JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Eriberto Leão estreia 'Jim', musical que traz os geniais passos tortos de Jim Morrison

Espetáculo mostra a influência da geração Beat e do filósofo Nietzsche no vocalista do The Doors

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2016 | 07h00

O prêmio Nobel de literatura conferido ao músico americano Bob Dylan foi particularmente festejado pelo ator Eriberto Leão. “Foi uma prova de que a poesia das canções também é especial e tem seu valor”, comenta ele que, ao comemorar a premiação, estava, na verdade, feliz com a valorização indireta do trabalho de outro grande poeta do cancioneiro popular americano: Jim Morrison (1943-1971), músico emblemático que, como líder do grupo The Doors, abriu as portas para que a contracultura invadisse os versos das grandes canções.

“A grande luta da vida dele era para ser reconhecido como poeta”, continua Leão, que finalmente estreia em São Paulo, na sexta-feira, 28, o musical Jim, que iniciou carreira em 2013 e passou por 14 cidades, narrando a trajetória de um artista que era, antes de tudo, um filósofo. “Jim era um pensador. Suas palavras são perenes, não ficam datadas. Como o maior legado dele é a poesia, não poderíamos apresentar um musical biográfico convencional, pois não estaríamos sendo fiéis ou coerentes com a obra dele”, continua o ator, que comemora 20 anos de carreira artística, vocação iniciada justamente sob a inspiração de Jim Morrison. “Vi filmes sobre ele e descobri o valor da contracultura, que até hoje me guia.”

Eriberto Leão revela um profundo conhecimento sobre as ideias e a poesia de Jim Morrison, um saber que transforma sua atuação no musical Jim em algo especial - o público não está diante de um ator que apenas reproduz a voz e os maneirismos do cantor americano (ainda que a semelhança seja impressionante), mas de um artista que decifrou o trabalho do outro, buscando entender sua lógica e, a partir de sua própria apreensão, transmitir isso para a plateia.

“Morrison me abriu as portas da contracultura e, sem ela, acredito que eu não conseguiria me manter são em nosso sistema civilizatório”, conta o ator. “Foi graças também a Jim que desvendei o movimento beatnik, o último grande movimento da contracultura mundial por meio da obra de Jack Kerouac e Allen Ginsberg. Jim me permitiu conhecer ainda o universo de outros pensadores, como William Blake e Rimbaud, que mudaram minha forma de ver o mundo.” 

Leão ficou fascinado pela trajetória do músico ao assistir, quando estava com 18 anos, a documentários sobre ele e também ao longa The Doors, controversa biografia dirigida por Oliver Stone, cujas falhas e omissões de informações o musical Jim busca suprir.

Não se trata de uma mera missão - mesmo passados 45 anos depois de sua morte, James Douglas Morrison, ou Jim Morrison, continua sendo uma figura emblemática da recente cultura popular mundial. Suas intensas performances no palco, muitas delas chocantes mesmo para os libertários anos 1960, aliadas a letras recheadas de simbolismo e pitadas de xamanismo, transformavam Jim em um homem de personalidade selvagem e hipnotizante, graças também à sua beleza física, que ele tão bem sabia utilizar. Um carisma tão forte que seu legado ainda se faz presente.

“Quando comecei a pesquisar, descobri um Jim Morrison que não imaginava e que muita gente não sabe quem é, então vimos que precisávamos trazer uma outra ideia do Jim para o público”, explica Walter Daguerre, autor de Jim, cuja direção tem a assinatura de um profundo conhecedor do fazer teatral, Paulo de Moraes. O roteiro, portanto, não é simplesmente uma biografia.

A trama acompanha João Mota (Leão), um homem de quase 40 anos que sonhou em seguir os passos do ídolo Jim Morrison, como artista e ser humano. A peça mostra ele diante do túmulo de Jim, em Paris, no cemitério Père-Lachaise. 

João traz uma arma, pois está decidido a acertar as contas com o vocalista, que tanto influenciou sua vida. Enquanto passa a própria vida a limpo, João reencontra-se misteriosamente com o próprio Jim Morrison e com uma misteriosa mulher (interpretada por Renta Guida), que representa o feminino de diversas formas: Pamela Morrison (mulher de Jim), a mulher de João Mota e ainda a mãe Terra. A presença da personagem pode ser interpretada também como uma consciência intuitiva profunda de João.

“São dois planos paralelos: Mota e seu acerto de contas com Jim, e o vocalista encarnado no próprio João, decidido a se matar, acreditando que foi isso que seu ídolo fez”, destaca Paulo de Moraes.

Peça faz eco com o grito das ruas

Quando estreou Jim no Leblon, no Rio, em 2013, as ruas do bairro fervilhavam com as manifestações que tomavam conta do Brasil. Uma feliz coincidência, observa Eriberto Leão. “A poesia questionadora de Morrison, que buscava mudanças por meio dos versos, se completava com as palavras de ordem dos manifestantes. Por isso que as músicas do The Doors são atemporais.”

Em cena, o ator que, além da semelhança física, também tem um timbre similar ao de Morrison, interpreta 11 canções do The Doors como Light My Fire, The End e Riders on the Storm, entre outras. Músicas cujas letras se sobressaem e revelam o desejo de Morrison em ser reconhecido também como poeta. “Buscamos mostrar que ele não era apenas o homem autodestrutivo, como pensa a maioria das pessoas, mas, sim, um grande e sensível artista. Por isso, é exibido seu mundo interior.”

Eriberto Leão revela-se um profundo conhecedor da obra e do pensamento de Morrison. Aproxima-o, por exemplo, de outro genial escritor, o francês Rimbaud, semelhanças apresentadas no livro Rimbaud e Jim Morrison: Os Poetas Rebeldes, de Wallace Fowlie, que aponta para as afinidades e semelhanças entre os dois.

O músico também admirava profundamente a obra do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, de cuja obra Morrison buscou incentivo para a vida. “Nietzsche matou Morrison, vitimado pela sede insaciável de transformação inspirada pelo poeta”, acredita Leão.

JIM

Teatro Vivo. Av. Dr. Chucri Zaidan, 2.460 (antigo 860). Tel.: 3279-1520. 6ª, 21h30; sáb., 21h; dom., 18h. R$ 40/ R$ 80. Até 18/12

 

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