Sergio de Carvalho
Sergio de Carvalho

'Experimento H' reproduz um dia de Marilyn Monroe e de Mary Sanches

A partir de obra de Truman Capote, Cia. do Latão embaralha a vida da atriz de Hollywood com a rotina da diarista do escritor

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2018 | 06h00

Correções: 16/02/2018 | 08h59

Enquanto muitas sedes de grupos continuam fechando as portas e entregando seus espaços, pela ação da constante especulação imobiliária na cidade, a Companhia do Latão quer começar o ano de 2018 de portas bem abertas. Após receber uma série de shows no Estúdio Latão, a companhia dirigida por Sergio de Carvalho percebeu que era possível ocupar o local, antes usado apenas como sala de ensaio e administração, e ter atrações paralelas ao trabalho do grupo. 

O espetáculo Experimento H que estreou na quinta-feira, 15, faz parte desse desejo. Com o projeto A Cidade e a Cena, a peça inaugura uma combinação de montagens mais experimentais e com espetáculos de repertório do Latão. Na montagem em questão, é relatado um dia da vida de Marilyn Monroe, em contraste com a diarista Mary Sanches. Ambos os contos, escritos por Truman Capote estão presentes em Música para Camaleões, investidas do autor americano no chamado jornalismo literário, cuja obra-prima é A Sangue Frio (1966).

Na obra, ele retrata, além de Marilyn e de sua diarista, outros personagens reais, como um parceiro beatnik de Charles Mason, uma velha caribenha que tocava piano para camaleões, e um serial killer em uma batalha de perseguição com um policial. Na capa, da editora Companhia das Letras, a foto de Capote dançando com a atriz é cheia de significados. “Parece que ele está a prendendo e que ela deseja fugir. Eu discordo”, afirma a atriz Helena Albergaria, que concebeu o projeto. “Quando me deparei com a histórias das duas mulheres, vi que poderíamos encontrá-las em cena”, continua. 

De fato, elas são bem diferentes, o relato de Marilyn foi feito em 1955, quando Capote acompanhava a atriz no velório de sua coach. “Conta-se que Truman apresentou Marilyn para a agente afim de que a atriz fosse preparada na arte da interpretação”, conta Helena. “No início, ela foi rejeitada porque era considerada apenas uma mulher gostosa.” Quem acompanha a estrela de cinema no velório é uma versão do escritor (Lourinelson Vladmir). Em cena, ele negocia com Marilyn um segredo: Passa a contar todas as suas orgias em troca de saber quem é o amante da musa na época. “Ela não conta que seria o dramaturgo Artur Miller, com quem se casaria em 1956”, diz Helena. 

Uma segunda camada criada na montagem é ambientada em 1979, quando Capote tirou o dia para acompanhar o trabalho de sua diarista Mary. Aqui já começa um trajetória oposta. Se no velório, a atriz sai da área nobre da cidade para ir ao cemitério, o escritor segue a diarista em direção às grandes mansões de seus clientes. “Ele pede para conhecer as casas e Mary aceita levá-lo”, diz Kiko do Valle que interpreta a versão mais recente do escritor. “Aqui começam a surgir contrapontos sobre a vida dessas mulheres.” Em sua rotina, Mary atende quatro casas diferentes por dia e é conhecida por sua devoção católica, após deixar a igreja batista. A perda recente do marido também pontua o encontro. “É uma peça que fala muito sobre a relação com a morte”, explica Sergio de Carvalho. 

O que seria uma expedição na vida de milionários passa a ser ofuscada pela simplicidade da diarista. “É quando as duas tramas começam a se embaralhar”, conta o diretor. “E os relatos se contaminam, colocando em perspectiva as muitas semelhanças entre elas, seja na exploração de trabalho a que estão submetidas e nos modos de subverter essa opressão”, completa Helena.

Por último, o próprio Capote tem chances de brilhar, quando o tema da morte passa a assolar suas memórias e colocam as duas figuras da cena em conflito, inspirado no texto Turnos Noturnos ou Como Gêmeos Siameses Fazendo Sexo. “É um relato engraçado do próprio Truman se entrevistando”, diz Carvalho. “Ele se divide em duas personas, uma delas sedento por sexo e por curtir a noite e a outra cheia de preguiça que prefere resolver tudo numa masturbação.” Esse aparte é feito em todo momento, entremeando a história do velório e das faxinas nas mansões. “Os narradores também passam a se projetar sobre o desejo e a história delas”, completa.

A Cidade e a Cena

Além de Experimento H, o Latão prevê a estreia de Estação da Luz, baseado em dois contos de Mário de Andrade e a volta de O Patrão Cordial, espetáculo premiado inspirado em Raízes do Brasil, obra de Sérgio Buarque de Holanda e a peça O Senhor Puntila e Seu Criado Matti, de Brecht. A montagem de 2012 reviu os procedimentos do Latão na comédia alemã centrada em Puntilla, um proprietário rural com caráter volúvel que luta para manter sua classe: é cordial e gentil quando está bêbado e impiedoso e cruel, sóbrio. “Percebemos que o espaço pode abrigar montagens nossas mais intimistas. Esses experimentos tentam dialogar mais livremente com montagens concebidas em outro recorte”, pontua Carvalho.

Correções
16/02/2018 | 08h59

Uma versão anterior do texto dizia que Truman Capote era um autor inglês (ele é americano). E que seu livro mais conhecido, A Sangue Frio (1966), é uma ficção policial. Na verdade, o livro é conhecido como uma das fundações do jornalismo literário. O texto foi corrigido.

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