MARCOS DE PAULA/ESTADÃO
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Família de Augusto Boal se esforça para manter vivo seu acervo

A viúva Cecília e os filhos Fabian e Julian buscam patrocínios e parcerias para a manutenção de vídeos, fotos e cartas

Murilo Bomfim - ENVIADO ESPECIAL / RIO, O Estado de S. Paulo

14 de fevereiro de 2015 | 03h00

Desde que Augusto Boal morreu, em maio de 2009, sua viúva, Cecília, quase deixou de ser pessoa física, já que passa boa parte de seu tempo atuando como ONG. “Eu sou o Instituto Augusto Boal”, diz, com uma gargalhada, quando questionada sobre a existência da sede da instituição. Com a ajuda dos filhos, Fabian e Julian, ela segue na empreitada de conquistar patrocínio para fazer a manutenção do acervo do dramaturgo.

A ideia de criar um instituto nasceu por volta de 2004, com o diretor ainda vivo. Foi Fabian, cineasta, que teve vontade de resgatar a enorme quantidade de vídeos com que se deparou na época. “Todo mundo apoiava a ideia quando ouvia, mas na hora de conseguir a verba…”, diz. O projeto só engrenou após a morte de Boal. A ONG, que pode se tornar uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) em breve, tem o objetivo de preservar a imagem e o trabalho do diretor e facilitar o acesso ao acervo.

No caso de uma entidade com o nome de Boal, buscar patrocínio não é uma tarefa tão simples. Cecília confessa que não pode reclamar. “Recebi proposta de um banco brasileiro e da New York University, que enviou o diretor da biblioteca para conversar comigo”, conta. “Não aceitei, porque Boal era marxista. Ele não concordaria com a parceria.” A saída, então, foi fazer acordo com a Universidade Federal do Rio (UFRJ), na qual Boal estudou engenharia química entre os anos 1940 e 1950.

“A UFRJ dá dinheiro para digitalizar os vídeos em VHS”, conta Cecília, frisando a importância do trabalho que, após concluído, vai deixar os vídeos no acervo da universidade e do instituto. Ela não acredita, no entanto, na continuidade do projeto. “Minha esperança de ver os documentos do Boal num site estão um pouquinho zeradas. Estou tirando um pouco o cavalo da chuva.” Segundo ela, apesar de os funcionários da UFRJ estarem engajados na ideia, há muitas limitações de orçamento. “A importância que têm a educação e a cultura hoje em dia, não só no Brasil, não é assim tão grande”, garante ela.

Foi a digitalização desse material que possibilitou a criação do Projeto Augusto Boal, que movimenta o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio desde 13 de janeiro. O espaço tem duas salas que resgatam a trajetória do diretor. Uma delas tem a cronologia de sua vida pessoal e profissional, pontuando ações e espetáculos mais marcantes, anos de exílio e homenagens – Boal ganhou o Prêmio Saci, entregue pelo Estado (veja foto acima), mas teve de devolvê-lo como parte de uma manifestação de artistas. “Ele ficou bem arrependido, depois. Queria ficar com o Saci”, conta ainda Cecilia. No local há, ainda, um espaço com os livros de Boal, para consulta livre. Outra sala mostra três telões com vídeos de peças, entrevistas e palestras do diretor.

Cecília convidou o cenógrafo Helio Eichbauer para fazer a curadoria da exposição (com exceção dos vídeos, selecionados por Fabian e pela também cineasta Jeanne Dosse, mulher de Julian), que não tem uma linha definida. “Helio trabalhou com Boal em várias montagens. Chamei-o sem pensar em um foco. E eu trabalhei no Teatro de Arena e sou apaixonada por essa fase da carreira dele”, lembra Cecilia. A mostra acaba tirando o foco do Teatro do Oprimido, método pelo qual o diretor é mais conhecido, o que acabou ofuscando seus outros feitos.

A mostra, que ocorre até 16 de março, inclui, ainda, apresentações da peça Os Que Ficam, inspirada em textos de Boal, com direção e dramaturgia de Sérgio de Carvalho (Companhia do Latão), assistência de dramaturgia de Julian Boal e elenco com atores do Latão. No dia 22 de fevereiro, o show Cancioneiro de Boal leva a cantora Juçara Marçal ao palco para interpretar músicas de peças de Boal da época do Teatro de Arena.Oficinas e leituras dramatizadas serão realizadas em 25 e 28/2 e 7 e 14/3, às 19h30, com entrada gratuita.

PROJETO AUGUSTO BOAL

CCBB Rio. Rua Primeiro de Março, 66, centro, (21) 3808-2020. 2ª a dom., 9h/21h (fecha 3ª). Grátis. Até 16/3.

 

Série ‘Arena Conta’ ganha exposição a partir de julho

O Instituto Augusto Boal fechou parceria com o Sesc para realizar uma exposição sobre a série de espetáculos ‘Arena Conta’. A mostra vai ser inaugurada em julho, no Rio, e deve circular por algumas cidades do Brasil durante o ano.

Segundo Cecília Boal, viúva do diretor Augusto Boal, o acordo foi uma maneira de dar continuidade aos cuidados com o acervo do Instituto. “É claro que a exposição é importante, mas o Sesc também teve o objetivo de me ajudar”, diz ainda.

A mostra vai ter fotos, vídeos e depoimentos sobre três espetáculos: Arena Conta Zumbi (1965), Arena Conta Tiradentes (1966) e Arena Conta Bolívar (1970), todos dirigidos por Boal.

O conjunto de peças é um marco do teatro nacional. Com um elenco formado por nomes como Lima Duarte, Gianfrancesco Guarnieri e Dina Sfat, Arena Conta Zumbi abriu um ciclo de espetáculos musicais no Teatro de Arena e inaugurou o sistema coringa, no qual os atores se revezam entre os personagens. O sucesso do espetáculo gerou outros musicais, como Arena Canta Bahia, com Gal, Caetano, Gil e Bethânia, entre outros, no elenco.

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