Rafael Côvre/Divulgação
Rafael Côvre/Divulgação

Encontro de gerações pela tolerância

Espetáculo teatral "Avental todo sujo de Ovo", que terá sua última apresentação nesta quarta, 12, discute a relação entre uma transexual e seus pais

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

12 de agosto de 2015 | 08h34

SÃO PAULO - De um lado, o Guaraciaba, septuagenário grupo circense  de Sorocaba, do interior de São Paulo. De outro, um texto com apenas dez anos de vida, feito por um autor de 38 que aparenta ser bem mais jovem, o dramaturo Marcos Barbosa. No centro do encontro, um diretor que soube uni-los, Dagoberto Feliz, do grupo paulistano Folias d’Arte. O objetivo é nobre: mostrar a relação conflituosa entre uma transexual e sua família. 

A coragem do espetáculo Avental Todo Sujo de Ovo, que será encenado às 21h desta quarta-feira, 12, no Galpão do Folias (Rua Ana Cintra, 213 - Santa Cecília), desafia seu público a enfrentar seus preconceitos. "É um tema absolutamente necessário. É obrigatório falar disso", conta Feliz. O espetáculo foi contemplado por um edital de grupos circences do Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo (Proac) e, após uma breve temporada por cidades do interior, encerra sua saga na capital.

O melodrama se passa do começo ao fim na casa de Alzira (Guaraciaba Malhone) e Antero (Hudi Rocha), um casal que gosta de puxar os "erres" e se orgulha disso. Vivem, há duas décadas, com o sofrimento de ter visto seu único filho, Moacir (Renato Gommes), desaparecer de casa sem nunca ter mandado sequer uma carta. Em meio ao drama familiar, une-se Noélia (Edimeia Rocha), a madrinha de Moacir - uma espécie de vizinha bem humorada. 

Alzira confinou-se na igreja. Antero, na bebida e no jogo. Esta é a história de como este casal de pouco repertório formal vai reencontrar a filha - embora insistam em chamá-la pelo nome de nascença por todo o espetáculo - e superar seus medos e dores pessoais.

Moacir, agora uma dançarina, nomeou-se Indiene Dubois. "Isso é inglês?", pergunta a mãe, durante o reencontro. "Não, é francês. Quer dizer "índia da selva", responde a filha. "Moacir já é nome de índio mesmo", retruca Alzira. É nestes simples - e muitas vezes divertidos - diálogos que se constrói uma narrativa que busca desconstruir a figura da transexual. É, afinal, apenas uma conversa entre mãe e filha. 

Se em muitos espetáculos esta figura tão discriminada se transforma no caricato e no ridículo, aqui Gomes dá um show de interpretação e respeito. Foram, afinal, meses de prepação. Ouviu conselhos de uma amiga transexual, visitou salões de beleza e garantiu: todo ensaio exigia o uso de peruca, unhas compridas e salto alto. E ele é o mais inexperiente dentre o elenco - o trio do Circo Guaraciaba tem mais de 50 anos de carreira,  mais do que o dobro da idade do ator, que tem 23. 

Em uma das apresentações, em Sorocaba, no interior de São Paulo, o elenco conta ter recebido o feedback mais emocionante da temporada, do pai de uma transexual de 16 anos. "Ele dissse que há três anos tinha um filho e duas filhas. E que hoje, tem três filhas e ama todas elas". O homem elogiou a encenação. 

O texto do melodrama evita os lugares comuns e passa, quase sempre, por uma aura familiar. Em  determinado momento, Indiene dança para que a mãe veja seu trabalho. Em outro, promete cortar seus cabelos. Em uma terceira ocasião, come o arroz doce com ovo, receita "exclusiva" da mãe. 

Emoção. O grande trunfo de Avental Todo Sujo de Ovo é levar o espectador do riso ao pranto em questão de segundos. E de fazê-lo refletir sobre as próprias emoções. Na cena mais forte do espetáculo, Alzira dá um tapa no rosto da filha e a chama de viado, segundos após uma discussão. Como o clima era de humor, muitos espectadores entendem o xingamento como uma piada, e começam a rir. O "tapa na cara" é quase metalinguagem: todos percebem que estão rindo de uma filha que apanha de sua mãe por ser o que é. E cessam no mesmo instante. 

O episódio se repete algumas vezes: é engraçado rir da filha transexual quando esta começa a dançar? De suas vestes, de sua maquiagem? E será que estas mesmas cenas seriam engraçadas se fossem protagonizadas por um homem ou uma mulher, como diz o termo técnico, "cisgêneros" (ou seja, que se identificam com o próprio gênero)? O diretor Feliz conclui. "É um espetáculo político. Um caminho para termos uma discussão menos burra sobre o assunto". 

Indiene fugiu de casa "para evitar que os pais sofressem". Mas o que a trama mostra, aos poucos, é que todos sofreram com sua falta. Se a peça pudesse ser resumida em uma cena, seria o seu desfecho: a jovem volta ao lar e aos laços familiares ou não pertence mais a aquele lugar? 

A encenação do quarteto não deixa seu público ileso. Faz sentir. Como ressalta o diretor Feliz, um dos maiores desafios foi ter trazido um texto totalmente novo a um grupo que, já de repertório vasto, tinha dificuldades para memorizar tantas falas e adentrar um universo tão "contemporâneo". Mas o desafio pareceu superado: as conversas entre Alzira e Noélia são divertidíssimas.

Um grande destaque do Circo Guaraciaba ao longo da história é a interação direta com o público. Isto se repete logo no início da peça, quando Noélia brinca com dois espectadores - inclusive com este repórter. "Não faço mais favor a ninguém. E nem mesmo a você!", apontando o dedo a quem a assiste. O riso é certo. 

Avental Todo Sujo de Ovo contextualiza duas gerações em um tema mais do que atual. No mesmo dia de sua estreia em São Paulo, grupos conservadores e lideranças LGBT disputavam espaço na Câmara dos Vereadores pela admissão ou não da discussão sobre igualdade de gênero nas escolas de toda a capital. Como já disse Feliz: a discussão é obrigatória. 

A entrada é gratuita. 

CIRCO GUARACIABA. Galpão do Folias. Rua Ana Cintra, 213 - Santa Cecília. Somente hoje, 12/08, às 21h. Gratuito.  

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