Amanda Perobelli
Amanda Perobelli

Em 'Peso Bruto', Jussara Belchior explora os limites do corpo

Performance em cartaz no Itaú Cultural aborda peso, contorno e superfície do corpo

Fernanda Perniciotti*, Especial para o Estado

28 Outubro 2017 | 11h59

Em cena, apenas um banco branco e Jussara Belchior. O fundo é preto, o chão é preto, o vestido é preto. Em Peso Bruto, que inaugura a sua carreira solo e pode ser visto no Itaú Cultural até domingo, Jussara Belchior parece explorar, principalmente, três aspectos do corpo: o peso, o contorno e a superfície. O peso como controle. O contorno como limite. A superfície como exposição. Nos figurinos de Joana Kretzer Brandenburg, ao longo do trabalho, crescem, progressivamente, as camadas que expõem uma mulher gorda.

O branco do banco e o preto do espaço são contrastes de uma escala monocromática, em que os dois extremos se encontram. Como um objeto externo, o banco já estabelece, em relação à Jussara, uma importante associação de proporcionalidade e sustentação. Um corpo volumoso e pesado, que se equilibra em um banco pequeno, com um controle muscular preciso entre ceder e sustentar o peso. Controle muscular que permite quedas que não são desequilíbrios estabanados, ao contrário, são planejadas, colocadas, calculadas. As oposições e os extremos são um jogo constante ao longo do trabalho.

Na primeira troca de figurino em cena, o vestido preto, que já marcava as dobras do corpo, é substituído por um conjunto “sexy” de calcinha e sutiã. Sabemos que tanto o vestido muito justo como as roupas íntimas não são recursos habitualmente utilizados por uma pessoa gorda em cena. A sua superfície é exposta e o seu contorno no espaço ganha outro desenho. Ela faz clichês de posições socialmente vistas como sensuais; discute, assim, a representação da mulher como produto a ser consumido. A pergunta pelo tipo de relação de consumo padronizada para uma mulher gorda insiste.  

Ela se movimenta contra a parede, inverte a verticalidade, fricciona as superfícies. Na movimentação, os seios escapam do sutiã e não são “resgatados”, ficam expostos, comprimidos pelo elástico da roupa íntima e, em alguns momentos, parecem sufocá-la.

Jussara se move com agilidade. A partir do centro do corpo, chacoalha, expõe texturas que desfiguram a sua imagem, produzindo outras dobras, outras marcas, outros modos de se articular. A obesidade, ali, não é mórbida, porque, ao invés de se materializar em falta de vigor, ausência de energia e frouxidão, é movimento, é possibilidade, é capacidade de manipular materialidades, manifestando o que pode um corpo obeso.   

O último figurino é a nudez, mais uma camada de exposição. Jussara se mantém estática, nua, para ser vista. Lança mão de um hidratante e se banha com ele. O cheiro do hidratante se espalha pelo espaço, a superfície da pele brilha, produz uma ilusão ótica de ser mais volumosa. Uma mulher que “deveria” - no sentido de imposição social - se desculpar e reduzir a percepção do seu tamanho, escolhe o contrário. Escolhe produzir a aparência de ser ainda maior.

Na trilha sonora de Dimitri Camorlinga, entra a música Jeito Sexy, do conjunto musical Fat Family. Os movimentos são pequenos, escorregadios, lentos e delicados, até que Jussara passa a deslizar as partes do corpo, banhadas em hidratante, uma sobre a outra, e, depois, no chão. Ainda assim, o controle está ali. As quedas, agora, produzem outro som, o do contato do creme com o corpo e com o chão.

Por fim, nua, e com a superfície da pele ainda brilhando em creme, se aproxima da plateia, como quem pede licença para passar. A proximidade, mais uma vez, redimensiona os contornos. A caminhada pelo centro da plateia faz com que o público tenha que se mover, mover as cadeiras no espaço. A passagem pede respeito a todos os limites do corpo no espaço. O espaço e o outro, e não somente a mulher gorda, se organizam.

Peso Bruto conversa sobre os lugares que um corpo, no caso um corpo gordo, pode habitar. Propõe deslocamentos. A capacidade de explorar vocabulários, que já vem dos 10 anos de trabalho junto ao Cena 11 Cia de Dança, é indiscutível. Ao que parece, no entanto, o próximo desafio de Jussara Belchior e Anderson do Carmo, que assina como dramaturgista, será o de construírem as transições e lapidarem a escolha de materiais, de modo que não fiquem como quadros que se voltam para si mesmos, sem se articularem em uma dramaturgia de dança. Felizmente, o projeto vai ter continuidade, e, quem sabe, se atente para essa necessidade em sua próxima etapa, já que levanta uma discussão indispensável do ponto de vista artístico e político.

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