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Familiares, colegas e amigos lamentam a morte de Antônio Abujamra

Ator e diretor morreu nesta terça-feira, 28, aos 82 anos

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

28 de abril de 2015 | 11h47

O ator e diretor de teatro Antônio Abujamra morreu na manhã desta terça-feira, 28, em sua casa em São Paulo. O fato foi comentado e lamentado por diversos colegas do teatro e da TV, e por amigos e familiares.

Ugo Giorgetti, cineasta:

"Um grande amigo, uma pessoa com quem eu trabalhei muitas vezes. Fomos sócios no TBC, tocamos o teatro juntos. Outro dia mesmo ele estava começando um trabalho com o André, o filho dele. Uma pessoa muito amiga, uma pessoa inquieta, um artista sempre em busca de novidades, de caminhos novos, coisas que saíssem do lugar comum. Ele era uma anti-lugar comum."

Iara Jamra, atriz e prima:

"Ele foi um homem muito especial pra todos nós, vai deixar pro Brasil uma grande lembrança. Um homem forte, genial. Vai deixar uma parte da cultura desfalcada. Mas eu acho que ele vai em paz. Estava sofrendo muito com a morte da esposa no ano passado, então estava muito triste. Vai em paz e que gente guarde ele pra sempre. Foi um grande homem."

Aderbal Freire-Filho, diretor teatral:

"Uma tristeza. O Abujamra é o cara, ele participou e liderou a geração que mudou o teatro brasileiro. É da primeira geração de diretores brasileiros arrojados, inteligentes, cultos, inventivos. O Abu é o nosso mestre. Um grande mestre. Ele atravessa um período importante da história do teatro, esse período que vai de quando ele começa até agora, hoje. É um período de reinvenção do teatro, ele é um desses inventores. Ele simboliza um momento importante do teatro brasileiro."

Mário Bortolotto, ator e diretor, via Facebook:

ABU - MUITO ALÉM DE QUALQUER PROVOCAÇÃO

Eu fui jurado do Prêmio Wolkswagen de Teatro lá no Teatro Municipal. O Abu era o presidente do juri. Uma hora ele chegou pra mim e falou: "Você é o Mário Bortolotto?" Eu respondi que sim e ele falou: "É uma falha cultural eu não conhecer o seu trabalho?" Respondi: "Acho que não. Eu também não conheço o seu". Ele riu. É claro que eu conhecia o trabalho dele, mas percebi a provocação e achei que era a melhor forma de responder. Acho que ficamos amigos depois desse momento. Não o tipo de amigos que se encontra sempre pra conversar ou pra jogar poker como ele gostava (e eu também gosto), mas simplesmente daquele tipo de amigos que se entendem e se respeitam. Na mesma noite ele chegou pra mim e falou: "Vamos tentar resolver esse negócio logo pra gente poder ir embora. Não deixa os outros ficarem enrolando". Ele se referia ao julgamento das peças e percebeu em mim um cúmplice pra se livrar do trabalho e voltar logo para o que interessava, ou seja, o poker, um jantar ou uma mulher (no caso dele, a esposa que ele amava e que com certeza o estava esperando). No final foi fácil. O Grupo que venceu foi quase por unanimidade e não houve qualquer conflito entre os jurados. Quando levei os tiros e fui pro hospital, o Abu foi me visitar. Me levou livros e o CD do filho André. Ficou lá sentado no sofá do quarto conversando comigo. Eu tava tomando alguns remédios muito fortes e não tava em condições de contra argumentar com ele (mesmo se tivesse legal não estaria) e ele foi muito gentil e generoso comigo. Os enfermeiros perguntavam: "É o Ravengar, né?" Eu respondia: "Acho que já foi. Agora ele é o Abu, o que ele sempre vai ser". Quando saí do hospital, ele me convidou para ser entrevistado no "Provocações". Eu tava muito tenso na entrevista. Me disseram que ele não tava ouvindo bem. Fiquei mesmo com a impressão de que ele fazia as perguntas e não conseguia ouvir as respostas. Estava sempre já olhando qual seria a próxima pergunta que ele havia pautado. Então não conseguia responder direito. Tentava terminar logo pra ele passar para a próxima pergunta. No final aquele abraço que não me pareceu nem um pouco falso como ele costumava brincar. Abu era um cara extremamente afetuoso. Ficava puto quando tinha que ficar, com certeza, como todos nós, Mas acima de tudo, era extremamente amoroso. Fiquei sabendo agora há pouco da morte dele. Me bateu aquele tipo de tristeza que não dá pra simplesmente explicar em palavras. O tipo de tristeza indefinível que fica espetando o coração de leve. Antonio Abujamra foi um artista admirável, isso não há muito o que discutir. Mas o Homem que eu conheci foi um sujeito raro. O tipo de homem que estava predestinado a deixar sua marca indelével em sua passagem por aqui. E Abu não fez por menos. Agora eu até posso dizer que te conheci, meu amigo. Para minha grande sorte.

Samir Abujamra, sobrinho e cineasta, via Twitter:

"Morreu meu ídolo, meu segundo pai, o homem que me fez ser artista. Tio Tó, Antonio Abujamra."


Ruy Cortez, diretor teatral:

"Morreu hoje um dos maiores homens do teatro brasileiro de todos os tempos. A extensão marítima de seu legado para a arte e cultura desse país ainda está por ser devidamente dimensionada, memorializada. O que ele plantou, ainda por toda a parte e durante muitos séculos, germinará e frutificará. Abujamra morre hoje, mas a lucidez de sua palavra, a genialidade de seu pensamento, a fúria criadora de seu espírito, estão mais vivos e potentes do que nunca."

Sergio Mamberti, ator:

"Eu tenho uma relação profunda com o Abu. Foi o primeiro diretor com quem trabalhei. Quando eu saí da Escola de Arte Dramática, o Abu tinha recém voltado da Europa, depois de ter feito estágios. Ele estava formando uma nova companhia e eu fui ver-lo dirigir Cacilda Becker em Raízes. Nos tornamos grandes amigos e fundamos juntos o grupo Decisão, em 1963. Mas eu já tinha estreado profissionalmente com direção dele em Antígone América, em 1962, quando também estrearam meu irmão, Claudio Mamberti, e Dina Sfat. não no grupo, no meu primeiro trabalho profissional. Me sinto um filho cultural do Abu. Era um homem extraordianariamente talentoso. Um dos meus grandes mestres em teatro. O Abu era uma desss figuras essenciais que a gente acha que nao vai morrer nunca e, de repente, a pessoa vai embora. Mas tudo que a gente viveu fica muito presente, próximo. O teatro brasileiro perde uma das expressões mais autênticas da provocação. Ele era extremamente provocativo, tinha uma visão extremamente crítica do mundo. Foi um grande apaixonado pelo teatro." 

Sérgio de Carvalho, diretor teatral:

"No começo do Latão, Abujamra me enviou de presente uma foto do Berliner Ensemble com uma dedicatória enigmática sobre as virtudes do não-saber. Ele gostava de inventar citações filosóficas, cujo pessimismo exaltava a responsabilidade diante da vida. Era também o artesão da cena que me disse certa vez: 'sua peça está ótima, mas não abre o tempo para o espectador pensar'. Não esqueci a lição, nem de que 'somos operários em São Paulo e artistas no Rio' porque a distância dessas funções é bem menor do que se imagina."

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