Maurizio Mancioli
Maurizio Mancioli

Em peça, João Paulo Lorenzon se inspira em Van Gogh para falar sobre superação

'Van Gogh – A Sombra do Invisível' fica em cartaz até outubro, em São Paulo

Ubiratan Brasil, Impresso

30 de julho de 2019 | 03h00

A palavra escrita sempre motivou a criatividade do ator João Paulo Lorenzon. Desde que iniciou carreira solo, ele se apoiou no texto de Jorge Luis Borges (Memória do Mundo, de 2008), Jean Genet (O Funâmbulo, de 2009) e nos versos de Sándor Márai (De Verdade, de 2010). Por Eu vi o Sol Brilhar em Toda a Sua Glória (2012), no qual revisitou Borges, foi indicado como melhor ator no Prêmio Shell.

Agora, Lorenzon continua apoiado na literatura para chegar às artes plásticas. Em Van Gogh – A Sombra do Invisível, que estreia no sábado, 3, no Teatro Viga Espaço Cênico, ele parte da obra Cartas a Theo, que reúne a correspondência do pintor holandês com seu irmão, para apresentar um espetáculo sensorial.

“Sempre fui fascinado pela figura de Van Gogh e também por sua pintura, que me parece uma bomba atômica de luz”, conta o ator que, em seu décimo trabalho autoral, é dirigido por Helena Fraga. “Nessas cartas, descobrimos um homem que está perdendo o chão da realidade, mas, ao mesmo tempo, exibe uma lucidez tremenda.”

De fato, escritas entre 1873 e 1890, as cartas mostram um pintor atormentado pelas questões impostas pela sociedade, que não entendia a força de suas telas, cujas cores incendiárias perturbavam o conformismo da burguesia. “São cartas sobre um pássaro dentro de uma gaiola, que questiona o sentido de liberdade”, raciocina o ator. “Ele se questiona: quem está realmente preso? Pois, por dentro, é um homem livre, um animal incontrolável, com um fogo indomável.”

Graças a essa fragilidade encorajadora, Lorenzon pretende seguir, em sua montagem, uma linha mais existencial que histórica. “Estou mais interessado em sua viagem interior”, justifica ele que, no pequeno porão do Teatro Viga, com capacidade para 30 espectadores, vai atuar em um cenário formado apenas por uma ponte inacabada (símbolo do que está incompleto, esquecido, incompreendido) e, sobre ela, uma cadeira, referência à ausência, ao nada, à luta contra o vazio existencial.

“Proponho aqui uma discussão sobre o limite do aprisionamento”, comenta Lorenzon. “O fato de a ponte estar incompleta pode sugerir o isolamento de alguém que se sente renegado. Mas há também o mistério de quem vai além.” E a cadeira também está envolta em um mistério – o ator gosta de citar uma frase enigmática de Van Gogh, que diz o seguinte: “Nunca pintei uma cadeira, mas a ausência dela”.

O leitor que chegou até aqui pode suspeitar que se trata de um espetáculo envolto em mistério, dificultando o entendimento. O teatro de Lorenzon, no entanto, prima pela clareza e pelo convite ao espectador de acompanhar seu raciocínio, a partir das ideias do artista inspirador da peça.

No caso de Van Gogh, o ator busca identificar, nos relatos do pintor ao irmão, o momento em que a força nasce da fraqueza. “A vulnerabilidade não é o oposto da coragem. Pelo contrário, só pode ser corajoso quem for vulnerável”, acredita Lorenzon, cuja encenação tem 50 minutos de duração. “Van Gogh foi um incompreendido, mas levanta questões atemporais, como as que vivemos na sociedade dos dias de hoje.”

Van Gogh descobria novas cores em toda parte, especialmente à noite, momento em que via com uma condição distorcida, quase do mesmo modo que modernistas como Marcel Duchamp e Jean Arp usariam o acaso para fazer experiências e quebrar hábitos. Incapaz de enxergar com clareza, ele pintou o que via, no final colocando suas cores umas contra as outras, como se fossem antagonistas num drama visual.

E o monólogo de João Paulo Lorenzon comprova que, por mais que pudesse ser errático e difícil, por mais que sofresse de colapsos nervosos e depressões, Van Gogh estava longe de ser o maluco consagrado pelo mito, mas, sim, o homem com uma determinação férrea de aprender e crescer como artista.

Van Gogh - A Sombra do Invisível

Teatro Viga Espaço Cênico. Rua Capote Valente, 1.323. Sáb., 21h. Dom., 19h. R$ 60. Até 6/10

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