Leekyung Kim
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Espetáculo de Laerte Késsimos simula diálogo com o artista cearense Leonilson

Por meio de um gravador, o ator encena uma conversa com o pintor falecido na década de 1990; espetáculo está em cartaz no Teatro da USP

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

14 de novembro de 2019 | 07h00

Fernando Collor e o Muro de Berlim. A voz calma de José Leonilson, com ruído característico das fitas cassete, ficou para a história como um relato íntimo de um artista inquieto no mundo. Antes de estrear o solo Ser José Leonilson, que entra em cartaz no Teatro da USP nesta quinta, 14, o ator Laerte Késsimos empreendeu um diário semelhante: gravou suas impressões, memórias de infância e evocou a presença do artista cearense, como se estivesse conversando com um amigo pessoal.

Morto em 1993, após descobrir-se portador do HIV anos antes, Leonilson exportou sua subjetividade para o mundo em telas bordadas, pinturas e ilustrações. No documentário A Paixão de JL, de Carlos Nader, o artista comentava a transformação política brasileira, relatava sua opinião sobre os filmes que assistiu e confessava a falta que lhe fazia ter um namorado. 

Nesse caminho, Laerte estreia seu solo e consegue depurar os ânimos políticos ao citar os incêndios recentes na Amazônia. Também há espaço para comentar a destruição deixada em Minas Gerais, pela ação das mineradoras. “Eu segui a mesma linha deixada por ele, de um artista que continuou atento.” Parte das belas imagens captadas, e transmitidas em cena, é de uma região próxima a Governador Valadares, terra natal do ator. “Foi a minha vez de trazer imagens da infância, de onde eu pescava com meu pai”, conta. 

Parceiro de diversas produções teatrais na capital, na criação de projeções visuais, tantas delas bem-sucedidas, Laerte conjuga algumas obras deixadas por Leonilson e segue traçando suas próprias memórias. Cabe também ironias ao estilo Leonilson. Em uma cena, Laerte narra ao público qual foi sua primeira ideia ao encenar o projeto. “Imaginei que letras bem grandes surgiam, com o nome de José Leonilson.” E as palavras surgem numa projeção atrás dele. “Depois desapareciam lentamente.” E o que ele diz ocorre. 

Com boas experiências visuais em peças como Sit Down Drama (2014) e os fantasmas da recente Inventário (2019), protagonizada por Erica Montanheiro, o ator se cercou da dramaturgia de Leonardo Moreira e da direção de Aura Cunha. “Como se tratava de um projeto antigo, algo com quase dez anos, precisei reunir o que queria dizer sobre ele”, conta o ator. “Quando olhamos, parece que tudo é importante, e na hora de encenar coube fazer escolhas.”

A concepção da peça – Késsimos insiste em não defini-la como performativa (“é uma autoficção”) – começa antes do palco, com o ator replicando algumas obras do cearense. “Fiquei um tempo recriando, usando os mesmos materiais, na busca de colocar esse cotidiano em uma discussão mais pública.” 

O resultado dessa etapa também fica em cartaz no TUSP, na exposição Como se Desenha Um Coração? Em El Puerto (1992), por exemplo, Leonilson já vivia sob o diagnóstico do HIV, o que mudou o tom de sua criação. No espelhinho popular com moldura laranja, ele recobriu sua superfície com retalhos de uma camisa e informações sobre seu nome, idade e peso. “Há algo forte sobre identidade e sua convivência com a doença”, diz. Em O Perigoso (1992), uma série de sete desenhos, ele deposita uma gota de sangue. 

 

Exposição presta tributo ao pintor e a Antonio Dias

Aberta na segunda-feira, na Pinakotheke São Paulo, a mostra Leonilson – Perfil de uma Coleção reúne 38 obras produzidas por Leonilson nos anos 1980 e que pertencem à coleção de outro grande pintor, o paraibano Antonio Dias (1944-2018), seu amigo e primeiro incentivador. Essa amizade começou em 1981, na Itália, segundo o marchand Max Perlingeiro, que assina um dos textos do livro lançado em tributo a Leonilson (1957-1993). A exposição traz também cartas e fotografias dos dois artistas e quatro outras obras pertencentes a outras coleções. 

(Antonio Gonçalves Filho)


SERVIÇO

SER JOSÉ LEONILSON

TUSP – CENTRO UNIVERSITÁRIO MARIA ANTÔNIA

RUA MARIA ANTÔNIA, 294. 

TEL.: 3123-5233. 5ª A SÁB., 20H. DOM., 18H. R$ 20. ATÉ 15/12

 

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