ARMAZÉM COMPANHIA DE TEATRO
ARMAZÉM COMPANHIA DE TEATRO

Em 'teatro emergencial' da Cia Armazém, espectador pode escolher qual história quer assistir

'Parece Loucura, mas há Método' reúne personagens de diversas obras de Shakespeare, do bufão Falstaff ao ambíguo Ricardo II

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2020 | 05h00

Os planos para 2020 já parecem fazer parte de um passado distante. Nas primeiras semanas de março, a Armazém Companhia de Teatro apresentava sua versão de Hamlet para uma plateia de 600 pessoas no Teatro Riachuelo, no centro do Rio. Mas antes que o mês chegasse ao fim, o grupo se viu, como tantos outros, impedido do convívio com o público. Ao menos presencialmente. 

Para a maioria dos coletivos e das companhias teatrais no País, a estabilidade representa uma conquista que pode levar décadas – vai da intimidade criativa ao financiamento do trabalho contínuo –, mas que pode ser perdida em dias. Em 2019, a Petrobrás revisou patrocínios, e a Armazém começou o ano apertando os cintos: a estatal retirou a companhia de seu portfólio de investimentos. “Os planos que já tinham mudado de um ano para o outro foram mudados novamente, agora em questão de dias”, explica a atriz Patrícia Selonk.

Nesta sexta, 17, a companhia adentra o reino das videoconferências com Parece Loucura, Mas Há Método, uma espécie de “teatro emergencial” e menos um “espetáculo online”, segundo a atriz. “Tivemos que observar questões mais urgentes, em como desenvolver um novo trabalho dentro das plataformas.”

Reunir uma plateia, afastada pelo confinamento, não deveria ser desesperador em tempos de redes sociais. O grande obstáculo, para companhias, é que muitas delas desembarcaram na internet sem saber como conversar com seu público nesse ambiente. O discurso teatral, tão natural ao palco e adquirido em anos de carreira, chega com ruído na terra dos youtubers e de profissionais que praticamente nasceram no digital. “Eu via as plataformas online como exposição de discurso de ódio, como é até hoje, ou de perfis bastante consumistas, do corpo e da beleza ideal”, comenta Patrícia.

Ela defende que o teatro emergencial da Armazém está longe de substituir a experiência olho no olho. Por outro lado, bons profissionais também conseguem reproduzir técnica e emoção na frente de uma webcam. “O pensamento precisou ser mais flexível. Mesmo assim, o trabalho de atriz se manteve em mim, a vontade de dialogar com o que está acontecendo. Meu trabalho me dá saúde mental.”

Na prática, a montagem exibida na plataforma Zoom e dirigida por Paulo de Moraes se apega à ferramenta mais primordial da internet: a interação. Apresentada como uma espécie de jogo, a montagem traz inúmeros personagens de Shakespeare para um duelo de textos. Um mestre de cerimônias apresenta ao público as regras e, com o uso de um liquidificador, sorteia números. Os personagens contemplados apresentam trechos de suas histórias. “Ao fim de cada etapa, o espectador é convidado a escolher qual história deseja continuar”, diz o diretor. A trama rejeitada fica fora da narrativa.

No elenco, além de Patrícia, estão Charles Fricks, Isabel Pacheco, Kelzy Ecard, Liliana de Castro, Luis Lobianco, Marcos Martins, Sérgio Machado, Vilma Melo e Jopa Moraes, que também assina o roteiro. “Queremos que as pessoas participem ativamente, e usar essas plataformas ajuda a moldar a interação, dá um novo ritmo, mesmo que para nós ainda seja uma grande experimentação”, conta Patrícia. “A oportunidade também é de reunir parceiros, já que todos foram afetados pela pandemia.”

As personagens escolhidas não são aleatórias. “Buscamos nomes menos conhecidos do grande público, e também figuras muito distintas entre si”, ressalta Paulo. A ambiguidade de Ricardo II, interpretado por Patrícia, compartilha o mesmo espaço do guerreiro bufão Falstaff, papel de Luis Lobianco. “Há tramas de tirania, cômicas, para oferecer ao público a chance de ouvir histórias de guerra, conspiração política, ou algo sobre o amor. E, no outro, pode ser tudo diferente”, conta o diretor.

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