Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Estreias de ‘Na Pele’ e ‘Tick, Tick... Boom!’ reforçam o circuito musical alternativo

As duas produções estreiam em São Paulo e tratam de temas semelhantes, como momentos decisivos na vida de jovens

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

29 Outubro 2018 | 06h00

As grandes produções musicais já se consolidaram no panorama teatral de São Paulo, criando um público cativo que, aos poucos, expandiu o gosto e agora abre espaço também para espetáculos independentes, aqueles que, em Nova York, são conhecidos como off Broadway. São peças de orçamento reduzido, mas de qualidade artística top. É o caso de duas estreias que acontecem na cidade nesta semana: Tick, Tick... Boom!, na terça-feira, 30, no Teatro Faap, e Na Pele, na quarta, 31, no Teatro Augusta

E os dois trabalhos curiosamente tratam de temas semelhantes, como momentos decisivos na vida de jovens. No caso de Tick, Tick, é a chegada dos 30 anos, idade em que a vida normalmente já toma um rumo. É o caso de Jon (Bruno Narchi), escritor e compositor que cria um musical (Superbia) que pode ser finalmente seu passaporte para a glória. Enquanto vive essa ansiedade, ele tem de lidar com o desejo da namorada Susan (Giulia Nadruz) de deixar a cidade grande e também da insistência de Michael (Thiago Machado), seu melhor amigo, que está disposto a convencê-lo a trocar tudo pela lucrativa carreira de publicitário.

O título do musical faz tanto uma referência ao passar do tempo (tick, tick seria o andar do relógio) como a iminência de uma explosão pessoal (boom!) vivida por Jon por conta das pressões que sofre de todos os lados. “A insegurança é um dos grandes males que afligem a juventude”, atesta Bruno Narchi. “E traz um importante questionamento da vida: por que seguir líderes que não sabem liderar?”, conclui Thiago Machado.

O espetáculo estreou no circuito alternativo de Nova York em 1991 e foi criado por Jonathan Larson (1960-1996), que se notabilizaria por Rent, musical de 1996, cuja estreia aconteceu horas depois da confirmação da morte do próprio Larson. “Tick, Tick é claramente autobiográfico, pois mostra o momento em que Larson criava Rent, que se tornaria um dos clássicos da Broadway”, observa Narchi, que integrou, ao lado de Machado, uma bem sucedida montagem de Rent, em 2016. O espetáculo, além de arrastar uma legião de fãs e de ter sido montado com a boa vontade do elenco – que se dispôs a trabalhar em dias normalmente de folga e por um cachê simbólico –, marcou ainda o nascimento de uma parceria que, além dos dois atores, uniu a produtora Bel Gomes e o também ator e diretor Leopoldo Pacheco.

Juntos, eles criaram a Companhia Paralela, cuja missão é a de produzir espetáculos de alta qualidade que enriqueçam o cenário alternativo. “É apostar na simplicidade que privilegia a interpretação de temas pertinentes, com a crise da idade e verdades suspeitas”, comenta Bel, que assina a direção artística com Pacheco. “As relações entre os três personagens sustentam a história, e por isso decidimos ressaltar a importância da magia teatral, ou seja, os atores continuam no palco mesmo fora de cena, no bastidor, que é revelado para o público”, explica Pacheco. 

Também a banda de quatro músicos (comandada pelo diretor musical Jorge De Godoy) se integra ao cenário e, em cena, os três atores cantam 13 músicas com batida de rock e cuja precisa versão é assinada por Narchi e Machado.

Se Tick, Tick... Boom! trata da insegurança trazida pela idade, Na Pele toca em um assunto igualmente delicado: a descoberta da sexualidade e o conflito que isso pode provocar em confronto com os dogmas religiosos. “O espetáculo conta uma história de caráter emergencial, que não se pode esconder”, comenta o ator Diego Montez que, além de ser um dos protagonistas, foi um dos que mais batalharam pela produção da peça.

Ele vive Jonas, líder de um grupo de estudantes de um internato católico. Popular, desejado pelas meninas, Jonas sustenta a figura do exemplo a ser seguido. Ele é apaixonado, no entanto, por Pedro (Mateus Ribeiro), rapaz sensível, que busca encontrar um caminho para revelar sua opção para a mãe. É obrigado também a lidar com insegurança de Jonas, que teme perder seu status se sua homossexualidade for descoberta.

“Assisti, ao lado do produtor Ricardo Marques, a uma versão montada em 2013, em Nova York, mas não gostamos – aliás, nem os produtores pareceram gostar. Mesmo assim, percebemos que havia ali um texto com grande potencial”, conta o diretor do espetáculo, Léo Rommano. Desde então, ele e Marques tentaram de todos os modos conseguir viabilizar a produção nacional, mas não encontraram nenhum patrocinador. O motivo é o teor do espetáculo, que mostra um confronto de ideias entre religião e liberdade de opção sexual, tema ainda considerado tabu pela maioria dos apoiadores.

A solução do problema foi arriscada, mas se revelou bem sucedida: o grupo inscreveu o projeto no Catarse, site de financiamento coletivo em que qualquer pessoa pode contribuir. O objetivo era alcançar pouco mais de R$ 62 mil, uma meta alta, mas, ao final, foram arrecadados mais de R$ 66 mil, o que garante sustentar um elenco de 17 atores e uma banda de seis músicos, além dos custos de manutenção, durante uma temporada de dois meses.

“Foi a melhor resposta que poderíamos esperar, pois comprovou que o assunto continua atual”, comenta Mateus Ribeiro que, ao lado de Diego Montez e outros membros do grupo, todos com imagem consolidada em grandes musicais, se entregaram a uma produção de baixo orçamento, mas de grande qualidade. Afinal, Bare (título original do espetáculo que estreou na Broadway) foi montado em diversas cidades americanas e de outros países, desde que estreou em 2000, em Los Angeles. Com texto de Jon Hartmere e melodia de Damon Intrabartolo, o musical é habilidoso ao apresentar os conflitos daqueles alunos a partir de uma montagem de Romeu e Julieta, de Shakespeare, texto que também trata de um amor proibido. “Ao longo desses cinco anos de espera, fiz pesquisas sobre identidade sexual e social, drogas e religião, que enriqueceram a encenação”, conta Rommano. “E, realizar agora esse projeto, dessa forma, é um ato de resistência, não apenas pela temática, mas pela oportunidade de realizar um projeto que foi tão recusado.”

Em sua concepção cênica, o diretor decidiu que todos os personagens, mesmo os mais discretos, teriam uma história particular, o que os individualiza. Assim, ganham destaque outros nomes como Vânia Canto, que tira o fôlego do espectador como Nadia, a inconformada irmã de Jonas. Ou Thuany Parente, que vive Eva, garota bonita e que engravida de maneira inesperada, trazendo outro assunto delicado à cena. 

Na Pele abre espaço também para intérpretes mais experientes, como Marya Bravo que, no papel de Clara, mãe de Pedro, é capaz de arrancar lágrimas com seu solo; e Maria Bia, que vive com raro brilho Irmã Elza, a religiosa que dirige a montagem de Romeu e Julieta, tratando os alunos com uma linguagem absolutamente moderna e hilariante, arrancando as principais gargalhadas do espetáculo.

“Jonas vai de herói da escola à pária da sociedade, de uma forma que só é possível na estrutura social esquisita que vivemos no ensino médio. Com o espetáculo, queremos discutir temas como alienação, medo da rejeição, confusão de identidade sexual, bullying, preconceito, suicídio”, comenta Rommano.

E, assim como Tick, Tick... Boom!, Na Pele é fruto de produtores interessados em alimentar o circuito alternativo de São Paulo. Para isso, foi criada a 4ACT OFF, que promete espetáculos menores em tamanho, mas enormes em conteúdo.

 

TICK, TICK... BOOM!

Teatro Faap 

Rua Alagoas, 903. Tel.: 3662-7233. 3ª e 4ª, 21h. R$ 60 / R$ 80. Até 12/12. Estreia 30/10

NA PELE 

Teatro Augusta

Rua Augusta, 943. Tel. 3231-2042. 4ª e 5ª, 21h. R$ 60. 

Até 20/12. Estreia 31/10

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