Vitor Pessoa
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‘Estudo Nº 1: Morte e Vida’ ressignifica retirantes nordestinos

Peça apresenta personagens que abandonam seus lugares de origem devido às questões climáticas e políticas

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

28 de janeiro de 2022 | 05h00

Lá por 2019, os seis integrantes do grupo pernambucano Magiluth se deram conta de que um inédito flerte com uma obra poética poderia nortear o próximo trabalho. A companhia teatral vinha da montagem de Apenas o Fim do Mundo, peça intimista do francês Jean-Luc Lagarce, cheia de personagens sólidos e conflitos afetivos, que deu uma aliviada nas constantes abordagens políticas. A grande questão, então, seria equilibrar um discurso coletivo relevante para o momento e uma temática que fosse levada ao palco com relativa propriedade pelos artistas.

A resposta estava a um palmo do nariz e veio junto das palavras de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e sua obra mais famosa, o poema dramático Morte e Vida Severina, publicado em 1956. O ator recifense Giordano Castro, um dos fundadores do Magiluth, descarta qualquer obviedade na escolha: “Para nós, é impossível não encontrar João Cabral todos os dias porque o tempo inteiro passamos por cima do Capibaribe”, diz ele, em referência ao curso d’água que banha a capital pernambucana e serviu de inspiração ao poeta em outro famoso poema, O Rio. “A nossa cabeça explodiu assim que começamos a lê-lo, foi como se tivesse sido acionado um disparador de perguntas.” 

Não seria suficiente e tampouco satisfatório, no entanto, levantar uma peça que se limitasse a uma adaptação de Morte e Vida Severina. A história do retirante Severino em sua saga para fugir da seca rumo a uma vida melhor próximo ao litoral ganhou novos significados e, inclusive, ampliou as fronteiras geográficas de identificação.

 O espetáculo Estudo N.º 1: Morte e Vida, que estreia nesta sexta, dia 28, no Teatro do Sesc Ipiranga, propõe uma ruptura do imaginário criado em torno dos nordestinos e da migração. “Os Severinos de hoje são outros e a visão sobre o Nordeste mudou muito tanto para nós como para o resto do Brasil, por isso precisamos ressignificar esse olhar do João Cabral”, provoca Castro.

“A gente se observa o tempo inteiro nos ensaios para enxergar melhor onde nós nos reconhecemos ou nos afastamos em relação a esse imaginário.”

Com direção cênica de Luiz Fernando Marques e musical de Rogério Tarifa, Estudo N.º 1: Morte e Vida apresenta personagens inspirados em homens e mulheres que, devido às questões climáticas e políticas, são obrigados a abandonar seus lugares de origem. Ao lado de Castro, os atores Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Lucas Torres e Mário Sergio Cabral representam variações de Severino e promovem reflexões em torno da identidade e dos estereótipos nutridos em relação aos imigrantes. Eles podem ser lavradores, religiosos, operários, porteiros dos edifícios e até os entregadores de aplicativos que abastecem as classes privilegiadas em seu isolamento social. “Nossa proposta é mostrar que os Severinos são todos os refugiados, sejam eles nordestinos, sul-americanos, sírios ou asiáticos”, aponta Marques, em sua terceira parceria com o Magiluth, depois de Aquilo Que Meu Olhar Guardou para Você (2012) e Apenas o Fim do Mundo (2015), codireção com Giovana Soar. “Queremos levantar possibilidades porque não vivemos mais em um tempo de respostas únicas ou em que se pode rotular as pessoas com base em determinados conceitos.”

Marques, que é santista e vive em São Paulo, salienta a importância da vivência local dos artistas pernambucanos para a concepção de um espetáculo com esta proposta. Três dos integrantes do Magiluth são de Garanhuns e outros três nasceram no Recife, a capital onde todos vivem e o grupo tem uma sede. “Diante da nossa visão estrangeira, parece que o imaginário está sempre colado, fica difícil se desvincular de algo que é tão alimentado pelo cinema e pela televisão e sempre pode resultar em uma volta para trás.”

 A clássica encenação de Morte e Vida Severina, dirigida por Silnei Siqueira e musicada por Chico Buarque em 1965, aplaudida até na França, é citada por Marques como um exemplo bem-sucedido do passado que seria alvo de questionamentos hoje. “Por mais que Chico Buarque seja um grande artista e filho de Sérgio Buarque de Holanda, o autor de Raízes do Brasil, essa versão foi montada por profissionais nascidos ou radicados no Rio de Janeiro ou em São Paulo, sem a experiência de quem é ou vive a rotina dos nordestinos”, comenta ele.

“O olhar dos atores do Magiluth faz toda a diferença no processo de criação e, hoje em dia, um espetáculo deve extrair poesia do que não é óbvio para todo mundo, como fez o João Cabral.”

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