Dalton Valério
Dalton Valério

Espetáculo ‘Uma Loira na Lua’ recria histórias que consagraram grandes comediantes

Nomes como Dercy, Nair Bello e Lucille Ball são lembrados por Alexandra Richter na peça que entra em cartaz no Opus Frei Caneca

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

05 de agosto de 2022 | 05h00

Em 2004, a atriz carioca Alexandra Richter era um nome desconhecido da televisão e estreou no Teatro Cândido Mendes, no Rio de Janeiro, o solo Uma Loira na Lua. A peça, escrita por Ana Paula Botelho e Marcelo Moratto, dirigida por Luiz Antônio Rocha, trazia a comediante em cinco esquetes e gerou certo burburinho nos oito meses em que ficou em cartaz. 

“A gente não teve dinheiro para manter a produção por mais tempo, mas nessa temporada recebi o convite para o elenco do programa Zorra Total”, conta a artista - que, contratada da Globo, marcaria presença, na década seguinte, nas novelas Passione, Boogie Oogie e A Regra do Jogo, entre outras.

O projeto de apresentar Uma Loira na Lua a um público mais amplo começou a rondar a cabeça da comediante meses antes da pandemia, no final de 2019. Com o confinamento, porém, Alexandra voltou as atenções para sua casa e até aprendeu a cozinhar para tornar menos pesada a quarentena junto do marido, o cientista Ronaldo Braga, e da filha, a estudante de medicina Maria Gabriela. “Eu me senti como uma maratonista que pode vencer a prova que for, mas, na próxima vez, precisa começar do zero. E esse pensamento se estendeu à minha trajetória profissional”, diz. 

Repaginado pelo mesmo diretor Luiz Antônio Rocha, o espetáculo que estreia nesta sexta, 5, no Teatro Opus Frei Caneca, no entanto, passou por adaptações, tendo em vista que algumas passagens soariam inadequadas depois da desolação causada pela pandemia. “Eu abro mão da piada tranquilamente para não perder o amigo, porque quero diversão e leveza para as pessoas”, justifica a atriz. 

Um dos cinco esquetes de Uma Loira na Lua traz a personagem Marly de Bangu, uma empresária picareta que defende como saída para todos os problemas da Terra a mudança das pessoas para a Lua. No original, Marly comercializava planos funerários e até um caixão era visto no palco. “Não teria cabimento contar essa história desse jeito hoje”, reconhece. Outro tipo que caiu foi a guia turística que usava um colete à prova de balas e aterrorizava os viajantes da excursão com a violência do Rio de Janeiro. Em seu lugar, entrou um quadro sobre uma fã do cantor Roberto Carlos que naufraga em uma ilha deserta em meio a toneladas de lixo. 

Inspiração

Mas a essência de Uma Loira na Lua é apoiada em uma atriz que se desdobra em diferentes situações e homenageia comediantes inspiradoras, como Dercy Gonçalves, Nair Bello, Berta Loran, Marina Miranda e a americana Lucille Ball. Em uma das histórias, a personagem protagoniza um telegrama animado fantasiada de Mulher-Maravilha - e, em outra, vai gravar um comercial de xarope e exagera na dose do remédio. É a terceira, porém, que mais se aproxima de Alexandra. Trata-se de uma humorista, cansada dos mesmos papéis no teatro infantil, que se candidata a uma montagem da tragédia grega Medeia e, mesmo reprovada no teste, não desiste. “Assim, como ela, eu interpretei galinha, garça e todas as penosas possíveis em peças infantis e chega uma hora em que a gente quer mudar de história de qualquer jeito”, relembra Alexandra.

Por falar em mudança, Alexandra, que tem 55 anos, faz parte de uma geração que rompeu com o domínio do protagonismo masculino na comédia brasileira. Com exceção de Dercy Gonçalves, grandes atrizes do passado precisaram se contentar em fazer escada para nomes como Chico Anysio, Jô Soares ou Ronald Golias. Ingrid Guimarães, Heloísa Périssé e Mônica Martelli, entre outras, são artistas que despontaram junto de Alexandra com uma proposta de autonomia de carreira. 

“A nossa geração entendeu que para conquistar espaço precisaria ir à luta e, por isso, produzimos os nossos projetos”, diz ela. Em 2019, a atriz não teve o contrato renovado pela Globo - o que não a impediu de voltar à emissora em Além da Ilusão, a atual novela das seis, que sai do ar no dia 19. "Mudanças implicam instabilidade, mas também nos deixam livres para o teatro e nos fazem lembrar de que nosso trabalho é de formiguinha."

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