MURILO ALVESSO
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'Entre' mostra irmãos que planejam festa tendo ao fundo os sons de uma briga de casal

Espetáculo do Barracão Cultural criou set para captar sons que são transmitidos em cena

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2019 | 03h00

Não é recente na história do teatro nacional a atenção aos assuntos que são pauta dos direitos humanos, como violência contra a mulher e defesa de minorias. Ao sincronizar as últimas notícias do Brasil e do mundo, a cena na capital paulista mostra que o noticiário – a manchete – tem espaço no palco. No entanto, mesmo as notícias podem envelhecer, ou perder o apelo – a força do protesto. Nesta quinta, 4, estreia o espetáculo Entre, no Itaú Cultural. A peça com texto de Eloisa Elena é uma pista de que o teatro pode renovar sua abordagem sobre assuntos tão antigos e, infelizmente, ainda atuais.

Antes de se explicar a trama, é preciso saber que o espetáculo conta duas histórias simultâneas. Uma às vistas da plateia e outra com sons. O lugar visível é o apartamento de uma mulher, personagem também interpretada por Elena, do grupo Barracão Cultural. “Ela aguarda a chegada de seus dois irmãos, para planejar um evento especial. Os pais deles vão fazer aniversário de casamento e os três irmãos querem preparar uma surpresa”, conta a atriz. Os rapazes são Cláudio Queiroz, no papel de um empresário, e Alexandre Cioletti, como um fotógrafo que parece não lidar bem com as finanças.

Na encenação de Yara de Novaes e Carlos Gradim, esse encontro comum se torna um retrata irônico e cruel sobre a forma como as mulheres são tratadas. “A gente estava pesquisando maneiras de como trazer, à cena, certa identificação para uma história tão banal”, conta Gradim. 

Como um prédio qualquer, de centro da cidade, o barulho de fora invade o espaço entre a sala e a varanda. Talvez por isso, a irmã não se importe em conviver com o calor das janelas fechadas. Durante o encontro, essa rotina será quebrada pelos dois irmãos e um novo – e velho – universo será revelado. “Quando eles abrem as janelas, passamos a ouvir os sons de passos e pessoas falando, de um apartamento em cima”, diz a atriz. Os barulhos de passos, objetos que caem, do chiado de uma panela de pressão e de portas que batem foram recriados pelo músico Dr. Morris, também da Barracão. Ele conta que organizou um set semelhante ao do apartamento que a plateia vê e captou os sons. “No palco, instalamos caixas de som no mesmo lugar e transmitimos. Funciona como um segundo roteiro, outra camada”, explica.

Enquanto o trio fala sobre a festa dos pais, a irmã parece estar afetada pelo barulho que vem da vizinha. A princípio, os irmãos não entendem. E o silêncio da irmã vai incomodar até que, enfim, desponta uma discussão entre um homem e uma mulher no apartamento superior. Chega-se então à – chocante – história paralela, aquela que só será ouvida pela plateia. O casal é interpretado por Lavínia Pannunzio e Joca Andreazza. “Quis trazer diferentes situações em que o machismo pode surgir nas relações, seja entre família ou desconhecidos, seja quando falamos algo ou quando preferimos ficar em silêncio, diante de uma situação”, acrescenta Elena.

ENTRE. Itaú Cultural. Av. Paulista, 149; 2168-1777. 5ª, 6ª, sáb., 20h, dom., 18h. Até 7/4. Oficina Oswald de Andrade. R. Três Rios, 363; 3222-2662. 5ª, 6ª, 20h, sáb., 18h. 11 a 20/4. Grátis.

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