LUCAS ÁVILA/DIVULGAÇÃO
LUCAS ÁVILA/DIVULGAÇÃO

Em 'Vaga Carne', Grace Passô é o ponto comum entre palavra e movimento

Montagem da atriz, diretora e dramaturga mineira tensiona uma voz com um corpo de mulher

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

13 Janeiro 2017 | 05h00

“Cuidado com o que planta no mundo.” De repente, um grande abacate cai no palco. Foi dessa maneira que a poesia mineira do Grupo Espanca! tocou São Paulo. Criado em 2004, a companhia foi terreno de intensa criação para a diretora, dramaturga e atriz Grace Passô. Do pequeno quintal do espetáculo Por Elise, o grupo se abriu para o mundo, onde ela atuou por dez anos.

Se suas raízes estão lá, os frutos podem ser vistos em Vaga Carne, solo que estreia nesta sexta, 13, no Sesc Ipiranga. Ao criar a peça, o texto trazia uma simples rubrica: Personagem: uma voz. Cenário: um corpo de mulher. Dentro desse jogo estabelecido, a atriz se torna hospedeira de uma consciência desconhecida. “Esse encontro permite que questões internas sejam exploradas, como a biologia dessa mulher e sua posição no mundo”, afirma Grace Passô. 

No palco, a presença da voz vai provocar o corpo dessa mulher, com a descoberta de um diálogo mútuo. “Trago uma pequena coleção de movimentos que reagem a esses ecos.” A montagem que estreou no Festival de Curitiba no ano passado faz parte do projeto Grãos da Imagem, uma tentativa de resgatar os princípios mais caros do teatro. “É do trabalho em grupo apresentar muitos olhares. O propósito de criar solos é proteger e cultivar a intimidade com conceitos importantes para o artista da cena.”

Nada disso quer dizer que Grace caminha sozinha. Em Vaga Carne há um time de artistas provocadores com muita afinidade, entre eles a atriz e iluminadora Nadja Naira, o músico Ricardo Garcia, além da performer Kenia Dias e o cineasta Ricardo Alves Jr. Ao longo da criação, a equipe testemunhou cena por cena. “Cada um contribuiu com um olhar a partir da própria carreira e também conhecendo minha trajetória”, diz Grace.

E esse olhar diverso que expande a perspectiva também se faz no movimento da própria voz da peça. De dentro para fora, a mulher tem sua identidade posta à prova. Se, por dentro, coração, rins e fígados são comuns entre os mortais, logo a personagem incorpórea vai perceber diferenças mais externas, como a condição social de uma mulher, negra e artista brasileira. “É impossível não passar por isso e não falar de racismo, machismo e preconceito. Embora tais assuntos não sejam tratados como tema, isso se configura como uma identidade, algo real em mim e na sociedade.” 

Grace conta que a condição histórica do negro no Brasil é tão complexa quanto cheia de possibilidades de ser abordada. “O fato de algo ser arte, por exemplo, não o exime de estar imerso no racismo.”

Nos palcos, ela acredita que os coletivos formados por artistas negros têm a grande missão de mitigar uma injustiça maior que o próprio Brasil, mas que são marcadas por companhias históricas como o Teatro Experimental do Negro, fundado no Rio por Abdias do Nascimento, em 1944. “É muito mais que pensar a negritude como tema. Deve ser um estilo de vida, uma condição. Ao reconhecer nossas forças, precisamos nos juntar.” Por outro lado, ela defende que a batalha do artista tem um tom muito característico. “Há pessoas que querem acabar com o racismo na arte como quem muda o nome de um produto.”

VAGA CARNE. Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93. Tel.: 3871-7700. 5ª, 6ª, sáb., 21h; dom., 19h. R$ 12 / R$ 25.  

Até 5/2. Estreia hoje (13).

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