Brunno Martins
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Festival Acessibilidança ‘visita’ Nordeste com audiodescrição e interpretação em Libras

Após exibir vídeos do Norte e do Sul, o evento online e inédito da Funarte chega à terceira fase nesta quarta-feira; os espetáculos acessíveis podem ser conferidos no canal do YouTube da instituição

Leon Ferrari e Gustavo Queiroz, Especial para o Estadão

28 de julho de 2021 | 17h55


Em sua terceira fase, o Festival Acessibilidança da Fundação Nacional de Artes (Funarte) representa a Região Nordeste do Brasil por meio de sete espetáculos com audiodescrição e interpretação em Libras. De 28 de julho até oito de setembro, todas as quartas-feiras, às 20h, uma apresentação será lançada no canal do YouTube da instituição. Após a estreia, os vídeos ficam disponíveis para acesso gratuito.   

O intuito do evento inédito, conforme Fabiano Carneiro, é “democratizar o acesso a espetáculos tanto para os artistas quanto para os espectadores.” O coordenador de dança da Funarte explica que o festival é resultado de políticas públicas de inclusão das pessoas com deficiência na cultura, que vêm sendo discutidas e fomentadas dentro da instituição.

O festival nasceu a partir das ações do Prêmio Festival Funarte Acessibilidança Virtual 2020, de agosto do ano passado, que tinha como premissa premiar artistas que adotassem, como concepção cênica, a acessibilidade. Dentre 50 inscritos no concurso público, 25 projetos de vídeos de espetáculos de todo País foram selecionados. 

Com os recursos do edital, os coletivos puderam gravar as apresentações que, desde 16 de junho, passaram a ser exibidas por região. O festival, que também conta com apoio do Ministério do Turismo, já exibiu espetáculos do Norte e do Sul já podem ser vistos na íntegra no YouTube da Funarte, completando as duas primeiras fases previstas. 

 


“Com ações como essas também conseguimos dar visibilidade para ações e produtos culturais, de diferentes Estados e municípios, que tenham como foco a pessoa com deficiência”, explica Carneiro. Com a divulgação de grupos e companhias de danças inclusivas, Carneiro acredita que podem dar exemplo para outros artistas, no sentido de mostrar que há espaço para deficientes na arte. 

Na visão do arte-educador Anderson Leão, há poucos eventos que, como esse, conseguem enxergar a pessoa com deficiência como artista, muitos tendem a vê-las apenas como plateia. “Muitos festivais têm acessibilidade para o público, mas não há uma rampa de acesso ao palco”, conta. 

O diretor destaca a importância de editais voltados à acessibilidade, como o da Funarte. Trabalhando há mais de 20 anos com bailarinos com deficiência, não foram poucas as vezes em que não conseguiu apresentar seus espetáculos devido à falta de espaços acessíveis. “As instituições precisam de um olhar para esses corpos diversos na cena da dança”, defende. 

 


Dessa vez, o Grupo Movidos Dança Contemporânea, de Natal, no Rio Grande do Norte, coordenado por Leão, poderá não só participar de um festival como também protagonizar o espetáculo de abertura, nesta quarta-feira, 28, às 20h. Em Estado de Apneia, por meio da dança, bailarinos com e sem deficiência pretendem mostrar que, com a pandemia, “paramos de respirar”, de acordo com o diretor artístico do coletivo. 

“Ficamos sem respiração quando ligamos a TV e vemos tantas notícias tristes", declara. Ele explica que a obra aborda conflitos como o machismo, a violência doméstica e o capacitismo - preconceito direcionado a pessoas com deficiência -, que, com o isolamento social, na visão dele, intensificaram-se. “Quando vemos essa violência toda, sentimos que a sociedade parece não querer entender sua diversidade.”

Na apresentação, bailarinos de diferentes corpos precisam da ajuda uns dos outros para completar o processo da dança. A sororidade, então, torna-se peça central na coreografia. Com isso, Leão conta que o coletivo quer mostrar que, quando juntos, somos capazes de retomar o ar e romper esse estado de apneia.

 


O edital da Funarte, na visão do carioca, veio em um bom momento: “Foi um gás para o coletivo”. Com a pandemia, assim como outros artistas, o Grupo Movidos precisou se adaptar a um cenário de teatros fechados e palcos virtuais, o que, para dançarinos, não foi tão simples. “A dança precisa do toque, do contato”, explica o arte-educador. 

Estado de Apneia, nesse sentido, torna-se possível pelos recursos do edital, que permitiram ensaios e gravações presenciais com protocolos sanitários rígidos. “Tomávamos verdadeiros banhos de álcool em gel”, brinca Leão. 



 

Acessibilidade como premissa

Ensaio sobre o Silêncio, segundo espetáculo a ser apresentado no festival, também se propõe a “dançar a pandemia”. A montagem coreográfica costura a busca por um lugar durante o processo de distanciamento social provocado pela pandemia, em que há um sentimento de suspensão. 

“Não só corporalmente falando, mas um estado que pudesse partir desse sofrimento, para nos colocarmos em outro lugar, que é mais poético, de maior intimidade, em que pudéssemos ir ao encontro de nós mesmos”, explica a bailarina e diretora Taciana Gomes.

A preocupação de construir uma apresentação acessível esteve presente desde o processo de criação da obra. Taciana conta que o público que depende de Libras e audiodescrição foi tomado como ponto de partida para a direção. “Isso refez toda a minha forma de pensar o movimento e a forma de me relacionar com a própria estética”, conta.

 


Para começar, os cinco integrantes do grupo participaram do oitavo Encontro Nacional de Acessibilidade Cultura (Enac) e compartilharam experiências para montar as coreografias. Além disso, o espetáculo conta com a participação de Victor Marley, um dos bailarinos da equipe, que é surdo. “Durante esse processo percebi que algumas músicas o ele conseguia perceber mais, outras não. Com isso eu ia dizendo qual era a intenção, para que ele pudesse criar o movimento”, afirma a diretora.

Com a participação propositiva de Victor, a equipe passou a selecionar os tipos de ritmos que fariam sentido na narrativa, tanto para ouvintes quanto para surdos. As escolhidas foram a música binaural, o psytrance e o maracatu pernambucano. “Eu precisava que as notas tivessem uma vibração mais intensa, profunda, justamente para que essa intensidade pudesse ser captada pelo bailarino”, explica Taciana. 

As sonoridades variam entre intensas e suaves, e impulsionam uma narrativa sobre a tentativa de eliminar por completo quaisquer ruídos, já que, para Taciana, “não existe silêncio absoluto”. O ato de tentar é também a premissa de todo “ensaio”, como o próprio nome já traz. “É a tentativa de reunir amigos para criar algo juntos, que fosse acessível, pensando em todas as pessoas, desde a interpretação, como o mote para criarmos”, diz. 

Para o bailarino e consultor Victor Marley, os ritmos são percebidos pelos surdos e ouvintes em forma de combinação de corpo, movimento e escuta. Ele entende que a preocupação na acessibilidade traz mais sentido para a dança. “A adaptação para surdos acontece no visual. Porque o corpo tem mais movimentos. Para mim dançar é uma ideia de adaptação e significado pelo que o corpo expressa”, conclui. Victor é o único aluno surdo de sua turma de Dança, na Universidade Federal de Pernambuco 


 

Programação

  • 28/7, às 20h: Estreia com exibição do espetáculo Estado de Apneia, do Grupo Movidos Dança Contemporânea (Rio Grande do Norte).
  • 4/8, às 20h: Montagem de dança Ensaio sobre o Silêncio, da coreógrafa e bailarina Taciana Gomes (Pernambuco)
  • 11/7, às 20h: Espetáculo Maré - Versão virtual e acessível, do Coletivo Independente Dependente de Artistas (CIDA) (Rio Grande do Norte) - “Maré fala sobre os diferentes modos de se relacionar e de amar, é uma metáfora dançada sobre a modificação, sobre os vários níveis, sobre as intensidades e profundidades desse sentimento tão complexo”, descreve o grupo. O CIDA conta com artistas com e sem deficiência, acessibilidade, nesse sentido, apresenta-se como algo intrínseco ao trabalho deles. 
  • 18/7, às 20h: Montagem Rio sem Margem, do coreógrafo e bailarino Elísio Pitta (Bahia) - Inspirado em elementos da ancestralidade africana, da dança moderna, da capoeira e do teatro, Rio sem Margem unifica dança, vídeo, projeção, cenário e interpretação corporal em Libras. “Estudamos e construímos juntos sob uma narrativa virtual e de muita observação. Tivemos que aprender a respirar, a se adaptar, a testar novas formas de trabalho e a entender as limitações do outro”, conta Pitta, ao explicar que o espetáculo foi planejado remotamente.
  • 25/8, às 20h: Espetáculo Plenitude, da Cia. de Dança Eficiente (Piauí) - Plenitude explora as potencialidades de uma dançarina com deficiência e questiona concepções que definem quais corpos podem ou não dançar. “A obra comunica  o  ‘estado  de  existir’, criando  um  ponto  de  discussão sobre  como  são  os modos de se relacionar  com  essa  nova  presença,  que  necessita  de  adaptações estruturais  e mentais  para  o  bom  convívio  em  sociedade”, explica a companhia.
  • 1º/9, às 20h: Montagem  Ah, se eu fosse Marilyn!, do diretor, coreógrafo e dançarino Edu O. (Bahia) - A montagem é inspirada no texto Dias Felizes, de Samuel Beckett, e a performance foi criada pelo primeiro professor cadeirante de uma faculdade de dança do Brasil, o Edu O. “A obra é uma proposta artística que versa sobre os padrões corporais e morais impostos às individualidades e particularidades de cada um”, explica o bailarino. O vídeo é composto de imagens feitas no quarto do artista e, também, na praia, mesclando a realidade com elementos oníricos. Na  apresentação, a audiodescrição vai além da acessibilidade e se torna fio condutor da narrativa. Da mesma forma, a interpretação em Libras também faz parte dos movimentos coreográficos.
  •  8/7, às 20h: Espetáculo Proibido Elefantes, da Companhia Giradança (Rio Grande do Norte) - O espetáculo busca falar do olhar enquanto “porta” de entrada e saída de significados. “Nosso olhar é constituído pela realidade assim como a realidade é constituída pelo nosso olhar. A construção do sentido transita em via de mão-dupla”, explica a Companhia Giradança. Para além disso, o coletivo pretende colocar a sociedade em frente a um espelho: “Mesmo no campo subjetivo que é a criação em dança, o espetáculo absorve diversas vivências, sejam elas dos corpos dançantes que estão no vídeo ou de pessoas que passaram pela vida deles.”

 

Próximos passos

Após a fase de espetáculos nordestino, o festival se “deslocará” até mais duas regiões brasileiras. No dia 15 de setembro, começa o ciclo de vídeos dos Centro-Oeste, já em 13 de outubro, será a vez do Sudeste

Carneiro adianta ao Estadão que a Funarte, em discussões internas, projeta a realização de uma nova edição do Prêmio Acessibilidança ainda para este ano. 

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