RONALDO GUTIERREZ/DIVULGAÇÃO
RONALDO GUTIERREZ/DIVULGAÇÃO

'Esplêndidos' trata das questões de identidade e amizade

Dirigida por Eduardo Tolentino, peça estreia no teatro Aliança Francesa

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

20 de maio de 2015 | 03h00

No sétimo andar de um hotel de luxo em Paris, um grupo de bandidos espera encurralado a ação da polícia – eles sequestraram e mataram a filha de um milionário, mas o fato ainda é desconhecido, o que garante, por enquanto, sua segurança. Junto a esses sete malfeitores está um policial que, embora também feito refém, aos poucos, revela sua simpatia em fazer parte do grupo.

Com esse ponto de partida, o dramaturgo francês Jean Genet escreveu em 1948 a peça Esplêndidos, misto de realismo e estilização perversa do real, que estreia na sexta-feira, no teatro da Aliança Francesa, sob a direção de Eduardo Tolentino de Araújo. “Logo depois de lançado o texto, Genet, por algum motivo, proibiu qualquer montagem, e isso perdurou até 1993, quando finalmente foi encenado na Alemanha”, conta o diretor. “Assim, ao contrário de outros trabalhos de Genet, como As Criadas, não se tem muita referência sobre Esplêndidos.”

Mas, ao contrário de representar um empecilho, essa escassez tornou-se inspiradora. Ao tratar dos oito homens unidos pela circunstância do crime, Tolentino partiu de estudos sobre a homossocialidade, ou seja, que analisam um espaço dominado por homens e por sentimentos de misoginia e homofobia, para construir sua encenação. “Ali, predomina um jogo masculino, marcado por disputas, associações, afinidades, homoerotização. É como um time de futebol, que não permite interferência externa para regular seu funcionamento.”

De fato, na iminência de uma ação policial, Scott, Jean, Riton, Rajada, Bravo, Bob, Pierrot e um guarda que misteriosamente se junta ao grupo fazem da situação-limite o palco para o teste das relações de poder e troca de papéis. Unidos por provocações mútuas e simulações do desejo, eles vivem o pesadelo (ou sonho) de fantasias e jogos de atuação que revelam características até então segredadas.

Eles vivem a fatalidade de serem gângsteres conhecidos o que os impede de colocarem a possibilidade de se renderem. São personagens que, por não terem nada a perder e tudo perdido, vivem o auge da sua ação. “É muito importante a presença da mídia que, na peça, é representada por um rádio, por onde eles escutam as versões divulgadas do lado de fora do edifício”, comenta Tolentino. “No palco, Genet desmonta o glamour da bandidagem.”

É significativo o papel do policial no meio do grupo: apesar de representante da lei, ele não esconde sua simpatia pelo crime, meio no qual convive diariamente, a ponto de tomar certas atitudes dignas de um bandido. “Ele cometeu tantos crimes para proteger os burgueses que acaba se identificando com o grupo, criando uma relação de amor e ódio.”

Cientes de que o tempo livre que lhes resta é curto, os bandidos se sentem à vontade para revelar quem são, despidos do papel que a cada instante inventam, e também para inverter regras, como se travestir de autoridade, alterar o nome e até roubar o papel do outro.

“Vivo Bravo, o maior representante da homossociabilidade na peça”, comenta o ator Julio Mancini. “Junto com Bob, compõe o lado fraco e, ao mesmo tempo, destrutivo do bando. É uma espécie de dissidência, mas sem grandes engajamentos. As atitudes do Bravo são motivadas pela carência de afeto, pela profunda admiração por Riton e pela repulsa de qualquer aspecto relacionado ao feminino.”

A troca de papéis, portanto, é um sinal de liberdade, como observa Michel Waisman, que interpreta Pierrot. “Na minha opinião, é um dos personagens alegóricos do espetáculo”, diz. “Ao ‘recriar’ seu irmão, abatido pela polícia, ele desestabiliza ainda mais a frágil estrutura que ainda mantém o grupo. É a morte que está entre eles, e é também a culpa pela morte de ‘um dos nossos’. Ele está completamente abalado com a perda do irmão, que era seu ídolo.”

Para ele, “o universo retratado em Esplêndidos é ungido nas tensões, tanto nas óbvias entre ‘polícia e ladrão’ como nas tensões (até sexuais) entre esses homens. Tudo isso faz parte do espetáculo, mas sua poesia acontece na alta carga simbólica que a peça contém. Para mim, o que há de mais genetiano é a catarse através da simbologia.”

Como há poucas referências desse texto (no Brasil, houve apenas uma montagem, em 2001, com direção de Daniel Herz), alguns atores buscam outras referências de Genet para construir seus personagens. Foi o que fez André Luiz Rossi para interpretar Rajada. “Ele é um líder deposto, um cara descontrolado. Precisei ‘importar’ qualidades descritas por Genet de outros criminosos da sua obra, e emprestar algumas dessas características ao Rajada. Assim, pesquisei em Nossa Senhora das Flores, Querelle e O Diário de um Ladrão.”

Como se vê em cena, a traição é quase sempre inevitável e a fidelidade, um valor volátil em um mundo em constante mudança. “Ali, policiais e bandidos, mesmo em conflito, continuam abaixo na esfera social, algo comum nos textos de Genet”, observa Tolentino.

ESPLÊNDIDOS

Teatro Aliança Francesa. Rua General Jardim, 182, Vila Buarque, 3017-5699. Estreia sexta, 22. 5ª a sáb., 20h30; dom., 19h. R$ 20. Até 12/7.

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