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Ex-Cirque du Soleil, acrobata cria Companhia Rudá

Depois de 'Corteo' e 'La Nouba', Gustavo Lobo estreia ‘Um Sonho Real’

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2015 | 05h00

Durante os anos 1980, o cabeleireiro Eder Cunha fez sucesso em Santos e não era por cortar cabelo. Sua habilidade era subir em uma bicicleta e deslizar por sobre os prédios da orla, com um dos pés no banco e o outro no guidão.

Há quase sete anos, a bike estava parada e Cunha seguia com o trabalho no salão. Nesta quinta-feira, 3, ele estará na estreia de Um Sonho Real, no Teatro Frei Caneca. O retorno com as acrobacias veio do convite de Gustavo Lobo, fundador da Companhia Rudá. “Falei com ele e agendamos um ensaio. Quando o vi, achei que não ia dar conta.” A resposta veio ao subir na bicicleta. “Eder deslizou como se fizesse aquilo todos os dias”, lembra.

Partindo do resgate de memórias e habilidades, o espetáculo faz um passeio por brincadeiras típicas de criança, como amarelinha, esconde-esconde, pião e pipa. “Nós construímos um bairro no palco e, ao entardecer, as crianças brincam”, explica. E, para ilustrar tantos jogos, um elenco de oito artistas executa acrobacias, números aéreos, dançam e interpretam. “É como voltar no tempo que não éramos perseguidos pelo relógio. É um grande contraste entre as gerações atuais que estão mergulhadas em jogos virtuais”, explica.

O trabalho teve seus primeiros rascunhos enquanto Lobo ainda cumpria temporada em Orlando com o espetáculo La Nouba, do Cirque du Soleil e dirigido por Franco Dragone.

Sua entrada na companhia canadense se deu em 2002, em um programa de treinamento durante um ano para acrobatas. “Tive aulas de teatro, dança, música, movimento e coreografia”, conta. O objetivo era fazer parte da formação geral de um novo espetáculo.

Ao fim do período, a companhia contratou imediatamente alguns artistas e Lobo não estava entre os escolhidos. A volta para o Brasil então teve um gosto meio amargo e uma espera de dez meses. “Fiquei um pouco frustrado porque achei que tinha acabado ali. Até o dia em que recebi uma ligação me convidando para a nova montagem”, relembra Lobo.

Assim, em 2007, ele se preparava para estrear Corteo, em Montreal, dirigido pelo suíço Daniele Finzi Pasca. A parceria deu tão certo que em 2012, o diretor convidou-o novamente, dessa vez, para estrear Nebbia montagem de sua companhia Teatro Sunil.

De volta ao Cirque du Soleil, na montagem de Dragone Lobo, ele interpretou o Pierrot Vermelho. Para o acrobata, a vivência deu segurança para atuar. “Era a experiência que eu precisava. Minha personagem costurava todo o espetáculo.”

Mais três anos em cartaz e Lobo decidiu voltar ao Brasil para criar a própria companhia. Em 2012, ele realizou duas apresentações do espetáculo, produzidas de maneira independente no Teatro Coliseu, em Santos. “Passamos o chapéu pela cidade pedindo apoio dos comerciantes, parentes e amigos”, relembra. O resultado alimentou um projeto piloto, que obteve incentivo para cumprir uma temporada anual no Brasil e também no exterior. Após São Paulo, Curitiba receberá a montagem. “No ano que vem, temos planos para o Chile.”

“Há muitos desafios para os atletas e os artistas no Brasil"

Antes de se imaginar nos palcos, o jovem Gustavo Lobo integrou a equipe brasileira e foi campeão mundial de salto sobre o cavalo, nos Jogos Mundiais da Juventude, realizados em Moscou, em 1998. De lá, foram quase 12 anos divididos entre Corteo e La Nouba, do Cirque du Soleil, e Nebbia, de Daniele Finzi Pasca, com a companhia suíça Teatro Sunil. “Nos espetáculos do Dani, há uma presença teatral maior com os números de acrobacia”, explica. “Foi quando surgiu o desejo de criar minha companhia.”

Com mais sete artistas (a equipe conta com 15 pessoas), entre amigos e parceiros de outras montagens, Lobo conta que sua montagem foi abraçada na sua cidade natal: Santos.

Tamanho apoio redundou em um projeto piloto, que obteve, enfim, patrocínio para uma temporada anual. “É muito estranho deixar o Cirque du Soleil e se deparar com os desafio de criar um grupo no Brasil.” E o raciocínio agora deve ser como de um empreendedor. “Nas viagens, há o transporte do cenário e equipamentos. Grandes custos, além dos imprevistos.”

Ainda assim, após passar por Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Maceió, ele tem força para continuar. “Estamos só começando.”

UM SONHO REAL. Teatro Shopping Frei Caneca. Rua Frei Caneca, 569, Consolação. Tel.: 3472-2229. 5ª e 6ª, às 21 h. R$ 40/R$ 80.

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