Caroline Moraes|Divulgação
Caroline Moraes|Divulgação

Festival Contemporâneo de Dança dá espaço para artistas menos conhecidos

Atualidade contundente de espetáculo 'La Bête', de Wagner Schwartz, comprova relevância da 8ª edição de festival

Helena Katz, ESPECIAL PARA O ESTADO

29 Novembro 2015 | 19h10

Foram três semanas ocupando a Galeria Olido e o Sesc Santana com sete espetáculos e três oficinas de criação. Na 8.ª edição, o Festival Contemporâneo de Dança (FCD) continua com os princípios que o distinguem desde a sua criação, em 2008: programar artistas que não vivem debaixo das luzes midiáticas, abrindo a possibilidade de se apresentarem mais de uma vez e com mais de uma obra. Em uma sociedade que preza cada vez mais a novidade, a fidelidade a essa escolha é uma forma potente de resistência.

Com direção artística de Adriana Grechi e direção-geral e de produção de Amaury Cacciacarro Filho, o FCD trouxe novamente o búlgaro Ivo Dimtchev, que este festival apresentou ao Brasil em 2013 (Som Faves) e repetiu em 2014 (Concerto e Icure). Atual artista residente do Kaaitheater, em Bruxelas, Ivo, nesta terceira vinda, mostrou o seu primeiro solo, Lili Handel, de 2004, e 15 Songs from My Shows.

Nesse tipo de recorte curatorial, o FCD vai construindo um conhecimento em torno dos artistas com quem trabalha. Como Michelle Moura, que desta vez mostrou Blink, e já trouxe Cavalo, em 2011, e Fole, em 2013.

Às vezes, não é o próprio artista que continua voltando ao festival, como sucedeu com o marroquino Taofiq Izeddiou, que esteve em São Paulo em 2009 e 2012, e depois, em 2014, com a Cie. Anania, que fundou em Marrakesh com Bouchra Ouziguen e Said Aït El Moumenque. Neste ano, ampliando a referência já estabelecida, foi Bouchra Ouziguen quem trouxe o seu elenco feminino para dançar Madame Plaza.

Essa importante e diferenciada ação continuada do FCD faz com que possamos conhecer segmentos de dança com os quais teríamos pouca chance de entrar em contato. Além de ampliar nossas informações sobre a pluralidade do mundo, nos ajuda a escapar das referências que vão se tornando hegemônicas porque resultam do que a Europa e os EUA decidem nos exportar.

Um conjunto de qualidades dessa envergadura já bastaria para validar o FCD. Contudo, a sua 8.ª edição teve um papel ainda mais relevante: incluiu La Bête (O Bicho) na sua programação de 2015. Wagner Schwartz também já tinha estado no festival, em 2012, com Piranha. Sucede que La Bête se tornou o acontecimento do ano porque dele resulta a imagem mais tenebrosa dos tempos sombrios nos quais vivemos.

Aparentemente, é muito simples. Wagner está sentado no chão do palco mexendo em um dos Bichos criados por Lygia Clark (1920-1988). Os Bichos (1959) são esculturas de formas geométricas de alumínio, que se articulam por dobradiças. De repente, Wagner se torna o Bicho para ser dobrado/esticado/articulado. E começa uma sequência de imagens que parecem vir de um poço de horrores sem fundo. No momento em que seu corpo é tocado, deixa de ser um corpo-outro para se tornar um objeto que será testado nos seus limites de desconforto, desequilíbrio e dor.

E vai ficando muito claro que agora é assim mesmo: pode-se fazer com o outro o que se quer. La Bête nos faz ver que somos nós que ajudamos a barbárie avançar.

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