Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Espetáculo 'Hollywood' implode os limites entre arte e mercado

Em versão para a peça de David Mamet, diretor Gustavo Paso mira no deleite do público sem se preocupar em parecer revolucionário

Maria Eugênia de Menezes/Especial parar o Estado  , O Estado de S. Paulo

26 Janeiro 2018 | 06h00

Um produtor de cinema convida a nova secretária para ir ao seu apartamento. Usa como pretexto uma questão de trabalho quando planeja, na verdade, passar a noite com a moça. O mote de Hollywood, peça em cartaz no Sesc Pinheiros, não poderia soar mais atual.

Na trama de David Mamet, as acusações de assédio que pautaram a mais recente edição do Globo de Ouro parecem ganhar corpo.

Está representada a perigosa combinação entre poder e sexo. Inclusive em seus aspectos mais controversos – já que relações dessa natureza podem contemplar diversas formas de coerção e troca de favores. 

Tal temática é, de fato, oportuna. (E particularmente curioso o fato de Kevin Spacey ter protagonizado a versão inglesa da peça). Mas Mamet, como de costume, mostra-se avesso a boas intenções. O conflito de gêneros, tão em voga, não será mais do que um dos muitos pontos de interesse para o público, que encontra nesse espetáculo dirigido por Gustavo Paso um promissor início de temporada para 2018.

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A obra da carioca Ciateatro Epigenia vem ocupar uma lacuna no cenário teatral contemporâneo: dividido entre criações alternativas, desenvolvidas por grupos de pesquisa, e peças de cunho comercial, que contam com atores televisivos como chamariz e se descuidam, muitas vezes, de questões de linguagem e direção. Grosso modo, é como se tivéssemos a arte de um lado do campo de batalha, e o entretenimento, do outro. Uma pretensa cisão, aliás, que não se restringe às artes cênicas – basta olhar para o cinema e a música. 

Em Hollywood (no original, Speed-The-Plow), Daniel Fox (Iuri Saraiva) e Tony Miller (Rubens Caribé) vislumbram a ascensão como produtores quando o grande astro de um estúdio concorrente se mostra disposto a lhes vender seu passe. Nas mãos, eles têm um fraco roteiro de ação, junção de clichês retirados de outros tantos filmes semelhantes.

Mas o surgimento de Karen (Luciana Fávero), uma assistente de aspirações humanistas, serve para refrear o plano dos executivos. Entre o simples comércio e a arte pura, onde podemos situar o que se produz hoje para as telas e os palcos? Alguém está realmente livre do que convencionamos chamar de mercado? Talvez esses limites não sejam assim tão claros. 

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A encenação se sai bem por valorizar aquilo que os atores sabem fazer de melhor – atuar – sem se importar em ser inovadora. Trata-se de um drama que não tem vergonha de ser drama. E, nessas condições, o elenco é feliz ao evitar eventuais maniqueísmos. Ali, não há inocentes, apenas homens e mulheres tentando sobreviver – ora com mais, ora com menos escrúpulos. Rubens Caribé constrói um Tony Miller tão mesquinho quanto ingênuo, capaz de se deixar seduzir pela crença no amor e na nobreza de propósitos.

Propósitos que, naturalmente, não são assim tão nobres, já que Karen não ambiciona apenas o benefício da “arte”, mas também sua projeção profissional. A suposta vítima da engrenagem está absolutamente consciente do fascínio que exerce sobre o masculino. 

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Dizer que a peça foi concebida exclusivamente para deleite da plateia poderia ser interpretado como demérito. Não é o caso. O que o espetáculo propõe, no limite, é que essa divisão entre arte e entretenimento paute a própria forma de sua dramaturgia. Seus diálogos irônicos prezam pelo entendimento e pelo prazer do espectador.

O palco não se constitui como espaço para se veicular ideias de boa índole ou convencer pessoas daquilo que elas já sabem. Sai de cena a proposta moralizante.

Trata-se da terceira incursão da companhia pelo teatro de David Mamet. Antes, vieram Oleanna e Race – ambas criações premiadas, que serão reapresentadas em São Paulo, no mesmo Sesc Pinheiros, a partir do dia 15/2. Nessas montagens, as tramas também eram espinhosas, perpassando questões raciais, de gênero e hierarquia. E as soluções dadas pelo dramaturgo igualmente perspicazes. Para o roteirista de filmes como O Sucesso a Qualquer Preço, tratar de temas importantes não é o suficiente. 

Em seus estudos teóricos, Mamet reserva ao teatro um encanto semelhante àquele que encontramos no jogo ou na caçada. Se partirmos desse ponto de vista, assistir a uma peça não é, em absoluto, uma experiência de apreensão racional de determinado assunto.

Em silêncio – ou irmanados no riso cínico – a apreciação dos espectadores tem mais a ver com o mistério, com a transcendência daquilo que recalcamos e, especialmente, com a parcela da vida que não controlamos. 

SERVIÇO

HOLLYWOOD

Sesc Pinheiros. Auditório. Rua Paes Leme, 195, tel. 3095-9400. 

5ª a sáb., às 20h30. De R$ 7,50 a R$ 25. Até 10/2. 

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