Vitor Dias
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'Estão sugando a energia dos jovens', diz Gabriel Villela que estreia 'Hoje é Dia de Rock'

Em cartaz no Teatro Guaíra, espetáculo de Zé Vicente retrata família que deixas suas mitologias para unir-se à rebeldia dos novos tempos

Leandro Nunes / CURITIBA, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2017 | 06h00

No fim dos anos 1960, e com a América Latina imersa na repressão das ditaduras, surgiu na Colômbia, com o lançamento de 100 Anos de Solidão, um novo portal, como um observatório construído na e para a América Latina. A literatura de Gabriel García Márquez, além de sua reação ao regime, borrava a fronteira entre as culturas da tecnologia e da superstição. Nos 10 anos de morte do dramaturgo, José Vicente, ícone do movimento da contracultura no Brasil, Gabriel Villela estreia Hoje É Dia de Rock, nesta sexta, 17, a convite do Teatro Guaíra, espetáculo que não esconde a inspiração na obra do autor colombiano. 

Ao olhar para as últimas montagens do diretor – Peer Gynt (2016), Rainhas de Orinoco (2016), A Tempestade (2015) e a mais recente Boca de Ouro –, é na peça de Vicente que Villela reserva mais de seu saudosismo. “A estreia carioca no Teatro Ipanema foi num período turbulento no Brasil e de emancipação no mundo”, diz o diretor citando a ditadura brasileira, o Maio de 1968, com a greve geral na França, e o movimento hippie antibélico. “A peça trata da dissolução da identidade da família frente às transformações, muitas vezes trágicas.”

A peça-biografia de Vicente narra a história dos cinco filhos de Pedro Fogueteiro, morador do interior de Minas. A experiência do dramaturgo que sofreu ao ver um dos irmãos deixar a casa para se tornar seminarista – mais tarde, Vicente tomaria o mesmo caminho – já aparecia em Santidade (1967), primeira peça do mineiro que estreou com direção de Fauzi Arap.

A trama debatia a fé entre um ex-seminarista gay e desempregado, como o próprio Vicente, que vivia em São Paulo às custas do amante, e seu irmão, que está prestes a se tornar padre. Produzida por Tônia Carrero e dirigida por Arap, a peça foi censurada pelo marechal Costa e Silva, que declarou na televisão que o texto era exemplo de um espetáculo que jamais seria encenado no país. A peça ficou maldita por 30 anos até ser recuperada pelo próprio Arap em 1997, no extinto Teatro Crowne Plaza, em São Paulo. “Ele lidava com isso diretamente”, conta Villela. “Sua rebeldia enquanto artista não o barrou de escrever mais e mais peças. Em Hoje é Dia de Rock, há uma batalha contra o tempo real, do relógio, do calendário. Ele suspende tudo e usa da poesia e de uma atmosfera fantástica, claramente inspirado na Macondo de Márquez, para expor a vida dessa família em metamorfose.” 

Villela está hospedado desde meados de setembro em Curitiba. Os ensaios já renderam tradicionais oficinas com o elenco paranaense de 13 atores, o ateliê de criação do diretor foi transferido para as dependências do Guaíra e foco do barroquismo típico está menos na cenografia e mais nos figurinos, já que a produção planeja circular com a peça pelo Estado e vir a São Paulo. “Há uma explosão mística nos personagens, e isso vindo dos jovens”, diz Villela, que traz canções do Clube de Esquina, Mercedes Sosa e Beatles.

Para ele, o Brasil de hoje está bem mais implacável de encarar, sobretudo para a juventude, o que pode barrar a energia particular dessa geração. “Os jovens precisam enxergar uma alternativa para a política e para essa onda moralista que tomou o Brasil. Estão bebendo o sangue e os hormônios deles, de canudinho.”


Exílio do autor era aplacado pelo carinho dos amigos

Mais que ser um grande artista, é preciso estar cercado de grandes parceiros. Foi ao lado de Antonio Bivar, Leilah Assumpção, Consuelo de Castro, Isabel Câmara e Carlos Queiroz Telles que Zé Vicente escreveu no período mais acirrado da ditadura pós AI-5.

A chamada Geração 69 marcou os palcos com textos que versavam sobre a marginalidade e a contracultura, e unia à nova visão sobre a política aspectos da cultura pop, o absurdo e o nonsense, como é na obra de Bivar.

Quando Vicente se autoexilou na Europa – após ganhar o Prêmio Molière, que dava uma passagem para Paris –, passou a se corresponder com a amiga Leilah. Um contato com o Brasil para saber dos amigos e das nuvens negras que cobriam o País.

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