GABRIELA BILO | ESTADAO CONTEUDO
GABRIELA BILO | ESTADAO CONTEUDO

Espetáculo 'EntreVãos' traça narrativas pelo asfalto de São Paulo

Digna Companhia compõe peça itinerante sobre moradores do Treme-Treme

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2016 | 04h00

“Tantas vezes eu quis ficar solto.” Da rua pode-se ouvir uma canção. “Como se fosse uma lua a brincar no teu rosto.” Uma senhora colocou um disco em sua vitrola e canta. “Cuida bem de mim, então misture tudo dentro de nós.” Sentada no sofá, ela relembra a história de seu lar e seu trabalho como anjo de corredor – iluminar com lanternas as áreas comuns do extinto edifício São Vito, o famoso Treme-Treme. A simpática senhora e mais duas figuras traçam suas narrativas pelo asfalto da cidade no espetáculo EntreVãos, da Digna Companhia.

A montagem oferece ao público a oportunidade de escolher qual trajetória quer acompanhar: a de uma vendedora de paletas mexicanas, de um livreiro ou da senhora anjo de corredor. As três tramas são realizadas simultaneamente nos arredores das estações Anhangabaú e Marechal Deodoro. A compra do ingresso pode ser feita no site da companhia que envia o endereço inicial. “Eles têm profissões que, junto com o São Vito, também estão se extinguindo”, conta o dramaturgo Victor Nóvoa.

O prédio de arquitetura modernista foi construído entre 1955 e 1959 como opção de moradia popular. Na planta original, o edifício localizado na Avenida do Estado tinha 624 apartamentos e chegou a abrigar mais de 3.000 pessoas. Considerado, então, o maior cortiço vertical da cidade, o ‘Balança mas não cai’ recebia a polícia com botijões de gás lançados pelas janelas dos apartamentos. Furtos entre vizinhos e arrombamentos eram ocorrências comuns. “O que é mais curioso é que os custos para demolição eram maiores que os da revitalização”, aponta Nóvoa.

De olho na poesia que brota do concreto bruto, a companhia quis narrar histórias íntimas de pessoas imersas na selva de pedra. Na última montagem do grupo – Condomínio Nova Era –, a Digna explorou relatos de moradores de uma pensão fictícia, que estavam prestes a serem despejados. “A cidade é como um organismo, que se movimenta e acaba por deslocar e excluir antigos moradores para construção de empreendimentos imobiliários mais lucrativos”, diz Nóvoa.

Em EntreVãos, a conexão com a cidade se dá também pelas estações do metrô. O diretor Luiz Fernando Marques explica que era preciso ancorar as personagens no dia a dia da metrópole. “São histórias que se cruzam entre si e, claro, com o próprio espaço urbano.” No trajeto conduzido pela anjo de corredor, na região da Barra Funda, o público se depara com o passado, os antigos comércios sendo assombrados pelo fantasma do tempo presente.

A atriz Helena Cardoso explica que a canção que a mulher põe no toca-discos surge para tentar frear a pressa do cotidiano. “Ela vive em um outro tempo, sem pressa de contar suas histórias.” O que não dura muito, porque logo sua casa recebe a visita de uma mulher moderna. Vivida pela atriz Ana Vitória Bella, a personagem representa a própria cidade. “Ela nasceu e foi criada na cidade grande, no ritmo de uma São Paulo que não para.” Com brutalidade, a mulher interfere, pessoalmente, em cada uma das cenas da peça. Para conseguir essa proeza, a atriz conta que percorre os três endereços em que são realizadas as cenas montada na garupa de uma moto. “A personagem me põe nesse ritmo frenético do dia a dia.” Na cena da senhora, a mulher interpreta a sobrinha violenta. Já com a vendedora de paletas, que está grávida, a mulher surge para negociar a compra do bebê.

O diretor conta que a dramaturgia de Nóvoa foi pensada para dar força ao relato das personagens, o que sugere um certo hiper-realismo, ele define. As figuras abrem seus recintos para estabelecer uma relação de proximidade com o público. “Estruturamos o texto de maneira que o personagem possa conversar livremente com a plateia”, conta Marques. Helena acrescenta que a dramaturgia foi subdividida em blocos temáticos – ter ou não ter filhos, gostos musicais ou livros que já leu – e que os atores precisam percorrer esses assuntos em sua cena. A senhora pergunta para alguém do público: “Você gosta de Roberto Carlos?” E, de acordo com a resposta, prossegue com o texto presente na dramaturgia. “É um grande desafio como atriz”, diz. “Eu preciso estar 100% atenta à reação da plateia. Pensando assim, não dá para definir as pessoas apenas como plateia. Elas participam dessa experiência”, adianta. Para o diretor, essa organização concede ares de cinema à montagem. “Os olhos de cada um são como câmeras. Você pode observar a personagem e a cidade que se move ao redor.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.