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Eva Wilma e Nicette Bruno duelam em 'O Que Terá Acontecido a Baby Jane?'

Irmãs Hudson alimentam uma relação doentia que culmina com um final trágico e inesperado

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

31 Julho 2016 | 05h00

RIO - Foram os dois convites aceitos mais rápidos da história. “Quando eles me ligaram, topei na hora”, conta a atriz Nicette Bruno, de 83 anos. “A gente se sentiu muito lisonjeada por ser lembrada”, completa Eva Wilma, de 82. “Eles”, no caso, são os diretores e produtores Charles Möeller e Claudio Botelho. Habitualmente lembrados pelas grandes produções de musicais, eles decidiram se aventurar em outra seara e estreiam, no dia 19, a peça O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, no Teatro Porto Seguro, estrelada pela adorável dupla de veteranas.

“Confesso que tínhamos um certo receio de nenhuma delas aceitar o convite”, segreda Möeller. “Afinal, são duas atrizes consagradas e a proposta parecia pouco usual.” Eva e Nicette não só aceitaram como descortinaram sua eterna vontade de inovar, especialmente no teatro. “Um dos motivos que me encantaram foi poder trabalhar novamente com a Eva depois de muito tempo - estivemos juntas na novela O Meu Pé de Laranja Lima, em 1970 -, e, melhor ainda, em um texto assustador”, fala Nicette, sorriso aberto.

“Assustador é pouco”, completa Eva. “É de uma maldade impressionante.” De fato, embora baseada no romance de Henry Farrell, a peça é mais conhecida pela versão cinematográfica de 1962, em que Bette Davis e Joan Crawford representam as duas irmãs que vivem uma relação doentia.

A expressão de Eva Wilma mudava a cada diálogo falado, durante a leitura da peça O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, acompanhada pelo Estado, no Rio de Janeiro. “Mas como pode ser tão má?”, pensava ela, em voz alta. No espetáculo, Eva será Baby Jane Hudson, artista que alcançou fama quando menina e, depois de envelhecer e de ser esquecida pelo público, vive encerrada em uma mansão com a irmã, Blanche Hudson, papel de Nicette Bruno, atriz cujo sucesso artístico, mais autêntico que o da irmã, foi interrompido por um acidente de carro, que a deixou presa em uma cadeira de rodas. No cinema, os personagens foram vividos respectivamente por Bette Davis e Joan Crawford.

E, se as atrizes americanas eram grandes rivais declaradas dentro e fora de cena, Eva e Nicette nutrem um carinho mútuo incomparável. “Esse jogo de gato e rato só dá certo porque Nicette e eu atuamos como se tocássemos um piano a quatro mãos”, acredita Eva. “E isso é importante principalmente quando buscamos encontrar o personagem”, acrescenta Nicette. “São duas irmãs que vivem uma situação patética, horrível. E, para dar certo, temos de ir às últimas consequências, sem nenhum pudor.”

De fato, a história das irmãs Hudson, que se digladiam em uma batalha psicológica movida por infinitos ressentimentos, é um grande exercício para as atrizes, que se confrontam sem perdão em uma disputa verbal violenta, mas também bem-humorada. E, se para Bette Davis e Joan Crawford, a versão cinematográfica serviu para dar um novo alento às duas carreiras, para Eva e Nicette trata-se de uma variação no uso de seus talentos.

“Fiquei muito atraída pela proposta da dramaturgia ao tratar das duas situações que sempre acompanham os artistas em paralelo: o sucesso e o fracasso”, conta Nicette, que já viveu no palco uma história semelhante em Somos Irmãs, poderoso drama musical montado em 1998 e inspirado na trajetória das irmãs cantoras Linda e Dircinha Batista.

“A relação familiar sempre rendeu boas histórias, especialmente as que se passam em um mundo familiar a nós”, comenta o diretor Charles Möeller. “Entre os musicais, basta lembrar de Gypsy, entre mãe e filha. É um universo muito próximo, com teatro de variedades e canções.”

Para manter o clima claustrofóbico, ele e Claudio Botelho, responsável pela tradução do texto original de Henry Farrell, decidiram que o cenário seria único. Assim, em tons lúgubres, a casa das irmãs Hudson, criada por Rogério Falcão, revela sutilezas como divisórias que, depois de uma leve mexida, revelam detalhes escondidos - algo semelhante à relação entre Jane e Blanche. “Queríamos algo que representasse a prisão psicológica que marca aquelas irmãs”, continua Möeller. “O realismo não é o mais importantes, mas sim o destino que as prende - uma é a sombra da outra, Jane vê Blanche como seu reflexo distorcido.”

A sufocante relação vai, aos poucos, mostrando-se como um labirinto do qual nenhuma delas pretende sair. É por ali que elas circulam e, aos poucos, revelam sua personalidade. “Apesar da aparente dicotomia - Jane é a vilã e Blanche, a sofredora -, ambas são muito más”, observa Botelho. “Isso logo é descoberto pelo público, especialmente quando percebe que Blanche é a anti-mártir, a falsa fofa.”

Charles Möeller aponta para um detalhe importante: a decadência provoca o ódio. É o que explica a tensa rotina das Hudson, outrora figuras conhecidas dos shows e do cinema e agora, artistas completamente esquecidas, portanto, amarguradas. “No fundo, o que se vê ali é a cruel relação que marca a vida de um artista: jamais ter garantia alguma de conforto”, afirma Botelho.

A peça - assim como o filme - é um veículo destinado às atrizes. “O autor foi pioneiro em minimizar o papel masculino”, comenta Möeller. “E, claro, oferecer chances maravilhosas para as mulheres.” É o que acontece quando Eva Wilma e Nicette Bruno estão em cena. O processo de descoberta das personagens, a maldade embutida em pequenos gestos - Eva esmerou-se em arregalar os olhos ao dizer certas frases carregadas de desprezo -, as pistas deixadas por Nicette que ajudam a corroer a imagem frágil de Blanche, tudo se revelou um meticuloso trabalho para construir um clima tenso, mas repleto de fragilidade.

Eva e Nicette contam que, no início dos ensaios, decidiram assistir apenas a algumas cenas do filme dirigido por Robert Aldrich, em 1962. “Apenas o suficiente para sentir o clima tenso”, explica Nicette. E, diante de interpretações tão poderosas como as de Joan Crawford e Bette Davis, elas não se renderam. “A linguagem teatral é mais sedutora”, ensina Eva, que também contracena com Licurgo Spínola, Nedira Campos, Teca Pereira, Rachel Rennhack e Juliana Rolim. As meninas Sophia Valverde e Duda Matte vivem as irmãs quando crianças.

A decadência de outras irmãs artistas, as Batista

Os gritos de Suely Franco ainda ecoam na lembrança - ao lado de Nicette Bruno, ela protagonizou Somos Irmãs, poderoso drama musical inspirado na vida das irmãs cantoras Linda e Dircinha Batista. Escrito por Sandra Louzada e dirigido por Ney Matogrosso e Cininha de Paula, o espetáculo também é um doloroso retrato da decadência.

As duas atrizes interpretavam as irmãs na década de 1980, quando, esquecidas, viviam em eterno confronto, apertadas em um apartamento em Copacabana, quase sem dinheiro até para comer. A extrema decadência contrastava com seu estrondoso sucesso na época de ouro do rádio brasileiro - entre os anos 1920 e 1940 -, quando, no auge da glória, chegaram a acumular 14 carros na garagem. Somos Irmãs era brilhante por também mostrar simultaneamente os dois momentos tão distintos vividos pelas irmãs Batista, dois planos revelados pelo engenhoso cenário criado por Helio Eichbauer, que se dividia em andares.

 

O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE?

Teatro Porto Seguro. Al. Barão de Piracicaba, 740. 6ª e sáb., 21h. Dom., 19h. R$ 90 / R$ 120. Até 30/10. Estreia 19/8

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