Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Em 'Oeste Verdadeiro', Sergio Guizé vive ladrão com talento para ser artista

Texto de Sam Shepard cria embate entre irmãos que se enganam diante do sucesso de uma boa história

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2017 | 03h00

Foi na sujeira e no crime de Hotel Lancaster (2006) que surgiu o desejo de continuar um trabalho abrigado nos obscuros interesses do ser humano. O texto do dramaturgo Mário Bortolotto, que acompanhava um encontro entre traficantes e prostitutas horas antes do ano novo, tinha Sergio Guizé no elenco. Nesta sexta, 7, ele volta aos palcos em Oeste Verdadeiro, sob direção de Bortolotto. 

Na montagem, o ator vive Lee, um jovem errante que passa seu tempo no deserto e se sustenta por meio de roubos. Ele interrompe esse período de isolamento para visitar a mãe (Mara Faustino), mas ao chegar descobre que ela está viajando e que o irmão, Austin, um roteirista de cinema, está cuidando da casa. A receita está dada para uma batalha com tons de competição dos bíblicos Esaú e Jacó. “Eles são opostos e carregam certo desprezo um pelo outro”, conta o ator que viveu o sucesso de João Gibão na novela Saramandaia e Candinho de Êta Mundo Bom! “Mas também percebem coisas que faltam em suas próprias vidas”, completa o ator Carcarah, no papel de Austin.

Assim que o desonesto Lee chega e descobre ter tanto talento quanto seu irmão para as artes, entra em choque com Austin, que está em busca do sucesso. “Austin está escrevendo um roteiro romântico e vai ser atrapalhado pelo irmão vagabundo e bêbado”, explica Bortolotto. Enquanto o irmão tenta vender seu projeto para um agente gay de Hollywood (Walter Figueiredo), o personagem de Guizé seduz o homem a aceitar uma ideia sua com uma aposta em uma partida de golfe. Um detalhe é que Lee mal sabe escrever. “O autor também revela os bastidores da criação cinematográfica e artística, na qual os acordos são feitos levando em conta outros interesses”, explica também Figueiredo.

A escrita, que poderia unir os irmãos, torna-se mais um motivo de competição. No início, Austin ajuda Lee na transcrição de seu Oeste Verdadeiro, um antigo símbolo norte-americano de prosperidade e oportunidades, como o irmão roteirista, mas que também possui um lado selvagem, tal qual Lee. 

Para Bortolotto, que já montou outra peça de Shepard, Criança Enterrada, o autor retrata o realismo e a dureza das relações familiares. Na trama, Dodge e Halie tentam administrar suas terras e a própria sanidade, enquanto cuidam dos filhos. Um dia, um neto sumido volta à casa, mas ninguém parece reconhecê-lo. “São relacionamentos cheios de problemas, principalmente com a figura paterna, como na vida do próprio autor.” O diretor lembra que Shepard carrega em suas obras as revoltas de sua própria vida. O ator e dramaturgo norte-americano já foi detido por dirigir alcoolizado. Em 2017, ele completa 74 anos.

Além da temporada no Cemitério dos Automóveis, Guizé planeja levar a peça para o Rio e circular pelo País. Neste ano, ele vai gravar Mulheres Alteradas, filme de Caco Galhardo, ao lado de Deborah Secco e Luciana Paes, e também se prepara para a próxima novela das 21h, de Walcyr Carrasco.

OESTE VERDADEIRO

Cemitério dos Automóveis. R. Frei Caneca, 384. Tel.: 2371-5743. 6ª, sáb., 21h, dom., 20h. R$ 40 / R$ 20. Estreia hoje, 7. Até 11/6

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.