MILENA AUREA
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FIT 2018 flerta com propostas que subvertem os limites da cena

Programação da 18º Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto trouxe projetos para além dos palcos

Leandro Nunes / SÃO JOSÉ DO RIO PRETO, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2018 | 06h00

Mais do que organizar uma série de espetáculos e encaixá-los dentro de uma agenda, os festivais de artes cênicas no Brasil têm encarado o desafio de reinventar essa celebração pública entre a plateia e os artistas.

Na 18.ª edição do Festival Internacional de Teatro São José do Rio Preto 2018 (FIT- Rio Preto), o perfil da programação que vai até sábado, 14, incorpora a arquitetura da cidade, a tecnologia e os espetáculos menos convencionais como aposta de uma interação mais singular com o público.

Um deles é Tudo o Que Está ao Meu Lado, do argentino Fernando Rubio. Apresentada em uma represa, em parques ecológicos e praças, a montagem propõe ao público uma experiência olho no olho. Para participar, o espectador deve tirar os sapatos e deitar-se em uma das camas instaladas nesses locais. Ao seu lado, está uma atriz que apresenta um pequeno monólogo, durante 15 minutos. A proximidade com a intérprete e o ruído natural do ambiente serviam como moldura de uma mensagem pelo resgate da intimidade e do afeto com as pessoas.

Em um caminho semelhante, o projeto Corpo/Lentes evidencia a presença do artista no espaço público em um espetáculo multimídia. O lugar escolhido foi o Complexo Swift, uma antiga construção com um graneleiro, feito para armazenar produtos, mas que hoje abriga um complexo cultural, com salas e um teatro municipal. No projeto, Guilherme Di Curzio e Jorge Etecheber captaram áudio e imagens da bailarina Andrea Capelli dançando pelo edifício do graneleiro. Um filme foi projetado e exibido dentro do mesmo lugar das gravações, duplicando os ruídos – em um momento o som digitalizado do trem que passa nos arredores se confundia com o ruído real da composição que se aproximava no momento da apresentação.

Na outra extremidade, o trabalho do performer Maikon K talvez seja um dos mais radicais na programação de um festival de teatro. O Ânus Solar tem inspiração direta no texto curto do escritor francês George Bataille, que versa sobre a ambição de Ícaro de encarar a luz solar e como o corpo humano tentou configurar um terceiro olho que conseguisse tal proeza. “Ele faz uma paródia que compara o ânus dos babuínos, que são aparentes e coloridos, com os dos humanos, que são escondidos”, disse K, em entrevista ao Estado.

Composto por diversas cenas, o espetáculo quer dissolver os limites e criar uma comunhão com a plateia, diz o artista. “Faço um número musical, depois algo mais teatral e até uma exploração do que é clichê para a performance, como o uso de elementos como leite e sangue fictício.” 

Na sessão do dia 8, K acabou se ferindo acidentalmente enquanto manuseava uma serra elétrica no espetáculo. Ao tentar cortar um colchão, a lâmina ficou presa no tecido da cama e feriu a parte interna da coxa esquerda do artista. Quando o acidente aconteceu, muitas pessoas já tinham deixado a sala. “Faço esse espetáculo desde o ano passado e nunca me machuquei, a intenção não é essa”, afirmou. “O que aconteceu foi que segurei a serra de um jeito errado e ela acabou ricocheteando na minha perna, foi uma falha técnica.” 

Durante a apresentação, o artista recebeu atendimento médico, mas decidiu continuar. Ao final, K teve apoio da plateia, foi aplaudido e logo encaminhado ao hospital. “O médico me tranquilizou, pois, apesar do corte ter sido extenso, não foi profundo. Estou tomando medicação e melhorando.” 

A última sessão de O Ânus Solar, marcada para ontem, 9, à noite, seria realizada com mais cuidado, atenção e executada em ritmo mais lento, afirmou o artista. 

FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO. São José do Rio Preto. Vários locais. R$ 5/R$ 15. Até 14/7.

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