HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
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Familiares e amigos se despedem de Antônio Abujamra

Corpo é velado no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, na manhã desta quarta-feira, 29

Murilo Bomfim , O Estado de S. Paulo

29 de abril de 2015 | 12h19

A classe teatral se reuniu na noite de terça, 28, e na manhãdesta quarta-feira, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, para se despedir de AntônioAbujamra. O diretor foi encontrado morto na manhã de ontem, em decorrência deum enfarte.

Estiveram presentes familiares como os filhos André e AlexandreAbujamra, a sobrinha Clarisse Abujamra e a prima Iara Jamra.

A atriz Irene Ravache relembrava histórias que passou com Abu, como o diretor era conhecido, com amigos e colegas de profissão. Ela conta que trabalhou com ele no espetáculo Roda Cor de Roda, em 1975, que rendeu, a ambos, o prêmio Molière (o primeiro de Irene). "Aprendi muito com ele. Ele flagrava meus truques de atriz, dizia para cortar. Foi uma lição que eu carreguei para todos os meus trabalhos", afirma ao Estado. Sobre a personalidade de Abujamra, Irene diz que, sempre que encontrava com ele, ouvia uma frase provocativa e bem humorada. "Uma vez ele me disse: 'Irene, não se iluda, preste atenção: o ser humano é um projeto que definitivamente não deu certo'", lembra.

Regina Braga teve Abujamra como seu primeiro diretor, quando atuou em A Cantora Careca, em 1970. "Ele sempre foi essa pessoa provocadora, brigava comigo durante o processo de criação. E, apesar das brigas, houve um amor muito grande entre a gente."

A diretora teatral Denise Stoklos também prestou suashomenagens. "O Abujamra é um fundamento na minha carreira", diz. "Ele trouxe toda a classe teatral para me aceitar, desenhou um norte para mim em todos os sentidos. Me oriento pelo Antônio Abujamra." Denise, que desenvolveu uma linguagem muito própria no teatro, com foco na expressão corporal, destaca que também deve isso a Abu. "Ele sempre puxou nos trabalhos dele esse lado mais corporal, gestual. Especialmente me dirigindo, era o que ele sublinhava."

Tambémdiretor, João Fonseca se emocionou ao contar a importância de Abujamra em suacarreira. "Só sou diretor por causa dele", disse. "A generosidade dele comigo foi tamanha que ele me deixou dirigir com ele." Fonseca conta que ficou tocado quando viu Antunes Filho à beira do caixão de Abujamra. "Foram as duas pessoas com quem eu trabalhei, que me formaram. Eles foram a minha faculdade."

Dirigida por Abujamra em 1987, em Nostradamus, Neusa Maria Faro fez aquela que considera a melhor cena de sua vida. Ela interpretava uma rainha que, em um determinado momento, ficava à frente de uma corte. Durante os ensaios, Neusa não tinha falas na cena, ficava muda enquanto os atores da corte faziam algazarra. Na véspera da estreia, Abujamra resolveu mudar as coisas: pediu à corte que ficasse em silêncio e à Neusa que fizesse o que quisesse. "Eu chorei a noite inteira porque não sabia o que poderia fazer", conta a atriz. "Na estreia, sentei no trono e aproveitei que uma hora os atores diziam nomes de vários pratos. Quando chegou a minha hora de falar, disse: 'Eu quero uma coxa de frango!'. Trouxeram uma coxa enorme e eu dei uma mordida. Foi o auge. O Abujamra não te ensinava a fazer, ele te levava a fazer."

Estavam presentes, ainda, os atores Juca de Oliveira, Guta Stresser, Nicete Bruno e Beth Goulart. Sérgio de Carvalho, diretorda Cia. Do Latão e a encenadora Mika Lins.

Provocações. Gregório Bacic, diretor do programa 'Provocações', que era apresentado por Abujamra na TV Cultura, também passou pelo Teatro Sérgio Cardoso na manhã desta quarta. Ele contou ao Estado que conversou com Abu por telefone no sábado. Na ocasião, Abujamra disse que estava em casa e que talvez fosse sair com os filhos. Segundo Bacic, o apresentador ainda disse: "Na terça-feira vou estar muito bem! Vamos sair para almoçar e passamos a tarde inteira conversando!". E foi justamente na terça-feira que ele recebeu a ligação da família de Abu, avisando de sua morte. 

"Ainda estou impactado", disse. "A nossa visão de morte era de que ela faz parte da vida, que não é o fim da vida. Não é uma tragédia, mas é uma perda impactante de um amigo que eu conhecia havia 45 anos."

Bacic diz que há cinco edições do 'Provocações' já gravadas. A última entrevista feita por Abujamra foi com Gerô, uma travesti que, vinda do interior de Minas Gerais, chegou à favela de Heliópolis, em São Paulo, e não foi bem aceita. Ela acabou fazendo uma revolução social e cultural, e hoje é uma líder comunitária respeitada por todos. Bacic deve conversar com a equipe da TV Cultura para definir os rumos do programa.

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