Ioulex/NYT
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'Eschaton' é misto de teatro imersivo com simulador da vida noturna

Espetáculo foi adaptado em poucas semanas para substituir a estreia nos palcos por uma experiência online

Darryn King, The New York Times

12 de junho de 2020 | 14h10

Em um sábado recente, participei com algumas centenas de pessoas de uma noitada selvagem em uma casa noturna particularmente escandalosa. Cada sala continha algo diferente e inesperado. Em uma delas, uma garota tocava viola e contava piadas chulas; na sala ao lado, um rato gigante fazia strip-tease ao som de uma palestra a respeito do taoismo. Havia uma aula de culinária, um mágico fazendo truques com cartas, uma artista burlesca se contorcendo em um divã.

Tratava-se de Eschaton: parte teatro, parte simulador da vida noturna, parte Chatroulette, que ocorre nas noites de sábado no Zoom. Temos a ilusão de estar em um labirinto de salas interconectadas, ainda que cada um dos apresentadores esteja transmitindo ao vivo suas contribuições díspares e habitualmente individuais a partir de suas casas.

Sintonizando remotamente, os membros do público são incentivados a vestirem suas melhores roupas, diminuir a luz e preparar um drinque (cumpri alegremente duas dessas três recomendações). Pode-se manter a câmera ligada ou desligada, mas permitir que os outros nos vejam parece mais condizente com a atmosfera de voyeurismo cafona do espetáculo. Durante uma hora, podemos interagir com os artistas, tentar montar o quebra-cabeça de uma história e desvendar uma história de detetive, para quem conseguir encontrar a primeira ponta da trama. Pode-se também caminhar à vontade entre as salas virtuais, curtindo o lado surreal desse espetáculo de variedades.

A ex-atriz Brittany Blum e a autora de ficção Tessa Whitehead criaram Eschaton como uma experiência de imersão no mundo real, na época em que o teatro era uma atividade presencial, e não uma transmissão na internet – uma história de mistério que se desenrola no estilo das populares peças de teatro imersivo Sleep No More ou Then She Fell.

No início de março, o espetáculo já estava em desenvolvimento há sete meses. Tessa tinha escrito cinco roteiros que se misturavam, Brittany investigava imóveis onde pudessem montar a apresentação e o elenco estava ansioso para começar, pronto para interpretar os habitantes torturados de uma casa noturna-purgatório. O título, Eschaton, termo teológico para o fim do mundo, se encaixa no tema mais amplo: a necessidade existencial do performer em relação ao público e a precariedade de uma vida sob os holofotes.

Então, a pandemia chegou como um lembrete muito real dessa precariedade.

“Tivemos que cancelar nosso primeiro ensaio de texto e, durante uma semana, enquanto assistíamos ao fechamento de Sleep No More e da Broadway toda, não sabíamos ao certo se o teatro de imersão seguiria existindo”, disse Tessa. “Mesmo que sobrevivesse, como seria sua aparência?”

Mas, depois de duas semanas, enquanto a equipe de criação passava a quarentena em litorais diferentes (Tessa estava no Brooklyn, em Nova York; Brittany estava em São Francisco), elas começaram a imaginar como seria uma versão virtual do espetáculo. Seria possível traduzir o espírito do teatro de imersão – forma que deriva parte de sua força da sensação de proximidade sem fronteiras entre elenco e público – para os limites estreitos de uma tela de computador?

Adaptação em tempos de isolamento social

“Durante a quarentena, nos pareceu que o público precisava de algum tipo de entretenimento, um mundo em que pudessem se perder e escapar da realidade em que estão”, afirmou Brittany. “Nós simplesmente encontramos o público onde ele estava: online.”

Elas recrutaram Taylor Myers, de Sleep No More, como diretor, e também o estúdio de tecnologia Benbenben, que tem ajudado diferentes empresas na transição para os espaços virtuais. Elas criaram um saguão digital – na verdade, um site protegido por senha que só pode ser acessado por quem compra o ingresso – e se inspiraram em fontes diferentes, como os videogames, os jogos de realidade virtual e os desafios do tipo jogos de escape online. “Não tínhamos ideia de quanto tempo a quarentena duraria”, disse Tessa, “então demos a nós mesmas o prazo de duas semanas para ter algo a apresentar”.

O orçamento que seria destinado ao aluguel do espaço foi investido no recrutamento e remuneração do maior número possível de performers diferentes. O elenco aumentou de cinco para 26 pessoas, aproveitando muitos talentos de Sleep No More e Then She Fell. Por motivos óbvios, os performers precisam cuidar do próprio figurino, iluminação, cenário, objetos de cena, maquiagem, direção musical e fotografia.

“Criar um palco para si pode ser uma experiência solitária", indicou Mallory Gracenin, cujo trabalho fez sucesso entre os fãs de Sleep No More. Ela participa de Eschaton como uma das apresentadoras. “Mas, durante algum tempo, não acreditei que poderia trabalhar como artista. Fico muito feliz de poder fazer isso toda semana.”

O mundo de Eschaton continua a se transformar e a crescer a cada semana. É grande o bastante a ponto de ficarmos totalmente perdidos dentro dele, com vários cômodos formando três andares mais um porão (antes de se especializar em experiências de imersão, Jae Lee, coprodutor do espetáculo e criador de seus jogos, estudou e trabalhou com arquitetura). Um diretor de cena e uma equipe de assistentes ficam nos bastidores, oferecendo suporte técnico e conduzindo os convidados na direção de segredos e surpresas.

E Tessa seguiu escrevendo, costurando uma narrativa com fios cada vez mais numerosos e complexos na qual o público pode se enredar ou desemaranhar. Ao preço de US$ 10 por ingresso, as criadoras esperam que alguns visitantes se animem a voltar, entendendo a experiência como um episódio de TV. “A cada semana há mais a ser descoberto, mais camadas de drama para descascar”, disse Tessa.

Também foram oferecidos alguns prêmios únicos. Pelo menos um membro do público acabou recebendo uma pizza de verdade em casa. E ainda há mais ideias que as criadoras querem experimentar. “É como se tivéssemos descoberto por acaso um novo gênero de entretenimento ao vivo”, ressaltou Tessa.

Mallory espera que, quando os teatros reabrirem, Eschaton possa continuar – talvez nos mundos real e virtual ao mesmo tempo. Mas ela anseia pelo momento em que artistas e público poderão voltar a conviver fisicamente. “Será ótimo abraçar um colega de palco”, disse ela.

No Brasil, é possível assistir ao espetáculo pelo site bit.ly/eschaton-br. As interações são em inglês./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALI

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