Rafael Arbex / ESTADAO
Rafael Arbex / ESTADAO

Em 'Nuremberg', skinhead treina para cometer atentado

Monólogo do uruguaio Santiago Sanguinetti expõe homem que confidencia paixão pela missão neonazista

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2017 | 06h02

A criação de um tribunal militar internacional para julgar o alto escalão nazista por crimes contra a humanidade após Segunda Guerra Mundial foi decisão inédita na história e a cidade escolhida não foi à toa.

O monólogo Nuremberg estreia neste sábado, 2, no Centro Compartilhado de Criação, com o ator Osmar Pereira na pele de skinhead neonazista que se prepara para realizar um atentado.

O texto, que marca a estreia do dramaturgo uruguaio Santiago Sanguinetti no Brasil e recorda o período entre 1945 e 1946, quando a cidade alemã foi palco da condenação de ministros, secretários, comandantes e chefes de operações à morte por enforcamento, prisão perpétua e a longas penas. Mas tudo isso é pretexto para encarar o jovem que destila sua crença na violência e a fé na pureza e superioridade racial, conta o diretor César Maier, da Cia dos Homens. “Quando li o texto há alguns anos, fiquei assustado com as palavras. Mesmo assim, o que esse personagem fala e pratica está banalizado nas redes sociais e na internet em geral.”

A preparação do homem para o atentado também é atravessada por seu passado. Ao regressar, o personagem acessa sua memória sobre a infância marcada por um pai autoritário e uma mãe cruel. Em uma cena, o personagem confidencia que foi castigado pela mãe porque “economizar é coisa de judeu!”, disse a mulher ao encontrar algumas moedas no bolso da calça do filho. “A peça toca esse homem como um mito ao expor suas sombras que não são nada fáceis de enfrentar”, conta ainda o diretor.

Para Pereira, construir esse personagem não o poupou de ler páginas e páginas sobre gangues neonazistas nas redes sociais e entender como São Paulo abriga esses grupos. “Quanto mais eu pesquisava, mais me dava nojo. Durante os ensaios, precisei me afastar para conseguir enxergar o trabalho e não ficar imerso nele”, conta em referência a uma gangue formada na região do ABC que tem como lema “Deus, pátria e família”. A esse grupo foi atribuído o assassinato do adestrador de cães Edson Neri da Silva. Em 2000, ele foi linchado, por mais de 30 pessoas, enquanto caminhava de mãos dadas com o companheiro na Praça da República. O diretor acrescenta que manter o olhar crítico na criação do espetáculo foi importante para que a peça não soasse como apologia, mas que também não perdesse a crueldade de sua dramaturgia. “Sempre houve um temor de que o público pudesse pensar que concordaríamos com esse homem. Acredito que o limite dos atos dele nos aproxima das violências mais discretas como sentimentos de superioridade e ódio. A diferença é que parte de nós não quer exterminar ninguém.” O ator acrescenta que é daí que surgem outras formas de violência como machismo, homofobia e o racismo. “São coisas que acontecem no cotidiano da cidade.”

E em São Paulo e no Brasil não faltam desdobramentos desse sentimento de superioridade. Na última terça-feira, um homem ejaculou no pescoço de uma mulher dentro de um ônibus na Avenida Paulista e segue em liberdade. Em março deste ano, a travesti Dandara foi apedrejada e morta no Ceará. E já completou uma década da morte do índio Galdino, queimado vivo em Brasília.

Manchetes como essas figuram em um telão, entre cenas de Hitler saudando o povo e bandeiras com a Cruz Gamada. “Nos interessa investigar esse lado sombrio e brutal, algo que os dramaturgos de São Paulo não exploram tão intensamente, como os autores uruguaios, por exemplo. É um modo de nos aproximar da nossa própria escuridão para não perdê-la de vista.”

NUREMBERG

Centro Compartilhado de Criação.

R. Brig. Galvão, 1.010. Tel.: 3392-7485. Sáb. 20h, dom. 19h. R$ 40/ R$ 20. Estreia sábado, 2. Até 1º/10

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