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Espetáculo 'Fílon - O Teatro do Mundo' traz distopias para uma vida sem ensaios

HQ portuguesa sobre cidade fictícia em estado de vigilância inspira peça híbrida de som e movimento

Leandro Nunes , O Estado de S. Paulo

03 de novembro de 2016 | 03h00

Se você morasse em Fílon - O Teatro do Mundo, seus problemas sempre estariam resolvidos. Diante de qualquer dúvida que surgisse no dia a dia, haveria alguém para te dizer o que fazer. Os responsáveis por isso são chamados de pontos, um grupo de pessoas que mora no subterrâneo da cidade. Esses sujeitos, que ninguém sabe quem são, se comunicam com os moradores por meio de alto-falantes que brotam do solo até a superfície. Seria como um Google, onipresente e vitalício. 

Todo esse universo inspirou o espetáculo homônimo que estreia nessa quinta, 3, no estúdiofitacrepeSP, com concepção de Kenia Dias e Ricardo Garcia. O ponto de partida para a criação da montagem foi a HQ dos artistas portugueses José Carlos Fernandes e Luís Henriques que retrata a cidade e seu clima aparentemente insuspeito de segurança. Um dia tudo muda, quando os misteriosos pontos abandonam Fílon. “Existe uma estrutura muito interessante nas ilustrações e no que está sendo contado. Além de um bom humor sombrio”, explica a atriz e diretora. “No início, não há nada capaz de atrapalhar a vida desses moradores. Toda ajuda surge de maneira imediata, sugerindo o que eles devem fazer. Em torno disso se relacionam temas de controle e manipulação.” 

A discussão foi para o palco em forma de movimento e som, parte da pesquisa conduzida pela dupla de artistas que busca construir uma dramaturgia c com foco no corpo e em sonoridades. Isso levou Garcia a criar instrumentos especialmente para a montagem. “São diversos caminhos que podem partir de uma provocação sonora e de como o corpo vai se relacionar com isso. Por outro lado, há movimentos que demandam a criação de ruídos específicos”, explica o artista que concebeu um jogo com duas molas paralelas sob as quais desliza um arco, e um conjunto de madeira com um captador de som acoplado que reverbera tinidos produzidos por um recipiente de metal. 

No palco, Kenia explica que buscou construir com os atores Allyson Amaral e Ana Paula Lopez um conjunto de movimentos que refletisse a insegurança dos moradores de Fílon após a partida dos pontos. “Pensamos em ações interrompidas, sem conclusão, como se eles não soubessem mais o que fazer em seguida.” No entanto, ela conta que o objetivo não foi narrar a história presente na HQ. “É importante pensar como uma sociedade vive sob essas condições, como os sistemas conduzem nosso comportamento”, explica a diretora. 

O hibridismo de Fílon surge mais para ampliar o sentido das coisas, do que fixar os significados. Em uma das cenas, há uma demonstração de como os números podem ser uma forma mais branda de ditadura da existência. Como códigos universais, eles podem despertar a consciência do que está ao redor mas também servem para limitar a imaginação. “Quantos sistemas políticos existem, incluindo os ilegítimos?”, questiona Kenia. Amaral inicia uma contagem. “Quantos sistemas de fuga existem? Quantas esquerdas, quantas direitas existem?”

Em outro instante, os atores transformam o emblemático discurso de Ulysses Guimarães na Assembleia Nacional Constituinte, proferido em 1988, em uma verdadeira Torre Babel. “Algumas palavras-chave são pronunciadas em português e o restante misturado em outros idiomas”, conta Kenia que ao lado de Garcia mantém parcerias com artistas de Minas Gerais, como o trabalho concretizado em Vaga Carne, com Grace Passô, que estreou nesse ano no Festival de Curitiba. 

Além do espetáculo, o ateliê que já completou dois anos em 2016 mantém uma programação de música experimental pela qual já passaram artistas de pelo menos 10 países. Em julho desse ano, o espaço sediou o Festival Bigorna de música instrumental experimental.

FÍLON - O TEATRO DO MUNDO

estúdiofitacrepeSP. Rua da Consolação, 2582. Sala 12. 5ª, 6ª, sáb., dom., 20h. Até 13/11. R$ 20 / R$ 10. 

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