ANDRE BAUMECKER
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'Éramos em Bando’ mostra as transformações do Grupo Galpão na pandemia

Lançado nesta segunda 21, no YouTube, documentário traz a coragem e as angústias de desbravar novos caminhos

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

21 de setembro de 2020 | 05h00

As transformações da pandemia vieram para ficar no teatro. Enquanto alguns países já realizam atrações culturais (como o recente Festival de Veneza, ou Portugal, que deu os primeiros passos teatrais com a programação do Festival de Paragem, ao ar livre em miniproduções), grupos e companhias brasileiras estão experimentando uma profunda reformulação nas práticas de criação e de reflexão a respeito de um ofício que é nativo do picadeiro. 

Mas isso não significa reclamar que teatro de verdade só se faz no palco. Há muito mais. A coragem de desbravar novos caminhos, sem deixar de lado as angústias, é o que está no filme Éramos em Bando, do Grupo Galpão, lançado nesta segunda 21, em sua plataforma no YouTube

O documentário é uma chance de ver algo diferente das recentes produções audiovisuais aventureiras de outras companhias de teatro no Brasil. Desde que a quarentena estourou no País, muitos coletivos e pequenos produtores arriscam versões online, colagens virtuais de espetáculos e algumas iniciativas originadas inteiramente nas plataformas de videoconferência. 

Éramos em Bando vai mostrar os primeiros impactos da pandemia no trabalho do grupo fundado em 1982. Nesse ano, o Galpão já estava preparado para estrear, na edição do Festival de Curitiba, a montagem Quer Ver Escuta, inspirada em poemas contemporâneos de Angélica Freitas, Ana Martins Marques e Paulo Henriques Britto. Realizado anualmente entre março e abril, a mostra abriu a temporada de cancelamentos na cena teatral, desmobilizando trabalhos em cadeia nacional. “Foi um banho de água fria”, conta o ator Eduardo Moreira. “Estrear é apenas o início de um grande esforço. Já tínhamos temporada confirmada em outros Estados. Tivemos que parar.”

O que restou foi migrar para uma plataforma e descobrir como agir em conjunto, como a atriz Inês Peixoto confessa aos colegas no filme. “A gente trouxe o coletivo para um espaço individualizado.” Em outro momento, as pessoas que aparecem nas janelinhas empilhadas tentam descobrir como deslocar a força dos poemas quando o Brasil inteiro passou a se ver na videoconferência. “A realidade é coisa delicada, de se pegar com a ponta dos dedos”, a atriz Teuda Bara repete um trecho de Paulo Henriques Britto. Também é da obra de Brito a inspiração para o título do filme: “Éramos em bando, por medo. Chegamos tarde. Era sempre maio, sempre madrugada. Tudo era turvo. Éramos em bando. Por medo. Ou tédio”, escreveu o autor no poema Crepuscular.

Na cena, Teuda experimenta dizer o verso mudando o foco das imagens, se movimentando pela casa, mas nada parece agradar os parceiros. Aos poucos, um a um, ele abandonam a tela e deixam a atriz. Este momento pode despertar a memória do público para o espetáculo Nós (2016), dirigido por Márcio Abreu, em que o conflito e a discordância favorece a exclusão na dinâmica da companhia. “O que se vê é um conjunto bonito de humanidades, do respeito às diferenças”, conta Pablo Lobato, um dos diretores do filme, ao lado de Marcelo Castro e Vinícius de Souza.

Moreira concorda com Lobato quando se trata de mostrar fraquezas e incertezas. “Experimentamos muitos sentimentos depois do cancelamento da estreia. Nossas conversas se tornaram diários de tentativas, como tocar a matéria em um ambiente virtual, o que ganhamos ao abraçar a impossibilidade”, questiona o ator.

Para Lobato, os bastidores de Éramos em Bando rendeu, por si só, uma boa narrativa. O convite para dirigir o que seria o filme surgiu momentos após o início da quarentena no País. O diretor foi apresentado ao projeto e passou a conviver com o grupo nas conversas online, sem interferir. O que o restante do elenco não sabia era que os encontros gravados já estavam indo para a ilha de edição. “Eles não imaginavam que já estava valendo. Para mim, era um material muito rico.” Ele explica que garantir essa dinâmica trouxe ideias menos acabadas, justamente para fugir de um conteúdo “ensaiado”. “Eu desconfio do excesso de habilidade. O desequilíbrio pode machucar. Por isso, há algo de bonito na inocência deles, na experiência meio inaugural com o dispositivo.”

E o clima de incerteza favoreceu o papo no filme. Em uma das cenas, a atriz Teuda reclama que durante um trecho queria lamber o outro ator, e que não seria possível naquelas condições. Em um segundo, todo o elenco está lambendo a tela da câmera. “Para nós é uma pesquisa de linguagem quase vanguardista”, diz Moreira. 

Na edição, Lobato diz que teve muito a explorar, por conta do formato e das telinhas lado a lado. “É claro que há limitações para os atores. Quase sempre eles estão sentados, com o rosto no centro, mas a quantidade de telas nos deu liberdades bem diferentes do cinema tradicional.”

As quase quatro décadas que marcam a experiência do Galpão são de trabalhos fundamentados em um elenco sintonizado – mesmo nas divergências. A aposta de criar com diferentes diretores também abriu oportunidades de navegar por linguagens e estilos variados. Com Gabriel Villela, por exemplo, a companhia já apresentou seu Romeu e Julieta no Shakespeare’s Globe, de Londres. Sob direção de Márcio Abreu, o Galpão ganhou desenvoltura em um teatro contemporâneo, comentando a realidade política sempre quente no país. “Já fico pensando em como o filme vai envelhecer”, conta Lobato. 

Além do filme Éramos em Bando, o Galpão deve estrear um novo trabalho, também online, com histórias da pandemia vividas por pessoas comuns.

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