Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Estreia, no Rio, o musical 'Romeu & Julieta', com canções de Marisa Monte

Músicas da cantora têm a função de narrar a história

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

09 Março 2018 | 06h01

RIO - A ideia era contagiante - transformar o clássico Romeu e Julieta, de Shakespeare, em um musical. O desafio imposto, então, aos donos da ideia (a produtora Aniela Jordan e o diretor Guilherme Leme Garcia) era montar a seleção de canções: afinal, inúmeras opções saltavam aos olhos, resultando em uma colcha de retalhos. A solução veio de uma sugestão do ator e diretor Gustavo Gasparani: por que não usar apenas músicas de Marisa Monte? “São letras que tratam do amor na medida certa”, comenta Gasparani, que resolveu a questão ao adaptar (ao lado de Eduardo Rieche) o texto shakespeariano, incluindo entre suas falas precisas os versos amorosos de Marisa. O resultado poderá ser visto a partir desta sexta-feira, 9, com a estreia de Romeu & Julieta, no Teatro Riachuelo, no Rio - em junho, chega a São Paulo.

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O segredo da perfeita fusão está no fato de Marisa ter, como só Elis Regina e Gal Costa antes dela, o poder de organizar sínteses. Convivem em suas músicas Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes com Paulinho da Viola e Raphael Rabello, um trabalho sem fronteiras definidas entre o erudito e o popular. “As canções se adaptaram de uma tal forma que parecem ter sido especialmente compostas para o espetáculo”, comenta Guilherme Leme que, desde que se maravilhou com uma versão de Romeu e Julieta assinada por Antunes Filho, no longínquo ano de 1984, sonhava em comandar uma montagem em que o medieval dialogasse com o tempo presente, ou seja, em que texto escrito no final dos anos 1500 casasse perfeitamente com a música dos 2000.

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Assim, o espetáculo abre com Um Só, que ilustra a apresentação do ambiente e dos personagens, e termina em forte tom operístico com A Primeira Pedra, quando a intransigência das famílias rivais provoca a morte dos dois jovens amantes.

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“Eu sinto claramente que essas músicas não são mais minhas, elas fazem parte da vida de muitas pessoas, de histórias vividas por outros em situações e lugares muito além da minha presença física”, conta Marisa ao Estado. “Nesse caso, ver as canções se cruzando com a história de personagens fictícios, num clássico de Shakespeare é, para mim, uma sensação inédita, que me toca de uma maneira diferente e única que ainda nem sei explicar, mas que já adoro.”

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Bárbara Sut já participou de uma montagem de Romeu e Julieta, quando estava na escola. Seu papel foi a da Ama, que cuida e protege a personagem principal. “Todas as meninas fizeram a Julieta, mas teoricamente não tenho o perfil do que se espera dessa protagonista”, diz a atriz de 21 anos. Por perfil, leia-se negra. “Itália medieval, uma Julieta negra - é um papel que sempre pensei ser inacessível para mim.”

No musical Romeu & Julieta que estreia nesta sexta-feira, 9, no Rio, com produção da Aventura Entretenimento, Bárbara vive tão intensamente o papel que a arte cumpre seu papel e se sobrepõe a questões como a de raça. E, como a opção do diretor Guilherme Leme Garcia foi a de contar uma história atemporal, o detalhe torna-se ainda mais irrelevante. “Busco uma montagem pop, com toda a liberdade criativa que isso envolve”, conta ele, que há três anos cuida do projeto.

Inicialmente, não seria um musical, ainda que reverberasse em sua memória o uso de canções dos Beatles na montagem de Antunes Filho, de 1984. Aos poucos, as músicas foram se encaixando, mas, inicialmente, apenas uma regra se impunha: só entrariam canções cujas letras ajudassem a contar a história. “Já nesse ponto, o trabalho da Marisa Monte aparecia como opções para as cenas românticas, mas foi quando o Gustavo Gasparani sugeriu que só usássemos canções dela é que tudo se tornou mais claro”, observa Leme.

Além da experiência em musicais (já costurou canções de Gilberto Gil em um espetáculo em sua homenagem), Gasparani conta ainda com uma particular intimidade em relação à obra de Marisa. “Somos colegas de faculdade e acompanhei toda a evolução de sua carreira”, explica ele, candidato natural, portanto, a desvendar os meandros das letras cuidadosamente criadas pela artista, encontrando as conexões com o texto de Shakespeare.

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“Marisa canta o amor como poucas pessoas e sua erudição permite que as letras se encaixem naturalmente no ritmo da dramaturgia”, explica Gasparani, entusiasmado também com a opção do diretor musical Apollo Nove em conferir um tom operístico aos arranjos, ressaltando um lado dramático como pouco se observa em musicais.

Foi esse detalhismo que inspirou os demais aspectos de espetáculo. Os cenários, por exemplo, são criação de Daniela Thomas, uma das mais originais profissionais dessa área. Trabalhando pela primeira vez em um musical (“Fiquei impressionada com a capacidade vocal do elenco”), ela recriou uma Verona que tanto faz alusão à Itália do século 16 como traz aspectos da atualidade. “A intenção era que cada cena tivesse o aspecto de uma pintura”, explica.

Para isso, é decisivo o desenho de luz elaborado por Monique Gardenberg e Adriana Ortiz, que joga com o claro/escuro necessário para representar o estado de espírito dos personagens. E também os figurinos elaborados pelo estilista João Pimenta, que desfila suas criações na São Paulo Fashion Week. É excepcionalmente feliz e original uma das peças criadas para uma cena de Julieta: surgindo primeiro com a função de lençol de cama, o tecido é preso ao corpo da atriz e se transforma em uma elegante e elaborada capa. Em outro momento, o da festa na casa dos Capuletos, os rapazes surgem vestindo vistosas ceroulas com a intenção de chocar os presentes.

Como se trata de um musical, a coreografia (elaborada por Toni Rodrigues) depende das cenas de luta, elaboradas por Renato Rocha, também um desenho de movimentos. Para que esse conjunto resulte em uma encenação coesa, a atriz Vera Holtz foi convidada para preparar o elenco. Trata-se de um importante detalhe, como observam os próprios atores.

“O ponto de partida é uma atemporalidade, mas não podemos fugir dos hábitos e costumes da época em que se passa a história”, observa Ícaro Silva, que vive Mercuccio, um dos principais amigos de Romeu. “É um musical, mas não há excesso de canções, ou seja, temos longos momentos marcados apenas pela representação.”

Elogiado por sua atuação em S’imbora, o Musical - A História de Wilson Simonal (2014), entre outros trabalhos, Ícaro optou pela androginia nos gestos e no vocal ao compor seu Mercuccio, o que transforma o personagem em um sujeito essencialmente sensual. A lista de parceiros de Romeu se completa com Benvoglio, vivido por Bruno Narchi. É a fidelidade ao amigo o grande trunfo do ator, pois a paixão por uma garota da família rival transforma Romeu Montecchio em um ser superior. “Ele simboliza o homem moderno, que se coloca acima de rivalidades sem fundamentos”, observa Thiago Machado, ator que solidifica sua carreira com grandes papéis.

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Viva o teatro! Com Hamlet, Romeu e Julieta é talvez a peça mais conhecida de Shakespeare, uma tragédia lírica que virou emblema do amor entre jovens. Inspirou inúmeros filmes, e Julieta foi sempre interpretada por atrizes brancas. O musical que estreia nesta sexta, 9, quebra a regra. Uma Julieta negra vai cantar seu amor por Romeu. Quando veremos um negro dilacerar-se no ‘Ser ou não ser’?

Bendito teatro. Romeo, Romeo, Romeo. Juliet! Quase sempre em inglês, e muitas vezes com os versos do poeta, o romance, fantasia o longa Shakespeare Apaixonado - vencedor do Oscar -, teria sido inspirado num romance que o próprio ‘Bill’ (William) teve em sua vida. Nonsense, proclamam os críticos que, com base nos sonetos, arriscam suas almas para dizer que ele era gay. Shakespeare transcende os gêneros, era (é) pansexual.

Popular já na época do autor, a história clássica mostra um casal de jovens que se ama e o mundo os separa. Em Verona, Romeu e Julieta morrem para reaproximar Capuletos e Montecchios. Em 1936, na Metro, George Cukor fez uma versão de prestígio, muito bonita por sinal, exceto pelo fato de que o casal de protagonistas, Norma Shearer e Leslie Howard, já passara dos 40 (cada). Nos 50, Renato Castellani, egresso do neorrealismo, mostrou que era possível filmar a história com jovens. Em 1968, a suntuosa versão de Franco Zeffirelli ganhou os Oscars de fotografia e figurinos.

Dois anos antes, Dame Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev fizeram a versão dançada, de Paul Czinner. E, em 1996, Verona virou uma praia da Califórnia na versão de Baz Luhrmann, com Leonardo DiCaprio e Claire Danes. Na Atlântida, Oscarito e Grande Otelo parodiaram a cena do balcão em Carnaval no Fogo. Ops! Já houve uma Julieta negra. Amor, Sublime Amor, que venceu o Oscar em 1960, foi pioneiro ao verter a trama para a Nova York da época, com canto e dança. Mas a história nunca doeu tanto nem foi tão sombria como em Romeu e Julieta nas Trevas, do checo Jiri Weiss, com sua Julieta judia, no Holocausto. 

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