Reprodução/Facebook
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Fim do 'Teatro Para Todos' opõe produtores e prefeitura no Rio

A Associação dos Produtores de Teatro não poderá dar continuidade à campanha, que, ano passado, baixou o preço de 46 espetáculos a valores entre R$ 5 e R$ 40

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2017 | 11h58

A Associação dos Produtores de Teatro (APTR) do Rio cancelou a Campanha Teatro para Todos deste ano. Em sua 15ª edição, o projeto democratiza o acesso a peças de qualidade em cartaz na cidade, por meio da oferta de ingressos mais baratos.

Sem o patrocínio da prefeitura do Rio, que vinha apoiando a iniciativa nos últimos sete anos, a APTR não poderá dar continuidade à campanha, que, ano passado, baixou o preço de 46 espetáculos a valores entre R$ 5 e R$ 40.

Anualmente, eram 40.000 ingressos por menos da meia-entrada (à qual têm direito estudantes, idosos e outras categorias não-etárias). Os preços eram praticados graças a subsídios dados a produtores. A APTR, que tinha na prefeitura seu principal patrocinador para a realização da campanha, afirma que havia uma “promessa verbal” de apoio a esta edição por parte da Secretaria Municipal de Cultura – o que é desmentido pela pasta.

Lançado em 2003, o Teatro para Todos é sempre no fim do ano. Foi criado tendo como principais objetivos a conquista de novos públicos, o estímulo à frequência nos teatros no período de novembro-dezembro, que é mais fraco normalmente, por conta das festas da época, e o fomento da economia da cultura. Parte do público é formado por espectadores de classe baixa, alijados do circuito cultural o ano todo. Muitos vão ao teatro pela primeira vez na vida graças à promoção. É comum ver longas filas nos pontos de venda e disputa por lugares nas plateias dos espetáculos de maior apelo comercial.

“A APTR lamenta o atual cenário de falência e descaso do poder público em relação à cultura, à arte em geral e ao teatro em particular em nossa cidade. A consequência é o desmonte do setor, com verbas cortadas indiscriminadamente e editais não pagos, demonstrando, assim, a total falta de gestão e políticas públicas para o setor cultural”, afirmou a entidade, em nota.

À reportagem do Estado, seu presidente, Eduardo Barata, fez mais críticas à gestão de cultura municipal e também estadual, e citou a atual crise política em que o Estado está mergulhada: “Não há política pública e nem gestão eficiente para o setor cultural. O Rio foi a capital cultural brasileira e é referência na criação artística, principalmente na música e nas artes cênicas. A impressão que tenho é de que houve um terremoto, e a cidade ficou devastada. Temos os três últimos governadores do Rio presos”, lamentou, citando Sergio Cabral (PMDB), Rosinha Garotinho (PR) e Anthony Garotinho, todos acusados de corrupção.

“Mas o teatro nunca vai acabar. A cena teatral carioca nunca vai acabar. Ainda que a economia da cultura na nossa cidade e no nosso Estado passem por uma crise pior do que a da economia do País: sem incentivo, sem estímulo e sem o poder público para apoiar as iniciativas e ações de cultura”, continuou Barata.

A Secretaria Municipal de Cultura respondeu ao Estado que reconhece a importância do teatro no cenário cultural carioca, o que é demonstrado pelo patrocínio dado à edição 2017 do Prêmio APTR, realizado em abril, para a qual foi cedido gratuitamente o Centro Cultural Municipal João Nogueira. Informou que a secretária, Nilcemar Nogueira, recebeu a diretoria da APTR no dia 22 de agosto, quando lhe foi entregue uma placa de agradecimento pelo apoio ao Prêmio APTR. Na ocasião, segundo a SMC, “foi dito claramente à diretoria da associação que este ano não seria possível patrocinar o Teatro para Todos”, diz nota oficial.

O comunicado da secretaria afirma ainda que os editais lançados pela gestão atual estão com os pagamentos “rigorosamente em dia”, e que não foi assumido qualquer compromisso “que não estivesse ancorado em seu orçamento.” A SMC esclareceu ainda que aumentou a frequência dos 64 teatros de sua rede em 3,2% de janeiro a outubro deste ano em relação a 2016 (6,3 milhões de espectadores) e lembrou que, mesmo na crise, reabriu o Teatro Maria Clara Machado e transformou uma sala da Cidade das Artes num teatro de arena.

“Há um novo cenário econômico na cidade e no país, que impõe a necessidade de um novo modelo para as produções culturais. O Estado brasileiro precisa garantir acessibilidade cultural dentro de seu próprio planejamento e de suas políticas culturais. E isto estamos fazendo, haja vista a oferta cultural em nossos próprios equipamentos, beneficiando milhões de espectadores na cidade - que tiveram acesso a produções diversas, muitas delas gratuitas - e movimentando a cadeia produtiva do teatro e do mercado cultural do Rio de Janeiro”, pontua a SMC em sua nota.

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