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Espetáculo 'Constelações' põe em relevo a física do amor

Peça cativa ao olhar para histórias amorosas do ponto de vista da ciência, mas esbarra em atuações desencontradas

Maria Eugênia de Menezes, ESPECIAL PARA O ESTADO

15 Março 2017 | 19h55

Cada encontro é resultado de infinitas (e inconscientes) escolhas. Se, naquele dia, o seu pai escolhesse virar à direita e não à esquerda, se não houvesse entrado naquele ônibus ou se tivesse sido outra a primeira palavra dita a sua mãe, você poderia simplesmente não existir. Cada mínima decisão ou acaso nos leva a um desfecho específico, que seria completamente diferente se tudo não tivesse sido exatamente como foi.

 

Constelações, peça do britânico Nick Payne que cumpre temporada no Sesc Santana, implode esse jogo de acasos que envolve os relacionamentos amorosos. De posse de pressupostos da física quântica, o dramaturgo convida a vislumbrar a mais simples e trivial das histórias - um homem conhece uma mulher - de um lugar diferente. E se não houvesse um único mundo, mas vários, em que coexistimos?

“No universo quântico, cada escolha, cada decisão que você tomou - ou nunca tomou - existe em um conjunto inimaginavelmente vasto de universos paralelos”, diz a física Marianne, interpretada nessa versão brasileira por Marília Gabriela, ao apicultor Roland, papel de Caco Ciocler (substituído, ocasionalmente, por Sergio Mastropasqua). Eles se conhecem em um churrasco na casa de amigos. É nessa despretensiosa cena inicial que o autor explicita para o público as cartas que está a jogar, como em uma paisagem cubista que pudesse ser vista de vários ângulos ao mesmo tempo. Em um dos diálogos, Roland já é casado e a história morre antes de começar. No seguinte, eles começam a conversar. E, daí por diante, essa conversa pode ganhar contornos insuspeitos. 

Não existem mais do que quatro ou cinco cenas no espetáculo, que vão se repetindo em combinações e posições variadas. A cada nova combinação, um diálogo pode ter outros significados e levar a novos lugares. Os intérpretes mudam as inflexões a cada repetição, as ênfases se alteram, uma única palavra pode vir antes ou depois e fazer tudo parecer diferente.

Apesar do embasamento algo hermético - que envolve a teoria das cordas, o conceito de multiuniversos e o comportamento das partículas em um nível subatômico - Constelações foi um sucesso imediato, cativando as plateias desde sua estreia em Londres, em uma sala pequenina do Royal Court, em 2012. A acolhida calorosa levou a peça para o West End e ensejou uma nova montagem na Broadway, em 2015, com Jake Gyllenhaal e Ruth Wilson (da série The Affair) como protagonistas.

Com direção de Ulysses Cruz, a versão brasileira guarda, em linhas gerais, semelhança com as encenações inglesa e americana. Assim como elas, opta por um cenário não realista, abstrato o suficiente para acolher a trama que muda de rumo a cada passo dos amantes. A escolha soa coerente, mas a realização tem seus tropeços, que aparecem tanto no manejo atrapalhado do tablado onde caminham os atores, quanto na sonoplastia, tomada por ruídos que nitidamente não constavam da proposta. 

Trata-se de um texto ligeiro, com cerca de 70 minutos. A atuação de Marília Gabriela, portanto, não precisaria soar afobada ou apressada, como aparenta em vários momentos. Com tão poucos elementos - uma sinopse simples e apenas dois personagens - a obra exige uma qualidade de presença em cena e um controle do tempo que não se concretizam completamente. Escapa, dessa forma, o humor inerente a Marianne (muito mais evidente quando se lê o texto). Também parece bastante rarefeito o deslumbre amoroso entre os protagonistas. 

Caco Ciocler se sai melhor como o apicultor apaixonado que precisa mudar de pele constantemente. Em um dos “universos” em questão, ele propõe casamento e é aceito. No outro, é desprezado. Ele pode trair em um momento. E ser aquele que é traído em outro. Há emoções diferentes a aflorar em cada cena e o seu controle dessas oscilações é mais preciso. Mas sua interpretação esbarra, mesmo que involuntariamente, na falta de entrosamento com a sua parceira de cena. Como se dois instrumentistas tocassem juntos um concerto sem conseguir harmonizar seus ritmos e tempos. São arestas que não minam o encanto do texto nem o interesse da montagem, mas que poderiam ser enormemente reduzidas por uma mais afinada direção de atores. 

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