Gabriel Villela inspira-se no teatro circense para montar o ‘Auto da Compadecida’

Gabriel Villela inspira-se no teatro circense para montar o ‘Auto da Compadecida’

Diretor faz releitura de clássico nacional de Ariano Suassuna; espetáculo estreia nesta quinta, 8, no Sesc Pompeia

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2019 | 20h36

Tão logo o público se acomoda, dois atores iniciam um desafio de violas – trata-se do esquentamento do grupo mineiro Maria Cutia antes de iniciar, de fato, a apresentação da peça Auto da Compadecida, clássico nacional de Ariano Suassuna, que estreia na quinta, 8, no Sesc Pompeia. “Retomamos a tradição do teatro circense, que é a base da dramaturgia de Suassuna”, comenta o diretor do espetáculo, Gabriel Villela. Mais do que isso – fiel à tradição sedimentada por Bertolt Brecht (1898-1956), ele utiliza canções para não só comentar a ação como também para fazer observações críticas. 

Finalizada em setembro de 1955, a peça Auto da Compadecida foi encenada no ano seguinte, no Recife, sem despertar atenção. Foi a montagem apresentada em janeiro de 1957, no Teatro Dulcina, no Rio, onde alcançou a consagração merecida: logo se tornou um clássico nacional – crítico do Estado, Sábato Magaldi o considerou, em 1962, como o “texto mais popular do moderno teatro brasileiro”.

“O seu encanto está nesse ar de ingenuidade de que a caracteriza, na singeleza dos recursos empregados, no primarismo do argumento, tudo perfeitamente dentro do espírito popular em que a obra se inspira e que quer manter”, observa o estudioso Henrique Oscar, em texto publicado no livro que traz o texto da peça, pela Agir. “Com expressões por vezes rudes e outras pitorescas, o autor conseguiu um diálogo eminentemente teatral, vivo e saboroso, colorido e descritivo, popular sem ser vulgar e paradoxalmente literário, nada tendo de precioso ou alentejoulado.”

Oscar aponta outro detalhe importante, que explica a opção de direção de Villela, baseada em um teatro de rua: “Buscou-se evocar uma representação de circo, uma farsa muito marcada, portanto, em que a caricatura tinha de ser forte”.

Inspirada na mítica brasileira do herói sem caráter, a trama acompanha as desventuras de João Grilo e Chicó, que vivem de trambiques, em uma trajetória que começa com o enterro do cachorro do Padeiro e sua Mulher até chegar em uma epopeia que traz as principais figuras do sertão: o clero, o cangaço, Jesus, o Diabo e a Virgem Maria.

“Juntos, João Grilo e Chicó reproduzem a tradição circense que mostra um palhaço espertalhão, cheio de recursos, que gosta de se meter em situações arriscadas, e outro palhaço ingênuo, covarde, que se deixa influenciar pelo outro e às vezes acaba atrapalhando-o”, comenta o músico e poeta Braulio Tavares, em texto publicado no livro. 

A epopeia do sertão de Ariano Suassuna

Entre os inúmeros detalhes que consagram a peça Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, é sua picardia para tratar de temas delicados, como religião e política. O mesmo acontece na montagem de Gabriel Villela, que estreia na quinta, 8, no Sesc Pompeia. “Temos um momento Damares (Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos), que logo vai ser identificado pela plateia”, conta o encenador, preferindo não dar spoiler.

Trata-se da primeira parceria entre Villela e o Grupo Maria Cutia. E o convite partiu do diretor que, para comemorar seus 60 anos, no ano passado, planejava realizar um trabalho marcante. A escolha não poderia ter sido mais acertada – com 13 anos de estrada, o grupo mineiro especializou-se em espetáculos apresentados em praças, parques e ruas. Nesse período, a investigação autoral promoveu o diálogo entre música e teatro (ironicamente chamado de ‘música-em-cena’), habilitando os atores a executarem ao vivo a trilha sonora, em uma pesquisa que alia dramaturgia à canção.

Tamanha disposição se encaixa perfeitamente nas ambições artísticas de Villela, cuja obra se constrói com tijolos de erudição e reboco de cultura popular. “Logo, eles estavam a caminho do meu sítio, em Carmo do Rio Claro, sul de Minas”, conta o encenador, que mantém lá seu refúgio espiritual e intelectual, além de armazenar os figurinos de seus mais recentes espetáculos.

Inicialmente, eles pensaram em montar Mistero Buffo, do italiano Dario Fo, mas, graças à fervura que marca o contexto da cultura no Brasil atual, Villela sugeriu que buscassem um texto nacional. “Em relação ao canto, não há problemas, pois ali eles são desenvoltos. O que pretendi foi aprimorar o trabalho de interpretação, a linguagem de cena.”

E o toque final para a escolha recair no Auto da Compadecida é a vivacidade de sua linguagem. “Percebe-se a presença de uma estética circense no Auto a partir mesmo das considerações do autor acerca da encenação da peça, registradas na edição do texto”, observa Carlos Newton Júnior, pesquisador especializado na obra de Suassuna. “Do início ao fim da peça, as ações se desenvolvem como se estivessem, mesmo, sendo encenadas em um picadeiro de circo, num daqueles circos sertanejos pobres que o autor conheceu na sua infância.”

“De fato, o autor deixa brechas no meio do texto para que o encenador acrescente seu toque pessoal, que pode ser a inclusão de canções”, conta Villela que, junto do grupo, escolheu músicas que coroassem a magnitude das cenas – a entrada no céu, por exemplo, é marcada por Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, notadamente o uso do verso “sem lenço e sem documento” para ressaltar um total despojamento. A trilha, de um colorido tropicalista, inclui também América do Sul, de Ney Matogrosso. Como de hábito, Villela contou com Babaya, sua fiel colaboradora na preparação vocal. “Não gosto de ator com microfone, mas ela conseguiu equalizar as vozes.”

Os instrumentos, aliás, ganham importância cênica graças à estética barroca de Villela, que salpica o espetáculo de pitadas brechtianas, transformando a música em elemento transformador da cena. “Não gosto quando o elenco canta afinado ou toca os instrumentos no tom correto – nesse momento, atiro uma bolinha de pano neles, avisando que a perfeição não é sempre bem-vinda”, diverte-se ele, que centralizou no trombone o agente desestabilizador. “Ele provoca o erro ao soltar uma nota fora da pauta.” É também por isso que o trabalho já foi enquadrado em um gênero particular: cênico-musical-picaresco.

Não à toa que Villela confessa que, para encontrar o tom do espetáculo, se inspirou também na comediante Dercy Gonçalves (1907-2008), cujo deboche encobria, na verdade, a técnica do improviso, aproximando-a tanto da Commedia Dell’Arte como do circo. “Ela foi uma espécie de Compadecida, cercada de anjinhos como Grande Otelo, Zezé Macedo, Oscarito e outros artistas da chanchada.”

E a improvisação foi responsável ainda por um dos pontos altos do espetáculo, algo que se tornou a assinatura de Villela: o deslumbrante figurino. “Como não tínhamos dinheiro para nada, usamos as roupas que tenho guardadas em meu sítio para elaborar novas peças”, conta ele que, no figurino, traz um discreta, mas poderosa mensagem de protesto: as roupas trazem uma coloração barrenta específica. “É a cor da lama oxidada que destruiu Brumadinho.”

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