Carol Cornetta
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Em peça, mulher trans grávida encontra o milagre no próprio corpo

'Nossa Senhora das Transexuais' revela preconceito de uma sociedade que também não tolerou o beijo no asfalto de Nelson Rodrigues

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2017 | 06h00

Na semana em que a peça Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu foi proibida de ser apresentada em Jundiaí sob a alegação de retratar o Cristo como uma mulher trans, o elenco de Nossa Senhora das Transexuais estava atônito. Se o monólogo da atriz trans Renata Carvalho sofreu censura, a peça do dramaturgo Marcio Tito, que faz apresentação única nesta quinta, 14, no Teatro Eva Herz, às 20h, floresce na raiva de vozes que querem interditar um milagre: após uma cirurgia, Olivia de Buñuel, uma mulher trans, fica grávida. “É um acontecimento que serve mais para revelar o preconceito e a falta de generosidade das pessoas”, aponta o autor que avista, de longe, o Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, peça que discute a hipocrisia social sob o pretexto de um homem que beijou um rapaz à beira da morte. “Não há dramaturgo responsável que não pense nele”, lembra ele.

Para a atriz trans Maura Ferreira, que vive Olívia, a peça cria um ambiente quase lúdico ao narrar a saga da mulher, em sua gestação divina. “O mundo fica chocado com a notícia e muitas chegam a tratá-la como uma deusa. De outro lado, há quem queira silenciá-la, o que significa uma questão de sobrevivência para ela, assim como acontece todos os dias para nós.” 

Essa força da transformação rege a montagem de Fabricio Castro. Para ele, trata-se de uma metamorfose que ultrapassa o corpo e a consciência. “É um movimento que molda a forma como vemos o mundo e o outro e isso não pode ser barrado.”

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Renata Carvalho

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