RAFAEL ARBEX/ESTADÃO
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Figurino de estrela: Fábio Namatame vira uma grife das coxias

Premiado e com criações para espetáculos antológicos, ele está entre os mais requisitados do País

Maria Rita Alonso, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2018 | 06h00

Quem acompanha a programação teatral de São Paulo, certamente conhece o trabalho desse figurinista. Fábio Namatame, 59 anos, é um dos profissionais mais requisitados do País. Em uma rápida volta pelo seu ateliê, que fica no bairro de Santa Cecília, é possível ter dimensão do tamanho da grife que ele virou nessa área: toneladas de tule, seda, paetês, ali tem de tudo. Entre espumas de variados tipos, tecidos finos e bordados rococós, vemos a pluralidade dos seus trabalhos – que vão das grandes montagens de óperas à nova peça cool de Jô Soares, passando inclusive por espetáculos infantis.

É dele o guarda-roupa deslumbrante do musical A Pequena Sereia, em cartaz no Teatro Santander até o fim deste mês. A produção foi discutida por meses ao lado da diretora americana Lynne Kurdziel. O projeto do figurino só seguiu em frente após aprovação da própria Disney. “Foi bem desafiador”, conta Fábio. “Eles são muito rigorosos com todos os processos de design que precisamos apresentar, mas no final ficou muito bacana, principalmente porque a produtora permite que cada país faça sua interpretação da estética da história com elementos locais”.

Para ajudar a criar um mundo de fantasia colorido e lúdico, mas nada caricato, seu ponto de partida foi a estética do Carnaval. “A única coisa que tinha de realismo nas roupas eram as estampas dos peixes e dos corais nas malhas dos bailarinos”, diz ele. Exibir uma certa brasilidade era também um desejo da Disney e da Egg Entretenimento, produtora que trouxe o espetáculo para o Brasil. “Já havia trabalhado com o Fábio antes. Em A Pequena Sereia, ele teve a sensibilidade, o bom gosto e a sutileza de trazer um pouco da nossa cultura para os figurinos do espetáculo, sem apelar para réplicas do que já tinha sido feito no exterior”, diz Stephanie Mayorkis, sócia da produtora.

Com vinte anos de carreira, Fábio, que é formado em publicidade e artes plásticas, começou no teatro como ator, até se encontrar na maquiagem, e então, no figurino. Essa passagem rápida pelos palcos afinou o seu olhar de figurinista. Ele sabe hoje o que funciona para o elenco e o que não cai bem quando as cortinas se abrem. “No teatro, o público precisa enxergar de longe, por isso nem sempre um tecido nobre oferece o melhor efeito. Um truque que uso muito são as sobreposições. Vou adicionando uma transparência, uma renda, um algodão... quanto mais tecido se coloca, mais rico fica o figurino”, acredita ele. “A roupa deve acompanhar o movimento do personagem em cena. Às vezes, é preciso pensar em volume. Em outras ocasiões, faz mais sentido roupas justas e austeras. Só acompanhando os ensaios eu consigo definir certos detalhes”, completa.

Apesar de assinar algumas das maiores produções do país como My Fair Lady e Evita, e de colecionar prêmios como Shell e APETESP, Namatame não gosta do personagem do figurinista famoso e lembra que também já passou por momentos em que não sabia o que fazer. “No monólogo do Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Cassio Scapin, eu não tinha ideia do que criar. Na história de época, esse homem já está morto, mas é um fantasma, e ao mesmo é uma figura que está no imaginário das pessoas. No dia da foto eu não tinha a roupa, não tinha nada. Fui colando uns papéis de seda nele ali, na hora, e ficou deslumbrante! Fiz uma casaca toda colada no corpo que deu efeito de organza que ia se rasgando ao longo da peça. Lindo, mas o problema foi reproduzir isso todas as noites na apresentação. No fim, valeu a pena e eu ganhei vários prêmios com essa única roupa”.

Não é à toa que ele é o favorito de grandes nomes como Claudia Raia e Jô Soares. “A nossa parceria é um encontro de almas porque temos uma visão muito parecida e clara do que deve ser um figurino dentro de um espetáculo”, diz Jô, que convidou Namatame para assinar o figurino A Noite de 16 de Janeiro, peça que dirige e em que atua lotando o Teatro TUCA desde maio passado. Os dois já haviam trabalhado juntos também em O Libertino e em Atreva-se. “É inacreditável, às vezes, o Fábio capta telepaticamente o que estou pensando. Ele é um figurinista extraordinário, sempre com boas ideias e soluções para o que precisamos”.

Filho de japoneses, Namatame carrega a herança da mãe costureira e do pai comerciante e músico amador, seu maior incentivador. “Não dá para lutar contra, é genético, a filosofia japonesa me move não de maneira estética, mas sim em sua essência. Por exemplo, penso muito no sentido e propósito das coisas e não apenas em resultados, e este é meu norte”, afirma ele, que trabalha com uma equipe fixa de quatro assistentes diretos em seu ateliê, impondo um rigoroso processo artesanal de confecção.

E de onde vem tanta criatividade? “Vou muito ao teatro, à ópera, a musicais. Me interesso pelo o que acontece na cena cultural e acompanho tudo”, diz ele, que também adora o diretor de teatro italiano Zefirelli, estuda a moda dos séculos 18 e 19 e tem uma visão bastante otimista sobre a queda de barreiras de gênero no jeito de vestir contemporâneo. Inspirações, enfim, não faltam e são tão interessantes quanto díspares para uma obra idem.

 

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