FABIANA STIG
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Em novo espetáculo do Balé da Cidade de São Paulo, corpos escapam de prateleiras e dançam

'A Biblioteca de Babel' estreia nesta sexta, 14, com coreografia de Ismael Ivo

Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2019 | 21h25

O palco do Teatro Municipal será ocupado pelo Balé da Cidade de São Paulo, que mostra seu novo espetáculo, a partir desta sexta, 14. Trata-se da coreografia A Biblioteca de Babel, que tem inspiração em texto do escritor argentino Jorge Luis Borges, e foi criada por Ismael Ivo, diretor artístico da companhia. Em cena, os 34 bailarinos surgem arquivados em uma prateleira como se fossem livros. A ideia e o conceito são de Ismael junto com Marcel Kaskeline, que também é o cenógrafo.

De acordo com Ismael Ivo, A Biblioteca de Babel faz referências à mitologia bíblica da construção da Torre de Babel. “O fato principal descreve a ambição humana com a construção de uma torre muito alta com a intenção de entrar na morada Divina. Como punição, foi instaurada a mistura de línguas, divisão de povos e culturas”, explica o coreógrafo, acrescentando uma ligação com o momento que vivemos, com a polarização de ideias, confronto e desentendimento. “Estamos no labirinto da enciclopédia humana de Borges, e o espetáculo torna-se uma arena de discussão corporal e um laboratório das relações humanas.”

Para o diretor, A Biblioteca de Babel reflete o momento atual. “Estamos vivendo numa grande polarização de ideias. Se você não pensa como eu e não compartilha o mesmo Deus, então se torna meu inimigo”, afirma Ismael. E isso poderá ser visto em cena, no momento em que o palco se transforma em uma arena de discussão corporal. Será um confronto corpo a corpo, enfatiza Ismael. 

Criação traz essa mescla de propósitos, que desencadeia os piores sentimentos humanos – desrespeito, intolerância e violência. Para Ismael, o propósito é ter os corpos como livros únicos que se abrem e aprendem com os outros. “Temos que recuperar a capacidade de aceitar diferenças, voltar a praticar inclusão e tolerância”, diz, enfatizando que “o espetáculo fala do corpo social de hoje”.

E a elaboração propriamente dita de A Biblioteca de Babel, segundo Ismael, é o resultado do trabalho de um time criativo de profissionais que, “a partir das matrizes de inspiração respondem e colaboram com sua própria arte”. Coreógrafo diz que, no final, esse é um trabalho colaborativo e explica que o cenógrafo propõe uma visão de espaço e ambiente, a figurinista sonha como vestir e, ao mesmo tempo, revelar os corpos-livro e o iluminador tenta traduzir em cores e intensidades o universo existencial de Borges. “Eu olho cada corpo de bailarino como um livro misterioso, tento perceber suas emoções e sensibilidades em cada gesto e movimento proposto. Criamos a coreografia num contexto de surpresa e descoberta.”

Ismael Ivo revela que o espetáculo é aberto com imagem de “corpo humano deitado no solo, tendo em cima de si um esqueleto” e se trata de uma homenagem à artista Marina Abramovic, “uma amiga e parceira”. 

Mesmo com sua experiência, Ismael diz ainda sentir friozinho no estômago antes de uma estreia. “Sempre! Na Europa, esse momento se descreve como ter ‘borboletas no estômago’. Como bom antropófago, abro a boca e deixo elas saírem voando colorindo os céus de São Paulo.”

BALÉ DA CIDADE DE SP. Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/nº. 4ª a sáb., 20h; dom., às 18h. R$ 12/ R$ 80. Até 23/6. Estreia nesta 6ª (14) 

 

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