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Espetáculo sintetiza o trabalho contundente do escritor romeno Matéi Visniec

Grupo Os Barulhentos surpreende com montagem da peça ‘Aqui Estamos com Milhares de Cães Vindos do Mar’

Jefferson Del Rios, Especial para O Estado de S. Paulo

11 de junho de 2015 | 05h00

A cena inicial de Aqui Estamos com Milhares de Cães Vindos do Mar, de Matéi Visniec, conquista o espectador. Nela, um bom diretor mostra o que pretende dizer com sua obra. É o que faz Rodrigo Spina à frente do grupo Os Barulhentos. Figuras trajando preto e outras cores escuras, manchados de fuligem, rostos pintados de branco carregado, como máscaras, debaixo de uma luz crua.

Museu de cera de um universo arruinado, morto e distante. Tudo o que este aglomerado humano diz a seguir faz referência a situações individuais e coletivas ligadas à guerra, ao abandono, a perdas afetivas e ao risco nas fronteiras. Matéi Visniec embora relativamente jovem na perspectiva da História (nasceu em 1956) absorveu os efeitos das devastações na sua Romênia e expressa o que sabe ou presenciou diretamente numa linguagem repleta de metáforas. Elas refletem a longa provação imposta a um povo musical, de alma latina. País pequeno, cenário de invasões cruentas (romanos, mongóis, turco-otomanos).

Quando a paz do século 20 parecia possível, vieram duas guerras mundiais e a seguir a Cortina de Ferro, o stalinismo de Ana Pauker, uma das primeiras mulheres a exercer o poder com mão de ferro na Europa, ao pesadelo imposto por Nicolae Ceausescu, o que levou Visniec a se exilar na França. Em Paris, começou a revelar um teatro sobre a loucura ditatorial, em qualquer lugar, não só na sua terra. Alusões ideológicas e metáforas que o aproxima (tema, não estilo) dos romances do sérvio Danilo Kis, de Jardim, Cinzas ou do albanês Ismail Kadaré de O General do Exército Morto e, por fim, do teatro do checo Václav Havel.

O espetáculo reúne vários textos de Visniec na representação de bons intérpretes dentro de uma moldura de impacto: cenário e figurinos (Moshe Motta e Camila Fogaça), maquiagem (Domitila Gonzales) a iluminação (Lui Seixas). O que poderia resultar confuso é esclarecido graças à firmeza da direção na unidade audiovisual e coerência do fio narrativo. Nele, um general comanda soldados mortos que devem voltar a seus países.

Em seguida, os episódios se misturam, mas sempre ligados à sub-humanidade, quando pessoas solitárias ou perdidas não se entendem e franco-atiradores matam civis de qualquer idade. A violência física tem contraponto em outra, a da burocracia que impede uma mãe e seu filho de atravessarem a fronteira de regresso à casa. Não é, contudo, uma dramaturgia de terror. Visniec usa bastante o humor agressivo e Rodrigo Spina procurou um clima reconhecível. Estas assombrações não nascem de fábulas ou crendices.

Há um subtexto objetivo que ecoa o Oriente Médio em sangue, os miseráveis da África afogados no Mediterrâneo, os acordos de paz seguidamente rompidos e as ditaduras que se perpetuam. Este apocalipse real compõe uma marcha fúnebre com momentos de comédia grotesca.

A encenação tem o mérito de manter o realismo transfigurado em pesadelo com sentido crítico. A curiosidade é saber quais os próximos passos deste grupo talentoso. Porque o teatro parece sujeito a amnésias. Ciclicamente, estéticas e novas formas de representação predominam, depois somem. O polonês Jerzy Grotowski foi quase uma seita com seu teatro ritual de profunda introspecção. A onda seguinte trouxe o alemão Heiner Müller como um segundo Brecht. Agora, são as “novas teatralidades” (o cotidiano, a rua, a sujeira urbana, cinema e projeções dentro da representação).

Esqueceram Slawomir Mrozek (esteve no Brasil para a estreia de sua obra Tango, com Tereza Rachel e Jaime Barcelos). Não se nota interesse nos poloneses Witold Gombrowicz (e sua obra-prima Yvonne, Princesa da Borgonha) e Ignacy Witkiewicz. Todos são grandes ao sintetizarem a crise “da condição humana”, para se usar o velho clichê. São preteridos diante de modismos (um deles é quase só olhar para Londres e NY).

Rodrigo Spina caminha seguro no fio de navalha dos processos cênicos de outro polonês, Tadeusz Kantor, com seus atores parecendo marionetes ou mortos-vivos no extraordinário espetáculo A Classe Morta. Cães Vindos do Mar é brilhante. Impossível nomear os destaques no elenco. Se a função do teatro é surpreender, Os Barulhentos atingiram o alvo. 

SERVIÇO: 

AQUI ESTAMOS COM MILHARES DE CÃES VINDO DO MAR. Espaço Elevador.Rua Treze de Maio, 222. tel. 3477-7732. Sáb., 20 h; dom., 19 h. R$ 30. Até 28/6.

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