Amira Hissa
Amira Hissa

Erotismo de Sade estreia com teatro de bonecos em mostra de diversidade

Grupo Pigmalião Escultura que Mexe encena ‘Filosofia na Alcova’ na Mostra Todos os Gêneros, com shows, filmes e debates sobre diversidade sexua

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2017 | 04h00

Em São Paulo, e em muitos lugares do Brasil, é comum imaginar que criança e teatro de bonecos nasceram um para o outro. Quando o grupo mineiro Pigmalião Escultura que Mexe nasceu, a vontade era romper com esse estigma e criar livremente peças para adultos, tão comuns na Europa, por exemplo. A companhia está com o espetáculo Filosofia na Alcova na programação da Mostra Todos os Gêneros, no Itaú Cultural e que vai até o dia 25.

Não é preciso dizer que a versão da obra de Marquês de Sade tem classificação etária de 18 anos. “Queríamos um texto que fosse bastante radical e chocante para uma peça com bonecos”, explica o diretor Eduardo Felix, que também constrói as marionetes de fios. 

A obra foi escrita enquanto o autor era perseguido por todos os lados – da monarquia francesa aos revolucionários de 1789 – e traz a inocente Eugênia, moça recém saída do convento e que passa a receber ensinamento libertino para descobrir o prazer no próprio corpo, com homens e mulheres. “Os bonecos têm uma aura ingênua, de que se comunicam com crianças apenas. Essa visão fica diferente na peça”, conta Felix.

Se, com os atores reais, as versões da obra para o cinema e teatro criaram cenas chocantes de orgia e estupro, os bonecos abrem novos caminhos mas também impõem um ritmo particular, explica o diretor. “Não são figuras fáceis de manipular. Caso se movam muito rapidamente, os bonecos não ficam tão reais.” A solução foi adequar a dramaturgia ao emaranhado de madeira e fios. Aos poucos, os próprios manipuladores começaram a aparecer na peça, integrando o elenco. Antes cobertos, eles passam a ficar entre gaiolas e poltronas no meio da orgia dos bonecos.

Pouco visto em São Paulo, a companhia já apresentou seu Quadro de Todos Nós Juntos também no Itaú Cultural, em 2016. A peça mostrava uma família de porco, uma mistura de atores e bonecos, para refletir casos de loucura. Diante da escolhas estéticas da companhia, o diretor afirma que existe uma certa resistência de parte dos festivais no Brasil. “Não somos convidados para mostras de teatro de bonecos, porque em geral são voltados para o público infantil. No caso dos festivais de atores, a recusa se dá porque utilizamos bonecos.”

Nada disso ocorre em países como Espanha e França, ele acrescenta, por onde as duas peças já se apresentaram. “A compreensão é distinta. Os franceses ficaram impressionados com a força das obras de Sade e seu interesse por artistas de outros países. Abrir essas fronteiras permite a circulação de espetáculos com essas experimentações”, diz Felix.

Programação. A mostra que chega à sua quarta edição, no ritmo da Parada LGBT, traz o projeto Desidentidades – Sapatão na Medida, nessa quarta, 14. A performance da artista e ativista Dani Barsoumian discute o imaginário que a sociedade mantém sobre mulheres lésbicas. 

No dia 20 e 21, o espetáculo carioca Tom na Fazenda desembarca na cidade. A peça do canadense Michel Marc Bouchard, até então inédito na América Latina, narra a dor de um rapaz que perde o namorado e da relação com o irmão, um sujeito violento e homofóbico, com Armando Babaioff e Gustavo Vaz no elenco. 

O show da artista trans Mc Linn da Quebrada estreia no dia 25. Em Bixaria Bocket Show, ela faz uma performance cênica musical sobre preconceito.

MOSTRA TODOS OS GÊNEROS. Itaú Cultural. Av. Paulista, 149. Até 25/6. Grátis. Mais informações no site: www.itaucultural.org.br 

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