Adauto Perin/Divulgação
Adauto Perin/Divulgação

Em 'Puzzle (d)', diretor Felipe Hirsch revela o vazio do ufanismo

Peça estreia nesta sexta-feira, no Sesc Vila Mariana

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

11 de fevereiro de 2015 | 03h00

A atual situação brasileira incomoda e, ao mesmo tempo, incentiva o diretor Felipe Hirsch. Depois de marcar o início de sua carreira com espetáculos que buscavam resgatar o passado, agora ele mira o presente com um olhar muito crítico. Tal insatisfação criativa resultou em um dos mais importantes projetos cênicos dos últimos anos: Puzzle. As três primeiras partes (denominadas A, B e C) foram encenadas inicialmente em 2013, durante a Feira do Livro de Frankfurt, onde assombrou a crítica local. Agora, surge Puzzle (d), que estreia sexta-feira, no Sesc Vila Mariana, com idêntica ferocidade intelectual. “É uma nova apresentação literária e política do Brasil”, conta Hirsch.

Há quase cinco anos, o diretor iniciou o processo de mudança em sua trajetória que culminaria em Puzzle. “Naquela época, comecei a me identificar com a obra e as opiniões do chileno Roberto Bolaño, especialmente sua crítica severa ao ingresso de Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras e a distância que separa nossa literatura da latina.” Aos poucos, Felipe Hirsch enveredou para literatura nacional mais contemporânea e ali descobriu o eco para suas inquietações. 

 

Assim, ao ser convidado para montar um espetáculo em Frankfurt em 2013, ano em que o Brasil foi homenageado, o encenador desenvolveu Puzzle a partir de 15 textos assinados por nomes como Amilcar Bettega Barbosa, André Sant’Anna, Bernardo Carvalho, Jorge Mautner, Juliana Frank, Juliano Garcia Pessanha, Paulo Leminski, Rodrigo Lacerda e Veronica Stigger. O tríptico surpreendeu a crítica alemã ao colocar em cena questões como a violência, o consumo desenfreado e até os protestos de rua. “As peças transmitem uma noção do estado mental brasileiro além dos clichês, e das muitas possibilidades da narração dramática contemporânea”, escreveu o crítico do jornal Frankfurter Allgemeine.

Puzzle tornou-se o espetáculo mais político já concebido por Felipe Hirsch, que utilizou a palavra como ponto de partida. Assim, a primeira parte, identificada como A, tratava de questões como os movimentos populares e a força das redes sociais. Já a B apresentava uma crítica severa, porém bem-humorada, sobre a ascensão da nova classe média paulistana e seu consumo desenfreado. Finalmente, a C falava sobre o ato de ler e escrever, sobre imaginação. O diretor pretende remontá-las ainda neste ano.

Puzzle (d) começa falando sobre os manifestos paulistanos, mas não os que hoje ocupam as ruas, e sim aquele assinado pelos modernistas da Semana de 22. “‘Somos Concretistas!’, já dizia o Movimento Antropofágico de Oswald de Andrade, antecipando o que seria dito anos depois pelos membros do Noigandres. Eram homens incríveis que pensaram uma arte brasileira genuína dentro de um contexto mundial”, diz o diretor.

O espetáculo, que dura apenas 60 minutos, expande-se nos assuntos, tratando ainda de pixadores e do movimento Mais Amor SP. Apoiado em um texto de Paulo Leminski, a peça trata ainda da inutilidade da arte em um mundo onde tudo tem que dar lucro. “Puzzle (d) segue sobre a solidão de nossa língua. Sobre o isolamento dos países da América Latina. Sobre o solipsismo dos seus poetas.” 

 

 

Esse momento do espetáculo é particularmente caro ao encenador - Hirsch preparou uma minissérie para a Globo envolvendo apenas textos de escritores latinos, projeto ainda em fase de estudo na emissora. “Descobri escritores maravilhosos, que revelam um olhar pessoal e arguto sobre a situação desse lado do continente.”

Além dos escritores participantes desta quarta parte, o diretor decidiu incluir um convidado especial em cada apresentação, artistas que criarão cenas inéditas, sempre envolvidos no mesmo conceito. A lista abre com a cantora Cida Moreira. “Ela foi um ícone de um momento da história musical de São Paulo, os anos 1980, quando existiu o Lira Paulistana, local que se transformou em um caldeirão de novas ideias”, justifica Hirsch que, antes de cada apresentação, vai se reunir, quatro horas antes, com o convidado a fim de acertar sua participação.

O elenco, formado por Georgette Fadel, Luiz Paetöw, Magali Biff, Guilherme Weber, Luna Martinelli e o argentino Javier Drolas, além de atuar, também executa músicas ao vivo, como as múltiplas sonoridades oferecidas por Klavibm II, de Rogério Duprat. E o cenário, formado por tinta e papel, é de Daniela Thomas e Felipe Tassara.

PUZZLE (D)

Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, tel. 5080-3000. 6ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 12/ R$ 40. Até 8/3. Estreia sexta.

OS CONVIDADOS

Sexta-feira - Cida Moreira

Sábado - A definir

Domingo - André Sant’Anna

Dia 20/2 - Laerte

Dia 21/2 - Rodrigo Barros

Dia 22/2 - Rodrigo Bolzan

Dia 27/2 - M. Takara

Dia 28/2 - Flávio Colker

Dia 1/3 - Otto

Dia 6/3 - Veronica Stigger

Dia 7/3 - Carlito Carvalhosa

Dia 8/3 - M. Dias & W. Riedweg

Diretor planeja  filme com Fernanda Montenegro

Felipe Hirsch vive atualmente em meio a um turbilhão de ideias. Além de Puzzle (d), que abriu o Festival Mirada do ano passado, ele já finalizou um ambicioso projeto de minissérie para a Globo, provisoriamente chamado LAB - trata-se de um conjunto de dez capítulos, assinados por diversos autores latinos e brasileiros, que também propõem uma visão crítica da sociedade. “Aguardo agora uma resposta da emissora”, diz Hirsch, que aponta filmagens em outros países.

 

Paralelo a isso, ele acerta os detalhes de um filme que deverá rodar no início de 2016, com Fernanda Montenegro e (ainda não confirmado) Wagner Moura. 

Felipe Hirsch pretende ainda realizar a sua versão para Nova Califórnia, um dos melhores contos de Lima Barreto. E, enquanto aguarda a concretização de realizar um filme na Argentina, prepara-se para montar Puzzle em Berlim e em Varsóvia.

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