GABRIELA BILÓ
GABRIELA BILÓ

Em peça, Clarisse Abujamra, Selma Egrei, Chris Couto e Agnes Zulani ironizam vida e morte

'Chá e Catástrofe', da inglesa Caryl Churchill reúne quatro mulheres no jardim para uma conversa que vai de política à fobia de gatos

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2019 | 03h00

A preocupação com o meio ambiente na dramaturgia mundial é recente. Em 1904, Chekhov colocou uma árvore, em Jardim das Cerejeiras, como objeto central da derrocada de uma família. Em 1995, Beckett eternizou uma árvore em seu radical Esperando Godot. No palco de Chá e Catástrofe (Escaped Alone), que estreia nesta sexta, 5, no Centro Cultural São Paulo, um tronco solitário também está lá, rodeado por nuvens na fotografia do espanhol Chema Madoz. 

Nesse delicado ambiente bucólico, na verdade o jardim de Sally (Agnes Zulani), mais três colegas veteranas vão se encontrar para falar dos problemas mundiais na comédia dramática da autora inglesa Caryl Churchill. “É uma peça que se passa durante o chá da tarde ”, explica a diretora Regina Galdino. Cheias de ideias na cabeça, cada mulher tem um perfil peculiar. Sally, a dona da casa, tem fobia por gatos. “Ela é exagerada, sempre chega nos lugares imaginando que eles estão escondidos”, diz Agnes. Já Lena, interpretada por Chris Couto, anda sempre distraída com seu celular e sofre de depressão. “O remedinho sempre está com ela”, conta. A terceira a chegar ao quintal é Vi (Selma), uma mulher que caminha com uma faca na mão. “Ela tem uma história que vai ser revelada. O que posso dizer é que seu marido está morto”, conta Selma com um sorriso misterioso. Por último, Clarisse Abujamra vive Sra. Jarret, facilmente identificada como a “louca das plantas”, sempre tem um vaso perto de si. “É ela quem puxa o debate sobre tragédias e catástrofes mundiais”, diz a atriz.

De posse dos perfis, não é tão simples apontar os caminhos da peça. A dramaturgia da experiente Caryl desfia a estrutura tradicional do texto dramático para incorporar elementos fragmentados, em uma conversa, à primeira vista, bastante aleatória. “Quando recebemos o texto”, diz Chris. “Lemos a primeira vez e não entendemos nada. Lemos a segunda e deu na mesma”, brinca.

Ao descobrirem as biografias de suas personagens, o quarteto ficou surpreendido como a autora reuniu dramas pessoais com importantes assuntos globais. No período de ensaio, não saiu do radar do elenco tragédias recentes como o rompimento da barragem de Brumadinho e o incêndio no centro de treinamento do Flamengo. “Parece que as coisas acontecem porque a Caryl escreveu”, aponta Agnes. É como se comporta a personagem de Clarisse, diz Selma. “Ficamos pensando se ela é uma visionária ou uma testemunha.” 

Para Chris, a tecnologia e a natureza estão enfrentando questões cada vez mais curiosas, e dá o exemplo de um caso recente de aves de rapina que estão sendo treinadas, em diversos países, para interceptar drones que sobrevoam áreas proibidas. “Minha personagem é obcecada por aves e veja o que essas conseguem fazer. Tamanha admiração por liberdade e autonomia dão pistas sobre o quanto Lena se sente presa e oprimida.”

Entre uma xícara e outras, o olhar sobre os problemas do mundo também não deixa de ser um pretexto para desvelar as aparências das quatro mulheres. Na primeira cena, acompanhada pela reportagem, em menos de cinco minutos o quarteto disse nomes de sobrinhos, filhos, netos, todos ausentes da vida diária. “Parece um destino de toda mulher, sobrar, enquanto a família cresce e toma outros rumos”, diz Agnes. “Na verdade são os homens que não conseguem ficar sozinhos. Depois de um término ou uma separação eles não são vistos desacompanhados”, defende Chris.

Neste ano, já é possível perceber que as produções em cartaz que enfocam o universo feminino estão entre os espetáculos mais contundentes. E não por reuni-las em uma mesma ficha técnica, como se deu nos últimos anos. Empreender Chá e Catástrofe – o texto de autora de 80 anos, com um elenco e direção de artistas maduras – resgata com dignidade e humor uma das funções mais primitivas do teatro: a comunicação. “O importante é que não são mulheres falando sobre a menopausa”, aponta Chris. “São elas falando de suas vidas, de política, meio ambiente, medos, enfim, falando do mundo”, completa Agnes.

Autora que inspirou uma geração de artistas 

Com quase 60 anos de carreira, Caryl Churchill foi responsável por “mudar a linguagem do teatro”, como definiu certa vez o dramaturgo alemão Marius von Mayenburg.

Com mais de 30 peças escritas, além de adaptações e textos para rádio, a autora inglesa nasceu em 1938 e teve de deixar o país com sua família durante a Segunda Guerra Mundial. Ao fim do conflito, retornou do Canadá, para estudar literatura inglesa, quando lançou uma série de peças ainda durante os estudos.

Crítica do capitalismo e do poder, Caryl ampliou em seus textos o desenvolvimento das ideias do drama épico para Brecht, além de iniciar experimentos em dança-teatro e de explorar o conceito de performance a partir do teatro pestilento de Artaud.

Para a diretora Regina Galdino, os textos de Caryl ganham uma composição surreal sem abdicar do debate sobre temas bastante urgentes. “Ela preparou o terreno para muitos autores. É difícil olhar para dramaturgos ingleses mais recentes e não ver o estilo de Caryl entre eles. Além disso, seu olhar feminista oferece uma perspectiva crítica sobre a história, e com as mulheres no centro.”

CHÁ E CATÁSTROFE. Centro Cultural São Paulo. R. Vergueiro, 1.000. Tel.: 3397-4002. 6ª, sáb., 21h, dom., 20h. Estreia hoje, 5. R$ 20 / R$ 10. Até 12/6.

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