HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

'Estado' reúne Denise Fraga e Maria Luisa Mendonça, que vivem momento excepcional

Elas revelam como transformaram os clássicos 'Um Bonde Chamado Desejo' e 'Galileu Galilei' nas peças de maior sucesso de público

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

19 Julho 2015 | 05h00

A imagem é moderna e poética: imagine um aplicativo que, ao mostrar um mapa da região do bairro de Perdizes, exibisse a movimentação de aproximadamente mil pessoas, representadas por bolinhas, rumando para o teatro Tuca, onde estão em cartaz duas das mais bem-sucedidas peças de São Paulo: Galileu Galilei, na grande sala que recebe exatos 672 espectadores, e Um Bonde Chamado Desejo, no Tucarena, com seus 300 lugares. “Fico imaginando a vinda desse público e, depois que todos estão acomodados, penso ainda no terceiro sinal soando nos diversos teatros da cidade, anunciando o início de mais um ritual”, filosofa a atriz Denise Fraga, que vive de forma inesquecível Galileu. “É o momento que vai gerar uma química entre atores e plateia, todos se preparando para um feliz acaso”, completa Maria Luisa Mendonça, também memorável no papel de Blanche, a sonhadora sofrida de Um Bonde.

Experientes em teatro, as atrizes sabem que vivem um momento excepcional – se a crise econômica obriga muitos espetáculos a abreviarem temporada por falta de recursos, as peças em que elas atuam revelam uma grande vitalidade, a ponto de já estarem programadas duas sessões extras de Um Bonde Chamado Desejo

A convite do Estado, Denise e Maria Luisa reuniram-se no Tuca, teatro que completa 50 anos em grande estilo com seus espaços lotados. São duas entrevistadas inteligentes, absorventes – pungentemente engraçadas, mordazes e sagazes, discorrem sobre tudo, desde artes plásticas a psicologia, mas essencialmente sobre a arte que as une e as mantém dinâmicas: o teatro.

“Fiz muitas comédias, o que me deixou com o ouvido treinado para entender os risos da plateia”, conta Denise, que revelou seu talento na peça Trair e Coçar, É só Começar, em 1989. “Em Galileu, há muitos momentos engraçados, mas sinto que o público está mais interessado em algo que pode ser o conhecimento. Isso me deixa muito esperançosa, pois temia ser obrigada a encenar apenas textos rasos para conquistar o sucesso.”

Conteúdo. Idêntica situação é percebida por Maria Luisa, cujas palavras são atentamente sorvidas pelo público. “Há uma carência por conteúdo, que as pessoas buscam solucionar em espetáculos com textos que apresentam várias camadas. Quando isso acontece, é possível comprovar que a riqueza da criação não se esvai, mas permanece compartilhada com cada espectador.”

Denise e Maria Luisa sabem que a experiência, essa negociação consciente entre o eu e o mundo, é uma característica irredutível da vida, e não há experiência mais intensa do que a arte. Assim, ao longo da construção de suas carreiras, elas buscaram textos que unissem um vigor estético com uma grande capacidade de comunicação. É o que acontece no momento nas duas peças produzidas pela Morente Forte.

Escrita por Bertolt Brecht (1898-1956), Galileu Galilei conta a história do cientista que desafiou os saberes da Igreja no século 17, ao derrubar o conceito de geocentrismo e provar que a Terra se move ao redor do Sol – e não o contrário, como a Igreja Católica sustentava até então. A partir disso, o texto abre espaço para reflexões sobre a dificuldade de se relacionar com o poder e o preço a ser pago pela liberdade. 

“Brecht sabia da importância de seu texto chegar a todas as camadas populares, assim, além dos conceitos científicos e sociais que dão base para a peça, ele revela um grande timing cômico – em Galileu, há frases com a nítida intenção de provocar risos. É Brecht querendo falar para muitos”, observa Denise.

Igualmente cativante é Um Bonde Chamado Desejo, uma das mais perfeitas e complexas peças do americano Tennessee Williams (1911-1983). O texto conta uma história simples (a relação de Stella e Stanley Kowalski é abalada com a chegada da irmã dela, Blanche, e sua ambígua neurose, provocada pela fome de amor e desejo de compreensão), mas é na apaixonada e cúmplice descrição dos personagens que reside sua grande força dramática. 

“A trama possibilita uma experiência muito subjetiva”, comenta Maria Luisa. “As palavras são, ao mesmo tempo, simples e fortes e provocam uma sensação de liberdade no espectador, que não teme o risco de não assimilar nada. As sutilezas, as metáforas de Tennessee são ricas e plenamente acessíveis.”

A conversa entre as atrizes flui com rapidez. O raciocínio de uma é muitas vezes completado pela outra e, mesmo diante de um assunto que as mobiliza, a serenidade impera. Denise reflete levemente antes de falar, mas suas palavras formam um raciocínio coeso, bem acabado. Já Maria Luisa, em alguns instantes, revela a força de um pensamento inquieto, ansioso para ser revelado, mas, ao final, as frases trazem uma tranquila sonoridade. 

Essa economia generalizada de gestos das duas atrizes estende-se até mesmo ao instrumento maravilhoso que é a voz de cada uma, que exibe o som melodioso de um violoncelo elegante, aveludada, de vogais arredondadas e consoantes brandas, de onde nascem sílabas contidas, verdadeiras. 

Com o hábito já arraigado de receber o público na entrada do teatro, Denise já mede ali a temperatura do sucesso. “Fico encantada quando algumas pessoas dizem, com orgulho, que estão retornando e trazendo amigos para assistir”, diz a atriz. “É como se o espetáculo, depois de visto pela primeira vez, se tornasse também delas e, naquele momento, compartilham com outros”, completa Maria Luisa.

A afinidade e a proximidade permitiram até cenas inusitadas, quando os dois elencos se encontraram certa noite, antes do início dos espetáculos. “Virgínia (Buckowski, que interpreta Stella) me chamou para subirmos, por uma passagem dentro do teatro, até a sala maior”, diverte-se Maria Luisa. “Fomos e surpreendemos o pessoal do Galileu, que esquentava a voz. Ficamos nos preparando todos juntos, como se fosse um elenco só até começar a tocar o primeiro sinal.” Mais que uma partilha de sentimentos e ansiedades, o momento revelou a verdadeira essência do teatro: a troca de vivências.


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