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Paula Hemsi
Paula Hemsi

Espetáculo ‘Há Dias Que Não Morro’ tenta dar luz a uma vida ordinária

O colorido desperta de um sonho embalado pela morte da Academia de Palhaços, recém-nomeada ultraVioleta_s

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

15 de outubro de 2019 | 17h17

“É assustador, mas alegre”. Foi assim que alguém da plateia definiu Há Dias Que Não Morro, quando a Academia de Palhaços fez sua estreia internacional no Antalya Theatre Fest, na Turquia. A sensação provocada pelo grupo não é nova. 

Celebrado, o espetáculo anterior, Adeus Palhaços Mortos (2016), perseguiu um caminho estético semelhante. Três palhaços velhos do texto de Matéi Visniec ficavam confinados numa torrente de luzes, restando a eles desabafar sobre a crueldade da vida e do ofício artístico, em uma brilhante e barulhenta repetição, manipulada pelo coletivo Bijari.

Esses arroubos de consciência por parte de personagens no palco – vide as peças de Beckett, Pirandello e do próprio Visniec – se encontram, de modo interessante, com a agonia tecnológica de produções para a televisão como Black Mirror e o absoluto Além da Imaginação. De certa forma, Há Dias Que Não Morro busca iluminar a deprimida existência das personagens com fachos multicoloridos de luz. “No espetáculo anterior, percebemos que havia oportunidade de continuar, inclusive com as parcerias”, conta a atriz Laíza Dantas, que divide o palco com Paula Hemsi e Aline Olmos, estreante na companhia. 

Adornado como seres de um mundo inofensivo e agradável de viver, com o visagismo de Leopoldo Pacheco, o trio compartilha todos os momentos de uma rotina ordinária: a hora de despertar, de ouvir o som dos pássaros, observar as nuvens, o desabrochar das flores, o pôr do sol, e enfim, uma noite cada vez mais linda, e menos diferente. “A repetição também faz parte desse trabalho e a busca por uma dramaturgia que se apresente como síntese. Ao esvaziar a palavra, temos mais chances de dizer e de esconder coisas”, acrescenta a atriz.

Para o diretor José Roberto Jardim, a escolha por um discurso curto e sintético confere um tipo de ritmo à encenação e também corresponde a algo mais universal. “A agonia presente no corpo afeta a comunicação”, diz. “Não há tempo de ficar se explicando e, quando desidratamos a palavra, o que queremos é ser ouvidos, e de maneira urgente.” 

A jornada para tatear as fronteiras desse mundo colorido artificialmente não é nada barulhenta, como foi em Adeus Palhaços Mortos. Nesse espetáculo, a caixa cênica ampliava o som de palmas entre uma cena e outra. Os microfones das personagens, com volume aumentado, ecoavam risadas intermináveis para em seguida ironizar o desconforto provocado por “espetáculos barulhentos”. 

Jardim afirma que os ruídos trazidos expressavam o pesadelo e os delírios dos palhaços. Nada bem-vindo em Há Dias Que Não Morro. “Foi preciso encontrar um apoio mais leve, mais confortável para as personagens. As luzes se tornaram mais delicadas, como é a própria transição do dia para a noite, e o som acompanhou essa imagem, como uma pintura, adicionando sons de natureza, como pássaros e insetos.” O que não mudou foi a arquitetura cênica. O cubo que abriga o elenco no palco é o mesmo. Desta vez, segue em posição invertida, de frente para a plateia. 

Nessa mesma experiência de transformação – com aquilo que se tem às mãos –, o grupo anunciou que vai mudar de nome. Na segunda-feira, 14, a companhia publicou em suas redes o que a atriz Laíza já havia explicado à reportagem. “O desejo por trazer uma voz nossa, e das mulheres envolvidas na criação, aumentou.” Recém-batizada de ultraVioleta_s, há uma explicação poética: o invisível à flor da pele. Ao fim da temporada no Sesc Pompeia, o grupo com novo nome segue para o Galpão do Folias, em Santa Cecília (centro), de 2 de novembro a 2 de dezembro.

Serviço. HÁ DIAS QUE NÃO MORRO SESC POMPEIA. R. CLELIA, 93. TEL: 3871-7700. 5ª, 6ª, SÁB., 21H30, DOM., 18H30.  

R$ 30 / R$ 15. ATÉ 27/10

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