Heloisa Bortz
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'Faltam vontade e mudança de atitude no Brasil', diz Clarice Niskier

Há 11 anos com ‘A Alma Imoral’, Clarice Niskier dirige ‘A Cabala do Dinheiro’, sobre a justiça na sociedade

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2017 | 04h00

Em um galpão abandonado, habitado por corujas, um público de 900 pessoas aguardava, diante de um palco, o início do espetáculo no Festival de Rezende. Pouco mais de uma hora depois, a onda que aplaudia Clarice Niskier era singular demais para se chamar de plateia. “Cada um me cumprimentava do seu modo, aplaudindo, acenando com gestos religiosos e muitos estavam emocionados”, conta. Em cartaz há 11 anos com o solo A Alma Imoral, a atriz dirige A Cabala do Dinheiro, que estreia nesta terça-feira, 11, no Teatro Eva Herz.

Ambos os livros, de autoria do rabino gaúcho Nilton Bonder, fazem sucesso na comunidade judaico-cristã. Se A Alma Imoral é celebrada por trazer em suas palavras a descoberta da força dos próprios atos e com isso a libertação dos ditames morais que controlam o que chamam de alma, a segunda obra é mais direta, como o título. O livro explora o conceito de dinheiro e recursos financeiros pelo viés da cabala - mais que uma filosofia praticada por Madonna e Demi Moore, trata-se de um sistema filosófico religioso judaico com princípios práticos de natureza mística. “É uma radiografia sobre trocas humanas”, explica Clarice. De modo mais claro, ela acrescenta, é como o dinheiro interfere na vida material, espiritual, emocional e mental.

 

O profundo interesse nesse tipo de literatura reforçou a confiança dos atores Marcos Reis e Letícia Tomazella em convidar a diretora, que compartilha a função com André Aciolli. “Começamos um estudo para entender como o símbolo do dinheiro revela nossa humanidade”, aponta Reis. “Nossa experiência também foi se juntando ao processo e acabou definindo a forma do espetáculo.”

 

Na peça, a dupla vive um casal que está em crise por causa da má administração dos recursos financeiros. Ele é um estudioso da cabala e ela está sempre angustiada “com as contas do dia 10”. Para discutir essa identidade do sujeito a partir de seu bolso, o texto recebeu um tratamento semelhante ao solo de Clarice. “Os atores realizaram uma primeira adaptação do livro, destacando as partes que gostariam de contar e em que tinham mais interesse. Aos poucos, sugeri algumas alterações, além de que também buscamos identificar um ponto de conflito na relação, o que não havia antes no livro e que acabou gerando o enredo da montagem”, conta a diretora. Na busca por equilíbrio, o casal passa a investigar a fortuna filosófica da cabala. “Somos atores e também narradores da própria história. Esse recurso épico facilita a reflexão sobre os eventos que contamos para o público”, conta ainda o ator. 

Para Clarice, o mergulho foi necessário para entender os pensamentos do autor. “É difícil definir a cabala como apenas uma filosofia, mas ela é um agrupamento de pensamentos e princípios que nos ajudam a compreender a relação pessoal com o dinheiro.” A obra integra uma trilogia - A Cabala da Inveja e A Cabala da Comida - que se baseia num jogo de palavras e no dito “uma pessoa se faz conhecida através de seu copo, bolso e ódio”.

 

A diretora diz que sobreviver é uma missão e que cabe a todos no mundo. “Não importa se é uma pessoa rica, de classe média ou pobre: a manutenção da vida faz parte da nossa evolução.” Mas, se a ideia de só sobreviver parece um pouco selvagem, Clarice afirma que a prática da justiça é o que nos diferencia dos outros animais e que, portanto, deve ter seu protagonismo nas sociedades. “É preciso dizer que existe uma diferença entre justiça e caridade. A primeira é a busca por uma distribuição de recursos e bens igualmente”, conclui e logo nega a pergunta de que o Brasil é um país justo. “O que nos falta é uma vontade profunda de querer mudar. É necessário uma transformação nas nossas atitudes, como brasileiros.”

A Alma Imoral faz do palco, um lugar comum para a fé

Cheia de histórias para contar, a atriz e diretora Clarice Niskier comemora os 11 anos em cartaz com ‘A Alma Imoral’.

Desde a estreia em 2006 no Rio de Janeiro, ela perdeu as contas do número de apresentações que fez com a peça orientada por Amir Haddad. Em 2008, a montagem veio para São Paulo, no Teatro Eva Herz e por lá ficou.

Quanto às histórias, Clarice diz que já começou o registro em um livro, que prevê finalizar no ano que vem, e lançá-lo até o segundo semestre de 2018. Quando o público aplaudiu o fim da apresentação em um festival na cidade Rezende, Clarice percebeu que o teatro, como um rito de Dionísio, pode reunir, em paz, as mais diversas crenças.

A CABALA DO DINHEIRO

Teatro Eva Herz. Av. Paulista, 2.073. Tel.: 3170-4059. 3ª, 4ª, às 21h. R$ 50. Estreia hoje (11). Até 27/9.

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