, busca a melhor solução. É essa espontaneidade que me interessa mais em explorar artisticamente.”

GABRIELA - O MUSICAL

Teatro Cetip. Rua dos Coropés, 88, Pinheiros. 5ª e 6ª, às 21h; sáb., às 17h e 21h; dom., às 18h. R$ 60 a R$ 190. De 2/6 a 31/7. 

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