Felipe Rau|Estadão
Felipe Rau|Estadão

'Estado' acompanha o processo de seleção de elenco do musical 'We Will Rock You'

Musical estreia em 3 de março de 2016

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2015 | 06h00

Um teste de resistência, mesmo para os mais preparados ou os bem experientes. Participar da audição de um musical exige do candidato não apenas as qualidades básicas (canto, dança e interpretação), mas também uma dedicação espartana e nervos de aço. “A audição foi bem complexa. Acredito que foi uma das mais desafiadoras”, comenta Tiago Barbosa, ator que se consagrou em O Rei Leão e que participou, no final de outubro, de um grupo de 400 candidatos (escolhidos entre mais de 3 mil currículos) desejosos de figurar no elenco de We Will Rock You - O Musical, espetáculo que estreia em 3 de março de 2016, inaugurando o Teatro Santander.

Para bom entendedor, o título basta: trata-se de um musical inspirado em canções do Queen, a começar por esse standard, que se tornou hino oficial das partidas de futebol na Inglaterra. “E não se trata de um projeto comum - não estamos selecionando para West Side Story ou Hello, Dolly! Quem se habilita a participar precisa apresentar qualidades muito específicas, nem sempre comuns em espetáculos como esse”, atesta o diretor alemão Uwe Petersen, que veio a São Paulo comandar as audições.

Junto dele, estavam o diretor musical Pablo Navarro e o coreógrafo associado Philip Comley. O trio utilizou noções muito específicas de avaliação. “O Queen tocava de uma forma muito específica”, disse Navarro. “Mas, não podemos nos esquecer que aqui vamos montar um musical, não um show.”

Esse detalhe, segundo eles, surpreendeu muitos candidatos. “Todos estavam muito bem preparados para cantar Queen, mas o que realmente nos interessava era que eles mostrassem como a música pode servir ao espetáculo”, observou Comley.

Criado pelos dois músicos remanescentes da banda, Brian May e Roger Taylor, We Will Rock You (ou WWRY, como se tornou mais conhecido) não carrega a pretensão de ser uma biografia de Freddy Mercury (morto aos 45 anos, vítima da aids em novembro de 1991) e seu grupo. Com roteiro do comediante Ben Elton, o musical fala dos perigos da globalização. A ação se passa no futuro, quando todos assistem aos mesmos filmes, usam as mesmas roupas e têm o mesmo pensamento. Formar novas bandas é algo proibido, assim como escrever as próprias canções.

Neste iPlanet, conhecido como Ga Ga, surge um rebelde, Galileo disposto não só a reabilitar antigos instrumentos musicais como a pregar a liberdade criativa. “Acredito que cada audição tem seu nível de dificuldade, mas nesse caso, audicionar para o papel de Galileo, que é o protagonista e canta as melhores e mais desafiadoras músicas do Queen, com certeza foi muito especial”, observou o ator Beto Sargentelli, que tem no currículo importantes papéis em Jesus Cristo Superstar, O Rei Leão e está em cartaz em Mudança de Hábito. 

Ele, como os demais, passaram por uma semana intensa. “A audição do WWRY foi uma das mais rápidas que já participei. Em apenas uma semana os possíveis atores foram escolhidos”, conta Fred Silveira, ator veterano em musicais, com passagem pelos principais espetáculos já montados no Brasil. “Isso foi bom e ao mesmo tempo mais desafiador, pois, à medida que passávamos de fase, não havia tempo hábil para estudar uma música ou textos novos. Consequentemente, dormimos pouco. Passamos as madrugadas estudando.”

“O desafio era justamente descobrir o conceito do espetáculo”, comenta Uwe Petersen. “Cada ator vinha com o seu próprio, mas só quando cada um se despia desses conceitos próprios, quando as máscaras iam caindo, é que podíamos realmente observar o potencial de cada um.”

Por causa disso, as audições foram longas - o trio de criadores estrangeiros chegava a ficar 12 horas por dia debruçado no trabalho de seleção. Isso porque eles decidiram vasculhar, em cada candidato, seu potencial. “Foi um cuidado carinhoso, com cada candidato recebendo um apoio, uma dica, para melhorar seu desempenho”, comenta Almali Zraik, responsável pela produção brasileira. “Não foi uma seleção habitual, de candidato contra candidato - os criativos estrangeiros preferiram estimular cada a um a apresentar suas melhores qualidades.”

De fato, o trio se espalhou em salas, nas quais aconteciam os testes. No espaço grande, o coreógrafo Philip Comley praticava, com boa parte dos candidatos, alguns passos do musical. “O corpo de bailarinos precisa dançar com muito empenho”, observou Tiago Barbosa, que participou do teste durante a visita do Estado ao local da audição, o Espaço 10x21, onde tradicionalmente as produções de musicais iniciam seu trabalho.

Em outra sala, menor, o próprio Petersen dirigia a prova de interpretação, essa mais delicada. A reportagem acompanhou o momento em que Alírio Netto, cuja interpretação como Judas em Jesus Cristo Superstar foi estupenda, encenava um momento de rebeldia de Galileo - quando ele questiona o fato de tudo ser comandado por regras, esboçando uma luta em defesa da liberdade de pensamento. A voz de Alírio, especialmente os agudos, se encaixa perfeitamente no papel.

“O WWRY é um espetáculo que exige muito vocalmente, rock da melhor qualidade. Freddie Mercury era um dos melhores senão o melhor frontman da sua época”, comenta Fred Silveira. Segundo ele, as audições tornaram-se muito mais competitivas, no Brasil. “Lembro que, há 10 anos, não havia tantos concorrentes como agora, e ouvir os candidatos cantando na sala de espera é incrível”, afirma. “O nível vocal subiu muito, pessoalmente tenho orgulho de fazer parte desse momento. Acho que a exigência maior foi que a velocidade com que as audições aconteceram tornou tudo mais desafiador. O número de candidatos parece que dobra a cada musical, portanto a possibilidade de esperar horas até ser ouvido é bem concreta.”

O elenco definitivo dos 27 atores que participarão de We Will Rock You será revelado até o final desta semana, assim com a banda de 8 músicos. 

Amado musical

O próximo espetáculo produzido por Almali Zraik será uma versão musicada de ‘Gabriela Cravo e Canela’. A direção e adaptação será de João Falcão, que fará a escolha do elenco em janeiro. A estreia está prevista para abril.

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