Erica Modesto/Divulgação
Erica Modesto/Divulgação

Espetáculo interativo e itinerante encerra 'Trilogia do Despejo'

'Estilhaços de Janela Fervem no Céu da Minha Boca', do Coletivo A Digna, mostra a cidade e os dilemas de seus moradores

Bruno Cavalcanti, Especial para o Estadão

24 de outubro de 2021 | 05h00

Foi graças à experiência de viver por um ano num imóvel ocupado no centro de São Paulo que o dramaturgo Victor Nóvoa intensificou sua pesquisa sobre o processo cada vez mais intenso de gentrificação nos principais bairros da cidade. Assim surgiu a Trilogia do Despejo, projeto composto por três espetáculos do Coletivo A Digna, formado por Nóvoa com as atrizes Ana Vitória Bella e Helena Cardoso.

Iniciada em 2016 com a encenação de Condomínio Nova Era, que narrava o dia a dia de uma pensão às voltas com sucessivas ameaças de despejo, a trilogia inclui ainda Entre Vãos e chega ao fim com Estilhaços de Janela Fervem no Céu da Minha Boca, espetáculo itinerante dirigido por Eliana Monteiro em que A Digna alinhava a discussão sobre o processo de gentrificação ao de precarização do trabalho.

Montado em parceria com motoristas de aplicativo e com o coletivo de bikers Señoritas Courier, Estilhaços... foge à leitura da dramaturgia convencional. “Ler esse espetáculo de uma forma dramática com personagem, começo, meio e fim é uma chave de leitura falida. O ideal é pensar o acontecimento na cidade em que ela é um personagem principal, inclusive na simultaneidade da cidade, como as coisas ocorrem rápido e como elas estão incrustadas, explicitadas e expostas”, conceitua Nóvoa.

A obra tem início quando um carro é designado a buscar o espectador em casa e, no trajeto, conversas com o motorista e uma rádio produzida pelo coletivo familiarizam a plateia com a proposta. “A gente abre espaço para o olhar do público. Não queremos marcar a cidade, mas passar por ela. Queremos que ela seja vista”, explica Ana Vitória Bella.

A partir do convite para visitar um novo empreendimento imobiliário, o público recebe vídeos que flagram um pouco da vida de moradores do novo prédio localizado na Barra Funda. É narrada desde a relação conflituosa entre uma viúva de militar e sua filha, que só se comunica através de vídeos na internet para falar sobre suas bonecas de bebê reborn, até o relacionamento falido de um casal.

“O espetáculo foi pensado antes da pandemia e, originalmente, íamos enterrar um contêiner e produzir apartamentos em que as pessoas, olhando de cima, acompanhariam as histórias, mas, com a pandemia, ficou inviável. Então a Eliane (Monteiro) veio com essa ideia de ter os aplicativos dos carros e a gente pegar o espectador em casa, de ter uma rádio que intensifica esse processo de pesquisa da relação de poder da gentrificação que também ocorre nas relações de trabalho”, narra Helena Cardoso.

Ambientado no bairro da Barra Funda, na zona oeste da cidade, o espetáculo leva a plateia a viajar por dois extremos do mesmo lugar, com uma parte ocupada por empreendimentos imobiliários de alto custo e outra formada por ocupações e comunidades.

“O espetáculo começa num ponto, que é um bairro chique, e termina na Barra Funda, num espaço de livre convivência, que é um parque cuidado pela classe A e esse pessoal entrou na parceria com a infraestrutura, além de nos ter recebido muito bem. Já no outro ponto, tivemos pouca interação. Ao fazer fotos em um parque público da região, fomos tratados de forma hostil”, revela Bella.

Cardoso complementa: “Não queriam que fizéssemos fotos lá e um segurança nos questionava o tempo todo. Era um parque público gerido de forma privada. Ou seja, na Barra Funda fomos bem-recebidos por lideranças do bairro, pelos moradores do entorno, mas no outro bairro não foi tão bom”.

Escolhidos através de chamamento público, os motoristas de aplicativo embarcaram na proposta. Conhecido por mobilizar mais de cinco mil motociclistas trabalhadores de aplicativo em ato pedindo melhores condições de trabalho e a vacinação da categoria em abril de 2021, o motorista André Mendonça entrou para o projeto com bons olhos para as possibilidades de conscientização que o coletivo propõe.

“É uma proposta nova, e eu embarquei porque ela dá voz à nossa luta. Muitos motoristas desistiram, mas outros entraram porque entendemos a importância de ter esse diálogo aberto com as pessoas. Se tiverem mais ideias assim, podem contar comigo.”

Estilhaços de Janela Fervem no Céu da Minha Boca cumpre temporada aos sábados, domingos e feriados, às 18h30, até o dia 28 de novembro. Os ingressos custam R$ 20.

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